O joio e o trigo
PUBLICAÇÃO
sábado, 18 de outubro de 1997
Zeca Corrêa Leite Curitiba 
Reprodução/Auto-retratoVincent Van Gogh: incompreendido no seu tempo, um gênio da pintura hojeDifíceis tempos estes para as artes plásticas. O marchand Waldir Simões, que há 14 anos trabalha com um grupo seleto de artistas como Brecher, Ianelli, Mabe, Sérgio Ferro e Carlos Araújo, conta que leu na imprensa um fato ocorrido na última Bienal de São Paulo. Os pedreiros deixaram um carrinho com cimento e pá no local de exposições. Quando alguém achou de retirar o material, encontrou um grupo de pessoas apreciando o que julgavam ser uma obra selecionada.
História semelhante aconteceu numa das edições do Salão Paranaense, nos anos 80, envolvendo o júri na fase da seleção. Ano passado, na Inglaterra, descobriu-se tardiamente que um desenho premiado num conceituado salão era de autoria de uma criança de cinco anos. Foi um escândalo.
Essas pequenas desavenças mostram que a arte, ao avançar por caminhos menos rígidos, abriu espaço para joios e trigos, artistas genuínos e aventureiros. Para a diretora do Museu de Arte Contemporânea do Paraná e professora da História da Arte, Maria Cecília de Noronha, é fato comum no transcorrer da história encontrar-se pessoas tentando se igualar aos artistas. Porém, os eleitos, só serão ungidos com o tempo.
Não são os contemporâneos que elegem os representantes da arte verdadeira. Para se justiçar Van Gogh foi preciso que se passassem 100 anos. Com raríssimas exceções os artistas são valorados na sua época, explica Maria Cecília. O reconhecimento era mais fácil quando imperava o academicismo, com seus parâmetros facilmente legíveis.
Apesar das regras de então serem ditadas por uma anatomia perfeita, sombra, luz e reprodução quase perfeita da natureza ainda assim nem todos ultrapassaram os séculos. Muitos que se diziam e se julgavam artistas foram descartados. Fazer bem feito não é tudo nas artes. É preciso um algo mais que o diferencia dos outros, continua a diretora do Mac. É preciso possuir o fantástico que o torna realmente artista.
Sem regrasPara se avaliar a produção atual está mais difícil que outras eras porque o campo é muito mais amplo. A arte contemporânea é abrangente e não tem a receita do passado. Instaurou-se a liberdade do vale-tudo, e aí nunca se sabe se um monte de pedras é escultura, instalação ou lixo. Como o carrinho do pedreiro.
Para avaliar as obras não vale receituário, tem que ter o olho educado, diz Maria Cecília. Ao observador sem preconceito a franqueza das produções contemporâneas expõe o discurso de forma mais imediata. Esse tipo de espectador entende a arte como fruto da percepção de um momento, de sensação vivida pelo autor. Para ele flui naturalmente a comunicação.
As pessoas comuns procuram nas telas, preferencialmente, aquilo que elas já conhecem e faz parte de seu repertório, como as paisagens. Então acham bonito porque há um registro dentro delas. As de olhar educado têm um senso de percepção mais agudo. Até um monte de pedras acaba ganhando um certo sentido.
Já uma terceira categoria de apreciadores, que conhece arte com profundidade, além do olho clínico, é o que se pode chamar de agente de mudanças. Este é um estágio que os jovens universitários poderiam atingir, caso não tivesse ocorrido em nosso País uma desastrosa reforma universitária. Não temos formação de massa crítica. A Universidade se eximiu dessa tarefa, critica Cecília.
Não só nas artes plásticas isso ocorre. O público acostumou-se a levantar ao fim de cada espetáculo e aplaudir de pé sem saber o quê: se é o nome famoso da televisão que está no palco ou se foi aquilo que viu. O que não se aplaude é o teatro, assevera a diretora.
EncruzilhadaO marchand Waldir Simões vê a arte contemporânea em meio a encruzilhadas, sem saber direito para onde ir. Mesmo certas vanguardas que se alardeiam por aí: seriam realmente vanguardas ou a leitura de movimentos ocorridos no início do século?
A história guarda os dadaístas, os desconstrutivistas, Marcel Duchamp - alguns dos que enveredaram na criação e mudaram destinos. Entre os vanguardistas é claro que tem muito gato se fazendo passar por lebre. Tem muita gente que se esconde atrás de um gesto por não saber desenhar ou pintar, alfineta Waldir.
Mas sem experimentação não existe evolução, acrescenta. E como a unanimidade não existe quanto a crítica e público sobre os artistas contemporâneos, resta entregar os talentos à perenidade dos anos. O tempo vai nos julgar, decreta.


