"O Jogo da Amarelinha" é reeditado
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 28 de janeiro de 2000
Por Luiz Zanin Oricchio 
São Paulo, 28 (AE) - A reimpressão de "O Jogo da Amarelinha", de Julio Cortázar, é sempre um bom pretexto para apresentar esse livro a quem ainda não teve a sorte de conhecê-lo. É a sexta edição da obra, pela editora Civilização Brasileira, sempre na correta tradução de Fernado de Castro Ferro. A mesma versão que apresentou o romance aos brasileiros no início dos anos 70.
Na época, sua influência foi espantosa, pelo menos no meio universitário. O livro era (é) intrigante. Primeiramente, no aspecto formal. Nas páginas iniciais Cortázar propõe o que chama de um "tabuleiro de direção". Explica que o objeto que o leitor tem na mão permite várias leituras, mas sobretudo duas direções de leituras. Uma se faz em linha reta, da primeira página ao capítulo 56, quando termina. Os capítulos restantes, seriam, segundo o autor, "prescindíveis".
A outra maneira é mais intrincada. Começa pelo capítulo 73 e vai saltando de um a outro, segundo uma ordem pré-estabelecida, e que inclui os "prescindíveis". Há uma falsa arbitrariedade nessa segunda maneira de ler. Livro - " O Jogo da Amarelinha", ou "Rayuela", no original em espanhol, fala da experiência européia de um certo Horácio Oliveira, argentino já maduro, radicado em Paris. O que é essa história, no fim de contas? Horácio evoca retrospectivamente uma mulher que perdeu, uma uruguaia, Lúcia, que ele chama de Maga. Fala dos amigos, desgarrados como ele, reunidos numa organização informal chamada de Clube da Serpente. Há um pintor francês, um intelectual russo, um chinês especialista em técnicas de tortura
um casal de americanos. Gente assim, sem um centavo no bolso, com veleidades intelectuais, já não tão jovem, vivendo a fundo uma experiência parisiense um tanto caótica.
Na segunda parte do livro, Horácio volta para sua Buenos Aires natal. Retorno forçado, conforme verá o leitor. De volta à Argentina, ele reencontra um velho amigo, Traveler, que, apesar do nome, nunca viajou e tem raiva dessa ironia involuntária. Traveler casou-se com Talita, e Horácio, de volta ao país, junta-se a uma antiga amante, a tola Gekrepten. Sem profissão definida, Horácio, que deve beirar os 40 anos, trabalha num circo, depois num hospício. Essa é a trama, o enredo, que importam menos do que a maneira como são narrados.
"Rayuela" é um romance intelectual, culto, que deseja obter consciência de si. Conta o que tem a dizer, mas é sobretudo uma reflexão sobre as condições de narrar uma história. Por isso, nos tais capítulos prescindíveis aparece um novo personagem, o escritor Morelli, que tem idéias próprias sobre os impasses da ficção moderna. "O Jogo da Amarelinha" é sempre a tensão entre algo que se quer narrar e a impossibilidade de fazê-lo.
Isso aparece no texto. E o texto se espelha no conteúdo. Porque Horácio é também, sobretudo, um caçador do impossível. Cada passagem do livro remete para essa busca sem fim de um real que se esconde, talvez, atrás de uma realidade palpável, porém sempre e cada vez mais insatisfatória. O protagonista, que não tem profissão definida, vive de bicos, ou das remessas de dinheiro de um irmão distante, questiona o dogma da segurança burguesa. Ao mesmo tempo, põe em dúvida a eficácia da ação política, feita às cegas pelos engagés, segundo ele. Para comprometer-se em uma ação seria necessário compreendê-la na íntegra. Como isso é impossível, ele não age, porque não merece a ação. Claro, é um personagem de impasse. E esse impasse é não apenas o do homem moderno, mas o da literatura. Por isso, a poética de "Rayuela" é uma poética da destruição. Horácio quer uma passagem para um mundo que não seja o das aparências, quer aceder ao real. Pode tentar isso pelo amor (com a Maga, depois com Pola e em seguida com Talita, que confunde com a primeira). Pode buscar essa passagem pela música, como na infindável "discada" de jazz com os membros do "Clube da Serpente". Busca ligar dois pontos imaginários, como na hilária sequência em que constrói uma precária ponte de tábuas entre o seu apartamento e o de Traveler. A ponte é a sua simbologia maior, sua metáfora recorrente. Não por acaso a narrativa começa num espaço privilegiado da fantasmagórica Paris de Cortázar, a Pont des Arts. A ponte sobre o Sena onde ele costumava encontrar-se com a Maga, os dois vindo não se sabe de onde, reunindo-se como que por acaso, mas um acaso guiado pela mais estrita das lógicas amorosas.
Toda "Rayuela" pode ser lida como essa tensão entre os pares unidos e separados por algo como uma ponte. Paris, com a rive gauche e a rive droite. A França, onde os intelectuais iam tirar sua carta de cidadania, e Buenos Aires, com o Oceano Atlântico no meio. Do lado de cá a realidade, que não satisfaz, e do lado de lá, o real, impossível de atingir. O céu e o inferno do jogo da amarelinha. Aquele jogo que as crianças desenham com giz no chão e Horácio contempla do seu quarto, no sanatório, com vontade de jogar-se e acabar, apenas pelo prazer de eternizar um momento de plenitude, fugidio como todos.
Um livro que é muitos livros, como Cortázar dizia. E que não deixava de surpreender ao seu próprio autor. Quando o escreveu, ele tinha 40 anos e pretendia tratar de problemas de gente da sua idade. Mas o romance fez imenso sucesso junto à juventude, para pasmo do escritor. É que a busca de Horácio Oliveira é a busca de um jovem. Durante o maio de 1968, na França, os estudantes escreviam nas paredes: "Soyez réalistes: demandez limpossible". É dessa busca pelo impossível que fala o livro. Entre outras coisas.
Imensa é a felicidade de quem não conhece "O Jogo da Amarelinha" e o lê pela primeira vez. Se for o seu caso, não deixe de embarcar nessa viagem. Ela não tem volta.


