O jornalista virou notícia
Jornalista não é notícia. Isto a gente aprendia no dia mesmo em que entrava na redação de um jornal com a pretensão de ser jornalista. E significava que nossa função e missão era falar dos outros. Quando o jornalista se tornava notícia, a não ser claro quando ganhava um prêmio ou era processado por alguém, era porque ele havia mudado de profissão - normalmente virava político. O outro jeito de se tornar notícia é este escolhido ontem pelo Paulo Francis: morrendo.
Quando Paulo Francis se tornou notícia, aqui na redação, ontem pela manhã, provocou um choque e um susto. Deveriamos estar acostumados, nós que vivemos fazendo notícia e contando a cada dia quase que de modo mais amplo as tragédias e acontecimentos ruins da vida, com a morte que é uma consequência natural da vida. Assim como Paulo Francis, basta estar vivo para deixar de estar.
Mas é claro que choca. E entristece. Curioso isto. Paulo Francis não era o mais popular dos jornalistas brasileiros. Ao contrário. Era polêmico, um pouco prepotente, arrasador em suas críticas, ferino mesmo, provocava reações fortes exatamente por isto. Mas também por isto tinha de provocar admiração. A relação dele com o público era em muitos casos de amor-ódio, o que é aliás uma das fórmulas mais comuns na vida, principalmente diante de alguém que sempre tomou posições, caso do polêmico Francis.
Eu mesmo não era o maior fã dele. Acompanhei sua carreira desde os tempos do Pasquim, época em que aquela publicação representava uma verdadeira bandeira de coragem e luta diante da ditadura que oprimia o país e dava aos jornalistas um sentimento de impotência face à força irracional do totalitarismo. O Pasquim era uma trincheira na luta pela liberdade e Francis um dos grandes lutadores. Por isto, acabou também perseguido pelo regime. O que, aliás, não mudou muito ao longo do tempo. Pois ainda agora, em plena florescência da democracia, ele enfrentava ações da Petrobrás, um dos grandes alvos de suas mais contundentes críticas.
Nestes últimos tempos, acabei me tornando um quase fã. Era divertido acompanhar principalmente o Manhatan Conection de que ele participava no GNT (TV a cabo) e em que era sem dúvida o principal nome. Caio Blinder e Nelson Mota era simples coadjuvantes. E, agora, sem ele, penso que o programa se esvazia. Aliás, esta morte, esvazia nossa profissão. Como disse o jornalista Edilson Moura, aqui na redação, logo que soubemos que Francis morreu: não foi só um jornalista, ele valia por mil. O jornalismo ficou um pouco mais pobre e nós, jornalistas, um pouco mais tristes.





