João Caldas/DivulgaçãoMarília Pêra escala os picos mais elevados de sua cordilheira de memoráveis interpretações‘‘Master Class’’ pode e deve chegar a Curitiba. Já foi sucesso em São Paulo e no Rio, está ultrapassando todas as expectativas de público. Encená-la no Rio foi difícil. A mesma dificuldade pode acontecer no Paraná, se o público não fizer eficiente pressão cultural para incentivar patrocinadores.
Sim, porque ‘‘Master Class’’ precisa de apoio criterioso e corajoso para separar o joio do trigo da visão delirante e apelativa de Terence McNally, o autor. O joio é um estranho monólogo: Maria Callas evocando seu tumultuado relacionamento com o armador grego numa linguagem crassa e grotesca. Apelo linguístico que desagrada e envelhece a imagem da mítica diva.
A palavra testículos é ilustrada com gestos obscenos e expressões de baixo calão. Exibição premeditada de coprolália para transmitir uma relação sexual masoquista e vulgar, cheia de áreas cinzentas no espírito iluminado da incontestável eleita. Seus leais admiradores se sentem consternados e indignados na platéia.
Por que, então, levar ‘‘Master Class’’ no Paraná? Pela mesma razão que se levou o musical ‘‘Evita’’ aos quatro cantos do mundo: ser visto, aplaudido, analisado e contestado pelos que conhecem realmente a verdade política e humana de Eva Perón. Em ‘‘Master Class’’ (aula magna em correta tradução de Millor Fernandes), Callas - como Evita - consegue esmagar as distorções do autor e se elevar ao pedestal dos mitos, onde as pedras atiradas retornam ao autor com efeito boomerang .
Ambas são vilipendiadas e ambas saem incólumes. Somente políticos sem preparo poderiam chamar de demagogia as profundas reformas sociais realizadas por Eva Perón; somente um analfabeto em psicologia da mulher poderia aviltar a relação amorosa e dolorosa de Maria Callas. Por isso, ‘‘Master Class’’ merece ser vista pelo público paranaense. Ele saberá separar o joio do trigo.
Esse monólogo é o ponto negativo da peça. Lamentável que não tivesse focalizado em dimensão maior o milagre da carreira mais fulgurante da ópera e o mais fascinante destino musical de nossa época. O autor, certamente, idealizou esses apelos grotescos para atender parte do público que se masturba com a vulgaridade.
A evocação da escola do aborto como caminho para conquistar o armador é outro momento perturbador. Põe em dúvida a alta carga emocional de Callas. Entre o homem que menosprezava sua arte e o filho que pedia socorro em suas entranhas, Callas preferiu o garanhão e acabou perdendo os dois. Se esse filho tivesse tido uma mãe-coragem, talvez hoje ninguém ousasse tripudiar sobre a memória da mulher, numa peça de forte apelo financeiro.
O dilema de Maria Callas passa inteiro através da emoção de Marília Pêra, plenamente envolvida pelo drama de uma vida. Nos dá, pelos canais de sua criação, uma interpretação digna de uma verdadeira aula magna de teatro.
O trigo mais puro de ‘‘Master Class’’ é exatamente a aula magna de arte lírica. Divertida, hilária e ágil, consegue contrapor o grotesco monólogo testicular. Marília Pêra escala os picos mais elevados de sua cordilheira de memoráveis interpretações, sublinhando com ênfase um texto que deixa no ar o enigma do mito e passa a realidade e magnitude da mestra. As aulas sobre estilo, expressão corporal, gestos de posturas cênicas, são lições que a própria platéia assimila com encanto e interesse.
Maria Callas foi, e nisso concordam os maiores diretores de teatro de sua época, a maior atriz lírica do Século 20. Sabia, como Chaliapin, preservar a integridade das partituras e descarregar no palco, simultaneamente, as fortes emoções das personagens. Não apenas cantou com técnica inconfundível como viveu cada frase com intensidade. Toda sua passagem pela ópera teve o efeito de um tornado que arrasa tudo e se mantém como eixo central de um fenômeno musical.
Marília Pêra, muito bela após harmoniosa cirurgia plástica, consegue transmitir a mesma fascinação interior que Callas, professora, passava aos seus alunos nas aulas de alta interpretação na Juiliard School of Music, de Nova York. Perfeccionista ao extremo, não tolerava o mínimo deslize, seja no comportamento cênico, inflexão vocal ou cultural musical. Sarcástica, irônica, às vezes cruel, passava nas aulas todo o vigor de sua alma e talento teatral. Nesse santuário operístico, a mediocridade não tinha espaço.
