São Paulo, 12 (AE) - A vida de Tchaikovski não foi um melodrama como pretendia o filme dirigido pelo inglês Ken Russell, "Delírio de Amor" (The Music Lovers, 1971). Tampouco foi uma vida comportada como a da versão cinematográfica russa. Foi uma tragédia política, segundo a nova biografia do compositor, "Tchaikovski", de Anthony Holden (Editora Record, tradução de Maria Beatriz Medina, 532 páginas, RS$ 55,00, nas livrarias a partir da próxima semana). O autor é um jornalista inglês que escreveu as biografias de Laurence Olivier e do príncipe Charles.
Descontente com a versão oficial da morte de Tchaikovski
viajou à Rússia e confirmou a suspeita: o músico não morreu de cólera. Tchaikovski foi obrigado a tomar veneno. Como Sócrates, acusado de corromper a juventude (Tchaikovski era pedófilo), o compositor russo teria sido instado pelo czar Alexandre III a escolher entre ser julgado por sodomia ou cometer suicídio, entregando um revólver e um anel cheio de arsênico ao músico. Tchaikovski teria preferido a "morte digna".
Outras versões apontam a paixão pelo sobrinho, Bob Davidov, a quem dedicou sua sinfonia "Patética", como a razão de sua morte, mas Holden não despreza ainda a versão que sustenta ter sido o relacionamento homossexual com um sobrinho do duque Stenbock-Thurmor o estopim de um julgamento que persuadiu Tchaikovski a se matar. Essa versão fala em julgamento pronunciado por um júri privado que sentenciou Tchaikovski, em 1893, a acabar com a vida. O compositor temia ser reconhecido socialmente como homossexual.
Além disso, a homossexualidade era considerada crime na Rússia, punido com a perda dos direitos civis e exílio para a Sibéria. O duque Stenbock-Thurmor, importante membro da nobreza, consciente do fato, teria encaminhado ao promotor-mor do Senado russo, Nikolai Borisovich Yakobi, uma carta irritada denunciando o caso de Tchaikovski com seu sobrinho. Yakobi, colega de Tchaikovski no Colégio Imperial de Direito em São Petersburgo, não a entregou ao czar, que adorava o compositor. Convocou uma corte de honra para decidir o destino do músico. Detetive - Holden não é Sherlock Holmes nem mesmo Poirot. Há lacunas em sua investigação, mas não se pode dizer o mesmo da acurada análise das cartas trocadas entre o compositor e seu irmão Modest, homossexual como ele. Holden sabe que não escreveu algo tão monumental como o conjunto de biografias do ensaísta David Brown ou de Alexander Poznanski. Sabe mesmo que Poznanski não concordaria com muitas das suas observações, principalmente porque, entre suas fontes, encontra-se o cineasta Ken Russell. Mas tem um boa carta na mão: não é moralista.
Em certos trechos, aliás, é possível notar uma aproximação com o filme do inglês. A cena da lua-de-mel fracassada de Tchaikovski com sua mulher Antonina é descrita seguindo o roteiro do patético assédio sexual de Glenda Jackson no trem, rejeitada aos gritos por um Richard Chamberlain histérico ao som da torturada "Sexta Sinfonia". Tchaikovski descobre, horrorizado, que Antonina não conhecia uma só nota de sua obra. A costureira estava interessada em outras notas e numa aproximação nada espiritual com o músico. De volta a Moscou, Tchaikovski, segundo Holden, buscou refúgio na garrafa. Nada demais para quem já engoliu teorias psicanalíticas que associam dependência de álcool a tendências homossexuais. Complô político - Seja como for, a homossexualidade de Tchaikovski não é novidade para ninguém. Tampouco o complô político para envenenar o compositor, conhecido desde o começo dos anos 80. Então, o que Holden tem para oferecer? Muitos fatos novos e uma análise procedente sobre as relações entre experiência existencial e criação. Tchaikovski seria um criador dominado pela sublimação corrosiva. A posteridade preferiu acreditar que Tchaikovski morreu por um copo de cólera porque não conseguiu aceitar que aquilo que ouvia não eram notas musicais, mas gritos abafados de um homem torturado, exterminado socialmente por sua condição sexual. Para Holden, Tchaikovski caminhou lentamente "na direção de um final bizarro e totalmente inevitável". Para ele, é um erro desprezar ligações entre as obras musicais e sua sombria existência emocional, marcada por encontros fortuitos com garotos de programa, serviços sexuais de criados e trocas de favores com a aristocracia russa. Tchaikovski tinha verdadeiro pavor que as pessoas sondassem o mundo particular de seus pensamentos e sensações, escondidos cuidadosamente durante toda a vida.
