Coincidências existem. Em qualquer lugar, em qualquer época. Até mesmo no Nobel de Literatura. Há quase duas semanas, ao anunciar o escritor Vidiadhar Surajprasad Naipaul como ganhador do prêmio, a Academia Sueca mostrou que a coincidência pode receber ajuda da lógica.
Naipaul recebeu o Nobel de Literatura num delicado momento histórico. Num momento em que, após o atentado terrorista contra os Estados Unidos, uma controvertida guerra está sendo promovida. Uma batalha que, aparentemente, veste os norte-americanos de ''mocinhos'' e os muçulmanos de ''bandidos''.
A coincidência está no fato de V. S. Naipaul ser um ácido crítico do fundamentalismo muçulmano que ganhou projeção no mundo a partir da década de 70. Para ele, o islamismo é responsável - em países como Irã, Paquistão, Malásia e Indonésia - por uma série de efeitos sociais trágicos.
Claro que a obra do escritor não está exclusivamente voltada à análise das sociedades islâmicas. Entre seus vários livros - como ''O Enigma da Chegada'', ''Um Caminho para o Mundo'', ''Os Mímicos'', ''Uma Casa para o Sr. Biswas'' e ''Guerrilheiros'' - apenas em dois tocam a questão do islã: ''Entre os Fiéis'' (1981) e ''Além da Fé'' (1998).
Os livros - publicados no Brasil pela Editora Companhia das Letras em 1999 - são relatos de viagens que Naipaul realizou por quatro países muçulmanos não-árabes em períodos distintos. Em ''Entre os Fiéis'' o escritor relata sua primeira viagem à Indonésia, Irã, Paquistão e Malásia em 1979. Quando partiu para a aventura, não sabia quase nada sobre o islã. Seu objetivo era realizar uma ''investigação sobre as particularidades da fé e do que parecia sua capacidade de promover uma revolução''.
Dezesseis anos depois, em 1995, o escritor empreendeu nova viagem pelos países visitados anteriormente. Uma outra perspectiva se desenhava em suas intenções. Além de focalizar sua atenção nas transformações ocorridas através dos anos, pretendia abordar com maior exatidão o tema da conversão ao islamismo. Os relatos da segunda viagem foram publicados em ''Além da Fé''. Assim, os dois livros se completam. ''Entre Fiéis'' e ''Além da Fé'' podem ser considerados uma obra dividida em dois volumes.
Nas palavras de Naipaul, a questão da conversão pode ser descrita da seguinte maneira: ''O islã, em sua origem, é uma religião árabe. Toda pessoa que não é árabe e é muçulmana é um convertido. O islã não é uma mera questão de consciência ou crença pessoal. O islã estabelece exigências imperiais. A visão de mundo de um convertido se modifica. Ele repudia sua visão própria; se torna, goste disso ou não, parte da história árabe. O convertido tem de recusar tudo o que é seu. A perturbação para as sociedades é imensa e, mesmo após mil anos, pode permanecer sem solução; a recusa precisa ser repetida várias vezes. As pessoas criam fantasias sobre quem são e o que são; no islã dos países convertidos existe um elemento de neurose e niilismo. Esses países podem facilmente entrar em ebulição.''
No mapa traçado pelos relatos de Naipaul, as nações convertidas vivem contradições claras e aparentemente insolúveis. Cada país com suas características específicas, mas pautadas por um elemento único: a fé. Elemento esse que passa a oferecer uma particular leitura da sociedade e do mundo que compreende a anulação do passado através da submissão. Segundo o escritor, esse processo daria início um sistema imperialista: ''O imperialismo mais intransigente que existe''. Em outras palavras, as nações islâmicas seriam nações imperialistas por sua própria natureza.
V. S. Naipaul nasceu em 1932 em Trinidad, no Caribe, filho de imigrantes indianos. Na juventude mudou-se para a Inglaterra onde realizou seus estudos em Londres - e naturalizou-se. Depois de uma passagem pela BBC decidiu dedicar-se à literatura no início da década de 50. Após publicar uma dezena de romances, resolveu abandonar a ficção. Passou a se dedicar exclusivamente aos relatos de viagens e explorações culturais, tornando-se um viajante profissional dos quatro cantos do mundo.
A peculiaridade da narrativa de Naipaul está no fato de ter levado para os relatos de viagem algumas características da ficção. No prefácio de ''Além da Fé'', ele explica o processo da seguinte maneira: ''Nos meus livros de viagens ou de explorações culturais, o escritor como viajante recua sem hesitar; as pessoas do país vêm para o primeiro plano; e eu me transformo de novo naquilo que era no início: um administrador da narrativa. No século 19, a história inventada foi utilizada para fazer coisas que outras formas literárias - o poema, o ensaio - não poderiam fazer com facilidade: dar informações sobre uma sociedade em mudança, descrever estados mentais. Achei estranho que o formato do livro de viagem - a princípio, tão distante de meus próprios instintos - tivesse me levado de volta àquele ponto, em busca de uma história para contar; contudo, a própria razão de ser do livro seria desvirtuada se as narrativas fossem falseadas ou forçadas. Há bastante complexidade nessas histórias. Elas constituem a razão de ser do livro; o leitor não deve procurar conclusões.''
O método utilizado é simples. Em suas viagens, o autor entrevista diferentes pessoas do local. Recolhe histórias, experiências e vivências. Na confecção do livro, reproduz a fala de cada personagem, dá literalmente voz a cada entrevistado. O resultado é um misto de relato de viagem com uma grande reportagem. A intenção é não provocar o falseamento da realidade visitada.
Naipaul faz questão de afirmar que ''Entre os Fiéis'' e ''Além da Fé'' não são livros de opinião, mas ''livros sobre gente'', volumes de histórias. Mas é inevitável que em alguns momento o autor expresse sua opinião avaliando o que vê de acordo com o foco de visão particular. Embora se dedique em oferecer a realidade como ela se apresenta, sua visão parte do ponto de vista de um estrangeiro.
Em nenhum dos dois volumes, existe uma crítica sobre a religião propriamente dita, mas aos seus efeitos sociais nos países convertidos. Esse cuidado evitou que o escritor fosse perseguido por religiosos fundamentalista islâmicos, como ocorreu com o escritor (também de origem indiana) Salman Rushdie - que foi sentenciado de morte pelo aiatolá Khomeini, líder do Irã, em 1989, pela autoria do romance ''Versos Satânicos''.
O fato de ''Entre os Fiéis'' e ''Além da Fé'' não serem obras de ficção, leva a crer que devem ser consideradas retratos da realidade. Assim, a coincidência - nas vestimentas de ''mocinhos'' e dos ''bandidos'' - deve ser levada em conta. Ou não. O juízo fica a cargo de cada leitor.
•''Entre os Fiéis'', de V. S. Naipaul, Editora Companhia das Letras, tradução de Rubens Figueiredo, 548 páginas, R$ 41,00
• ''Além da Fé'', de V. S. Naipaul, Editora Companhia das Letras, tradução de Cid Knipel Moreira, 550 páginas, R$ 41,00

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