O tenor A produção brasileira, comparada com a de Buenos Aires com Norma Aleandro, vacila na escolha do tenor. Todas as anedotas que se contam a respeito da burrice do rei da Ópera, em ‘‘Master Class’’ se transformam em hilariantes gozações. Um detalhe, porém, fugiu a Marília e ao diretor da peça: as aulas não eram para principiantes. O objetivo real era passar a visão teatral da ópera e os segredos da interpretação. Grace Bumbry, Bárbara Hendrix e Plácido Domingo, entre famosos cantores, foram os que assistiram às aulas de Callas, que valiam como doutorado em arte lírica.
O tenor ‘‘Master Class’’ deve entrar em cena com altivez e arrogância de rei, virar bobo da corte no confronto cultural com a exigente professora, mas... na hora de cantar... retomar o cetro e derrubar a diva. É a vitória daquele terrível rival que sempre deixa em pânico ou suspense o soprano. Essa coroa ninguém pode lhe arrebatar. Foi colocada pelos deuses do canto.
O jovem tenor Frederico Vieira é ator simpático e comunicativo, mas ... como cantor não teria condições de receber aula magna de Callas porque tem apenas qualidades vocais: falta-lhe o fundamental, acabamento técnico. Na produção argentina (perdoem a comparação, mas em época de Mercosul é bom estar alerta para não misturar joio com trigo), o tenor arrasa em impecável ‘‘Recondita Harmonia’’, justificando o entusiasmo da professora Callas. Na concepção brasileira o rei da ópera vira vassalo (comprimário) e perde a coroa.
Num vacilo de Millôr Fernandes, ao pobre tenor ainda lhe foi atribuída uma pretensão descabida. Entre 1971 e 1972, época das aulas, ninguém diria, nem o mais burro dos tenores ‘‘que se cuide Pavarotti’’. No texto original, cita-se Richard Tucker, tenor norte-americano no apogeu. Colocar o nome de Pavarotti como delírio do tenor Tony Candolino, aceita-se no Brasil como liberdade poética, mas... em Buenos Aires seria incabível e o público não aceitaria. Se a intenção era mudar para nome mais apelativo poderia substituir Tucker por Corelli, Bergonzi ou Vickers, os três grandes tenores daquela época. Enfim...
Isabel Batista, a tímida e assustada Sofia de Palma, enternece, diverte e convence no papel do soprano-ligeiro. Tem qualidades vocais e chegará a bom destino. Julianne Daud é também boa atriz e na criação de Sharon Graham enche o palco com imponente físico. A voz bela e saudável.
Os dois sopranos poderiam até não corresponder às expectativas vocais porque, dentro da peça, estão abaladas, amedrontadas e excitadas pela emoção, mas... o tenor não. Este é rei na ópera e na peça. É preciso, com urgência, encontrar algum tenor profissional para revezar com Vieira e dar ao personagem Tony Candolino a dimensão tenoril que merece em ‘‘Master Class’’.
Correta a marcação cênica de Jorge Takla. Tudo desliza com naturalidade, graça e emoção. Caio Ferraz é grande figura no papel do judeu Manny Weinstock, pianista acompanhador dos martirizados alunos. O contra-regra de Kleber Brandão se segura com desenvoltura e simpatia. Perdão, na produção argentina Hugo Arguello não deixa a peteca cair. Com ar de fastio, irritação e prepotência cênica, rouba as cenas quando aparece e ganha verdadeira ovação. Não faz o papel de comprimário, mas o de astro do mundo mágico do teatro, mundo que ele pode derrubar com um simples tropeção ou incendiar com uma vela.
Os cenários e figurinos são simples e transportáveis. Bela, discreta e eloquente a iluminação de Aurélio Simoni, especialmente nos monólogos e na belíssima evocação do Scala. A voz de Maria Callas, em límpida gravação da grande ária de Amina (Sonâmbula, de Bellini) supera a da produção argentina, demasiado truncada. Na nossa, a peça finaliza com ‘‘Vissi d’Arte’’, da Tosca, de Puccini.
Ao sair do teatro o coração aperta, as lágrimas nos surpreendem e parece ouvir-se uma Maria Callas de além túmulo a dizer: ‘‘Esta sou eu... Vivi da arte, vivi do amor...’’
q Maria Teresa Dal Moro -, do Rio de Janeiro, é crítica de Ópera e Ballet. Verbete do Dicionário de Ópera Osborne

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