O 'japonês' brasileiro em questão
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quarta-feira, 30 de dezembro de 2009
Adriana Ito<br>Reportagem Local 
Praticamente todas as pessoas que têm em seu biótipo características que revelam a ascendência nipônica (como olhos puxados e cabelos pretos e lisos) já foram chamadas de ''japonês''. E praticamente todos os nipo-brasileiros que vão ao Japão a trabalho, por mais japoneses que sejam aqui, por lá são considerados brasileiros - ou seja, são estrangeiros tanto no Japão quanto no Brasil.
Essa indefinição da própria identidade (bem como outras particularidades da comunidade nipo-brasileira) motivou um crescente número de pesquisas acadêmicas nas últimas duas décadas - estudos esses que acabaram ficando restritos aos limites das universidades. E foi com o intuito de reunir e dar visibilidade a esses artigos que o professor Roberto Sagawa, da Unesp de Assis, publicou o livro ''O Nikkei Abrasileirado'' (FCL Publicações).
Dividida em dois volumes, a obra traz 15 artigos abordando as comunidades das principais regiões onde os imigrantes japoneses se estabeleceram (Amazonas, Pará, Rio de Janeiro, Espírito Santo, São Paulo e Paraná). Graças à colaboração da diretora do Núcleo de Estudos da Cultura Japonesa (NECJ) da Universidade Estadual de Londrina (UEL), Estela Okabayaski Fuzii, um terço dos artigos são de professores da UEL: Alice Yatiyo Asari, Luzia Yamashita Deliberador, Maria Fusako Tomimatsu, Ruth Youko Tsukamoto e a própria Estela assinam textos que abordam desde a contribuição dos nikkeis (japoneses e descendentes) para a produção do chá ao ensino da língua japonesa e o movimento dekassegui.
Segundo Sagawa, o estudo permite ainda identificar algumas diferenças regionais, como o fato de nikkeis cariocas e capixabas terem se dispersado enquanto nos Estados de São Paulo e do Paraná as associações japonesas tenham sido verdadeiros pólos irradiadores da cultura nipônica. ''No entanto, nos anos 70 e 80, as colônias nipo-brasileiras rapidamente perderam esta força e hoje parece que tendem a desaparecer com uma velocidade espantosa'', lamenta.
Questionado se a tendência é a integração total dos nikkeis à comunidade, ele é enfático: ''Não existe esta integração total, mas existe uma mestiçagem anônima e dissolvente que não está sendo solução de nada. Estamos produzindo um brasileiro médio e sem-cara ou sem-caráter como Macunaíma, o que não me parece ser orgulho nenhum do nosso país'', analisa.
A saída, para ele, seria cultivar as raízes da cultura japonesa por meio do xintoísmo e das artes milenares. ''Não se trata da cultura japonesa em sentido superficial, mas em sentido de aprofundamento pluralístico e simbólico como são as culturas milenares'', propõe.
Em sua análise, os descendentes de japoneses acabam ou se fechando, no que ele define como ''nikkei impermeável'' (descendente de japonês que vive em panelinhas de parentes e amigos, sem aceitar de verdade a convivência com a sociedade brasileira), ou ignorando as origens, como ''nikkei dissolvido'' (aquele que nega a origem japonesa, já não conserva mais nenhum costume ou tradição nipônica e se ocidentalizou de forma radical e irreversível).
''O ideal é haver um elo intermediário entre o nikkei impermeável e o nikkei dissolvido, que seria, digamos assim, o nikkei profundo que não se contenta com a manutenção de costume ou tradição, mas busca aprofundar a cultura japonesa de forma a torná-la viva e forte no contexto da sociedade brasileira'', defende.
Nesse contexto, a comunidade nipo-londrinense vem surpreendendo o pesquisador. ''Londrina se revelou para mim um efervescente centro metropolitano da cultura japonesa como talvez não exista mais em nenhum outro lugar fora da cidade de São Paulo. Há duas ou três décadas, algumas cidades da Alta Paulista ou da Sorocabana foram centros animadores da cultura japonesa, mas ultimamente minguaram e praticamente estão arrefecidos. Já Londrina me parece continuar cheia de energia para movimentar a cultura japonesa no Brasil''.
Serviço
Informações sobre o livro podem ser obtidas no NECJ, pelo (43) 3371-4189.