Mas Holden, aparentemente um pacato heterossexual, casado e com filhos, considera a homossexualidade do compositor a chave para o entendimento de sua música. Sua tese: a sensação de que seu comportamento era "antinatural" teria gerado em Tchaikovski uma culpa tão monstruosa que só a criação de algo gigantesco poderia redimir o compositor de seus "pecados". Mundo feminino - As mulheres carentes e condenadas pelo destino (Julieta, Francesca da Rimini) seriam criaturas inspiradas pela mãe fria, infeliz e distante de Tchaikovski, segundo Holden. A facilidade de adoecer, a falta de autoconfiança e medo de desafios responderiam pela fragilidade da fadinha açucarada que pula de um compasso a outro na obra do compositor, obscurecendo peças de peso como a ópera "Eugene Oneguin", que, para surpresa dos ortodoxos, traria uma boa carga de homoerotismo.
Holden carrega nas tintas. Tchaikovski não é o homem polido que aparece nas fotos, mas um animal corroído pelo desejo e pela introspecção mórbida, que sofre de hemorróidas e come papel. Em outras páginas ele é descrito como jogador e alcoólatra, um conservador político que, apesar disso, tinha compaixão pelos miseráveis e fazia Tolstoi chorar com o andante cantabile de seu primeiro quarteto de cordas. Mais adiante, Holden lembra que, em 1869, Tchaikovski foi a uma baile de fantasia em Moscou vestido de mulher.
Três ou quatro parágrafos adiante é a vez de relembrar o curioso arranjo sexual dele com seu criado Mikhail, um camponês de 21 anos que empurrou o irmaõ de 12, Alexei, para a cama do patrão. Descendo um pouco mais nos círculos infernais, Holden vai descobrir no apartamento de Tchaikovski um inquilino, Bochechkarov, que assumiu o papel de cáften, alimentando o ménage à trois dos irmãos Mikhail e Alexei Sofronov com mais carne do submundo pedofílico moscovita.
Tchaikovski teria relatado alguns desses casos em cartas
trocando nomes masculinos por femininos, como seria costume entre as tiotki (tias, homossexuais mais velhos). Esses arranjos seriam feitos até mesmo fora da Rússia, segundo o biógrafo. Napoleão rufião - Em Florença, Tchaikovski era conhecido de um rufião chamado Napoleon, que lhe arranjava rapazes enquanto madame Von Meck, protetora do compositor, sonhava platonicamente com seu ídolo no lado nobre da cidade. Nesse ponto o leitor já descobriu ser Holden um jornalista inglês que não consegue escapar da perigosa síndrome do jornalismo britânico, o prazer de chocar burgueses escandalizáveis. Em sua defesa, deve-se dizer que suas associações não são gratuitas.
Holden mostra como, a exemplo de Oneguin, Tchaikovski transforma-se num amante marcado pela filosofia, condenado a refletir sobre a condição do homem superficial, incapaz de entender a integridade amorosa do mundo feminino. No íntimo, segundo o biógrafo, não era apenas o medo do escândalo que fazia Tchaikovski esconder sua homossexualidade, mesmo vivendo entre pessoas progressistas e liberais. A recusa em expor sua condição é entendida como uma tentativa de integração. No fundo, defende Holden, o compositor continuava decidido a ser como os outros homens. Foi um mártir da homofobia russa.
Outro biógrafo do compositor, Alexander Poznanski, diz que tudo isso é besteira e promete escrever outro livro sobre a polêmica morte de Tchaikovski. "É o mesmo que dizer que Wagner morreu engolido por um urso", diz. "Os ingleses têm verdadeira obsessão por conspirações contra os gays desde Oscar Wilde", conclui. A versão oficial da morte, evoque-se, adota os relatórios do médico particular do músico e sua autópsia: Tchaikovski morreu de cólera após tomar um copo de água contaminada. Holden admite: não há evidência conclusiva a não ser com a exumação do corpo, mas ele fez mais pesquisas do que todos os biógrafos juntos.
São conhecidos os percalços de quem se dispôs a desvendar o mistério dessa morte. Os censores soviéticos tiraram de circulação, em 1942, os cinco volmes da biografia escrita por Andrei Budiakovski. Modest, o irmão de Tchaikovski, teria queimado parte dos diários do compositor e cortado os trechos mais quentes das cartas escritas por ele, na biografia que produziu logo após a morte do músico. Para piorar a situação, a cidade natal de Tchaikovski, Votkinsk, até 1987, era uma das "cidades fechadas" da União Soviética, porque lá fabricava-se o míssil SS-20, último artefato de médio alcance a equipar as forças nucleares do pacto de Varsóvia. Só nos anos 90 pesquisadores ocidentais puderam, enfim, entrar na cidade.
Valeu a pena. Holden pode não ser David Brown, mas é um jornalista que não despreza as fontes primárias do mistério Tchaikovski, como um relatório médico publicado na "Gazeta de São Petersburgo" em novembro de 1893. Ele lembra que o compositor, na noite anterior à sua morte, comeu macarrão no restaurante Leiner com seus parentes e nada bebeu. Por que, então, Tchaikovski tomaria água contaminada, não fervida, em casa? É a pergunta que permanece no ar após todos esses anos.

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