O Jogo da Morte - um legado para uma Copa do Mundo sem-sem
Na Ucrânia invadida na Segunda Guerra, um último jogo tornou-se questão de honra para os nazistas
PUBLICAÇÃO
sábado, 13 de junho de 2026
Na Ucrânia invadida na Segunda Guerra, um último jogo tornou-se questão de honra para os nazistas
Domingos Pellegrini 

Imagine uma nação invadindo outra e, durante a dominação, os campeonatos e times sendo proibidos, e então os jogadores do melhor time do país indo trabalhar em padaria de padeiro apaixonado por futebol.
Imagine também que esses jogadores formassem um time para jogar nos domingos, e oficiais invasores, até para demonstrar sua superioridade racial, propusessem jogo contra time da sua raça que consideravam superior e invencível. Agora imagine que, depois de perder várias partidas de goleada para o time “de raça inferior”, os inconformados invasores formassem uma seleção com jogadores de sua temível aeronáutica, para então certamente derrotar o time de jogadores locais.
Imagine que, no vestiário, o time receba visita de oficial recomendando saudar o time adversário com braço para o alto, na típica saudação nazista, o que eles porém não farão. Vendo o juiz jogar com revólver na cintura, e com o campo cercado de guardas armados, eles podiam jogar mal para se salvaguardar, ou jogar para empatar honrosamente, mas jogaram para novamente ganhar de goleada, 5 a 2.
Tal jogo aconteceu e passou a ser chamado de Jogo da Morte, porque quatro dos jogadores foram depois enviados para campo de concentração onde morreriam baleados, execução usual do nazismo na Segunda Guerra.
Isso aconteceu com jogadores do ucraniano Dynamo de Kiev, que até 1940 foi um dos melhores times da Europa. Com sua Ucrânia invadida, formaram um time chamado FC Start, para jogar aos domingos, e estavam destreinados e já mal nutridos quando foram convidados para vários jogos contra alemães, daí sempre vencendo de goleada, O último jogo tornou-se portanto questão de honra para os nazistas. Mas, ignorando as ameaças e sabendo que sua vitória chegaria ao povo, eles preferiram novamente jogar para ganhar,
Por isso há em Kiev um monumento – feito em aço – na entrada do Estádio Valeriy Lobanovskyi, com a inscrição “Aos jogadores que morreram com a cabeça erguida ante o invasor nazista”.
Essa história de futebol é exemplo do espírito de resistência do povo ucraniano, agora enfrentando a Rússia, que invadiu a Ucrânia como quem iria conquistar em semanas e está há mais de quatro anos lutando, acumulando o dobro de baixas dos ucranianos, que nesse tempo revolucionaram a chamada “arte da guerra” a ponto de tornar a Ucrânia exportadora de tecnologia militar.
Com dois séculos mais de História do que Moscou, Kiev é capital de nação que sobreviveu a longa invasão mongol, ao Império Russo e à União Soviética, da qual se libertou apostando na democracia e na independência, como fizeram os jogadores do Dynamo em 1942.
De lá para cá o futebol conquistou todos os continentes, e nesta Copa do Mundo pode ser consagrado como congraçamento universal, se jogadores e torcedores celebrarem o legado dos jogadores do Jogo da Morte, exemplarmente jogando com paixão um futebol sem-sem, sem violência e sem racismo.


