O jardim das brisas
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 28 de novembro de 2018
Marcos Losnak <br> Especial para Folha 2 
Se por um lado o conservadorismo se apresenta como uma nova febre nacional, por outro lado os sintomas da pirexia ainda não colocaram a literatura brasileira num leito hospitalar.
Um bom exemplo disso está em "O Clube dos Jardineiros de Fumaça", livro da escritora gaúcha Carol Bensimon vencedor do prêmio Jabuti de melhor romance de 2018. A obra pode ser considerada o primeiro romance da literatura brasileira a utilizar a legalização da maconha como temática narrativa.

"O Clube dos Jardineiros de Fumaça" narra a história de Arthur, um jovem professor de Porto Alegre que, vendo a mãe sofrendo de câncer, resolve inserir a cannabis como medicação auxiliar. Com a redução das dores e a melhora na qualidade de vida da mãe, Arthur resolve, com a conivência do pai médico, plantar alguns pés de maconha no quintal da casa para ser utilizado como remédio.
O drama começa quando o vizinho, em sua febre conservadora, resolve denunciar à polícia a presença da planta no quintal alheio. Ao baterem na porta, os policiais enquadram filho e pai por tráfico de droga. A notícia é devorada pela imprensa sensacionalista como filho e pai bandidos, professor e médico maconheiros. Como resultado, um perde as aulas como professor, outro perde pacientes como médico. A mãe, simplesmente falece vítima de câncer.
Para desanuviar a cabeça, Arthur viaja para os Estados Unidos com objetivo de fazer um curso de mestrado. Em solo americano logo desiste da universidade para vagar pelo país até cair no condado de Mendocino, situado no norte da Califórnia.
A região é conhecida como a maior produtora de cannabis dos Estados Unidos desde a década de 1960 a partir da iniciativa de remanescentes da contracultura hippie. Se por um lado a maconha estava legalizada para fins medicinais no estado da Califórnia desde 1996, por outro a legalização para o uso recreativo ocorreria dez anos depois, em 2016. É justamente nesse período de transição que Carol Bensimon ambienta o romance.
Arthur fixa residência na região com o desejo de trabalhar nas plantações de cannabis, mas como ao cultivo ainda permanece ilegal, há todo um silêncio sobre o assunto entre os habitantes do lugar. Apesar de ser uma cultura que orienta toda a economia local, trabalhar nela envolve riscos legais.
Assim, como brasileiro, como estrangeiro, como imigrante, Arthur precisa se inserir lentamente na comunidade para conquistar confiança e entender como as coisas realmente funcionam. Nesse processo passa a conviver com uma coleção de pessoas que revelam como a existência funciona, dentro e fora da lei. E como mudanças são determinantes.
Ao longo da narrativa de "O Clube dos Jardineiros de Fumaça", a autora confere sentido a dezenas de personagens que passam a atuar como um conjunto com o personagem principal, ganhando peso narrativo equivalente. Essas figuras são responsáveis por oferecerem várias visões e várias sensações sobre um mesmo contexto, seja individual, social ou histórico.
Seja qual for a situação, sempre há uma escolha deliberada. São personagens que fazem escolhas e vivem a partir dessas escolhas. Seja dentro da lei ou fora dela. Mais do que isso, vivem o entendimento de que as leis se transformam e se alteram ao longo do tempo. Assim como o mundo se transforma e se altera ao longo dos anos, das décadas, séculos e milênios.
Ao longo da ficção de Carol Bensimon, personagens visitam situações históricas e sociais onde a maconha é tratada como uma questão cultural, depois como questão policial, em seguida como questão de saúde e finalmente, nos dias de hoje, como questão econômica. Tudo muda.
"O Clube dos Jardineiros de Fumaça" é o terceiro romance de Carol Bensimon. Nascida em 1982, em Porto Alegre, é autora de "Sinuca Embaixo D'água" (2009) e "Todos Nós Adorávamos Caubóis" (2013).
Fragmento:
Sylvia sorri. Tem uma vontade repentina de tomar aquelas gotas. Da outra vez, seu corpo todo amoleceu, então ela desceu as escadas, se arrastou para o sofá e deitou, os pés sobre a parte que o gato adorava rasgar com as unhas. Nunca se deitava daquele jeito, mesmo que aquela fosse sua casa e mesmo que quase nunca houvesse alguém ali para vê-la. Parecia que estava flutuando, mas ao mesmo tempo que era feita de algo muito rígido e imutável, o que dificilmente conseguiria explicar para alguém. Uma bailarina cansada? Aí começou a rir de si mesma. Talvez houvesse algum efeito psicotrópico nas gotas afinal, embora a princípio elas parecessem causar apenas esse grande relaxamento muscular. Aquilo era remédio. Pessoas tinham receitas para fumar maconha agora, uma imagem de futuro na qual ela não teria acreditado em nenhum ponto dos anos 80. Brownie de maconha. Pirulitos. Toda aquela parafernália de vidro que as pessoas vendiam como arte.
(Fragmento de 'O Clube dos Jardineiros de Fumaça', de Carol Bensimon)

Serviço:
"O Clube dos Jardineiros de Fumaça"
Autora - Carol Bensimon
Editora - Companhia das Letras
Páginas - 368
Quanto - R$ 49,90


