O jogo das diferenças
PUBLICAÇÃO
sábado, 13 de setembro de 1997
Telma Elorza Londrina 
ReproduçãoStephen King: dois livros de uma só vezStephen King pode estar com um parafuso a menos, como fazem questão de afirmar críticos do mundo inteiro, mas continua aprontando das suas e surpreendendo seus leitores fiéis. Talvez não com o mesmo assombro de livros passados - O Iluminado e Cemitério Maldito, por exemplo, continuam os campeões em termos de arrepios - mas com um vigor que não pode ser negado.
Desta vez, King apronta de forma inovadora e apresenta dois livros de uma única vez. Não seria nada demais se os livros não trouxessem personagens e situações similares e não fossem lançados no Brasil e no exterior como de dois autores diferentes: o próprio King e seu alter ego Richard Bachman, pseudônimo com o qual assinou alguns outros trabalhos como A Maldição do Cigano (lançado recentemente em vídeo com o título A Maldição e enganosamente apresentado como roteiro original) e O Sobrevivente (também transformado em filme, com Arnold Schwarzenegger no papel principal).
Em Desespero e Os Justiceiros - este como Bachman - (Editora Objetiva), King faz um jogo de quebra-cabeças com seus leitores - imagem realçada pelas capas que se complementam, embora cada um possa ser lido individualmente sem prejuízos para as histórias, que são autônomas e completas em si.
O jogo pega principalmente os fãs que, sabendo que há dois livros disponíveis assim de uma vez, não conseguem ler apenas um. A emoção está em descobrir as diferenças e as similaridades entre os personagens nos dois títulos, apresentados em ambos com nomes iguais embora não necessariamente com as mesmas características e personalidades. A similaridade vai a tal ponto que, em alguns momentos, os personagens dizem frases idênticas em situações totalmente distintas.
Uma certa semelhança na estrutura dramática também é um ponto em comum entre os dois trabalhos: as histórias se desenvolvem em um período de tempo extremamente curto e, em ambas, há uma entidade maligna orquestrando os acontecimentos. Nos dois, uma criança (não necessariamente a mesma) é o fio condutor.
Diversão certa - Desespero, um camalhaço com 544 páginas, começa com um gato espetado em uma placa de sinalização de uma das mais solitárias rodovias dos Estados Unidos. Um sinal claro que a viagem de Mary e Peter Jackson pode não ser tão tranquila quanto parecia a princípio. Os Justiceiros, com apenas 320 páginas, começa numa tarde de verão de uma pacata rua suburbana, sem nenhum sinal aparente de que aquele não seria apenas um dia comum.
A diferença maior, porém, é a linguagem. Desespero traz uma história mais linear, permitindo a compreensão e envolvimento rápido. Em Os Justiceiros, King (ou Bachman) lança mão de diversas interrupções (através de recortes de jornais e cartas entre personagens) para que o leitor compreenda melhor o que está acontecendo.
De qualquer maneira, lendo um ou outro - ou os dois -, a diversão é certa. Afinal, não é por acaso que King mantém, há mais de 20 anos, o posto de Mestre do Terror.


