Fascínio, estranheza. Atração, medo. Pólos opostos que atraem os ocidentais ao Oriente islâmico, onde estão as nações, as cidades e as civilizações mais antigas do mundo. O Egito, terra onde reinaram os faraós, é hoje um país muçulmano. A Babilônia, cidade citada tantas vezes na Bíblia dos judeus e cristãos, que compunha o território da Mesopotâmia, literalmente terra entre dois rios, está localizada em um país islâmico: o Iraque. Os dois rios que deram o nome à região e por onde velejaram os povos antigos são o Tigre e o Eufrates, essenciais para a vida de países islâmicos, como Turquia, Síria e Iraque.
Marco Polo, o viajante veneziano, o pai e o tio, deixaram a Itália em 1271, e percorreram a Rota da Seda. Durante 24 anos, o jovem Marco, que partiu adolescente, com 17 anos, tomou contato com populações muçulmanas, na Turquia, Afeganistão, Irã, Uzbequistão, Tadiquistão. Tudo o que viu e ouviu Marco Polo reuniu em notas e compilou no ''Livro das Maravilhas: a Descrição do Mundo'', o primeiro grande relato de viagem feito por um ocidental.
No século 19, um séquito de europeus empreendeu viagem rumo ao Oriente islâmico. Ninguém ficou imune à aura de mistério que cerca esses países. Sem poder explicá-los, os artistas ocidentais, famosos e anônimos renderam-se aos costumes, à música, à arquitetura, às cores que caracterizam o islã.
Para fugir de um amor doentio, tentar esquecer e começar tudo de novo, partiu da França, em 1879, rumo à Arábia e Abissínia (Etiópia), o poeta Arthur Rimbaud. Ficou 10 anos vagando aqui e ali, buscando nos arabescos intrincados das casas da cidade de Sanaa, no Iêmem, a explicação para a relação de amor e ódio que mantinha com o poeta francês Paul Verlaine. Outro francês, o escritor Gustave Flaubert, em companhia de um amigo, foi à Argélia e Tunísia em 1858. A influência da viagem ficou nas páginas do romance ''Salambô''. Flaubert definiu bem o imaginário ocidental ao conhecer a bailarina e cortesã egípcia Kuchuk Hanem. Antes de dormir com ela, o escritor assistiu à dança ''L'abeille'' (A abelha). A sensualidade ao mesmo tempo delicada e vulgar da dança, o perfume de sândalo, que se misturava ao odor dos percevejos da cama dela, fez com que Flaubert se rendesse à sua auto-suficiência. Ele escreveu posteriormente que Kuchuk poderia ter dito: ''Je ne suis pas une femme, je suis un monde'' (Eu não sou uma mulher, sou um mundo).
Pintores europeus, também no século 19, sequiosos por conhecer novas cores, foram beber na fonte do islã. Delacroix, pintor francês, por volta de 1834, foi ao Oriente e expressou o que viu na tela ''Mulheres de Argel'' em seus Aposentos. O tom ocre do Saara, a sensualidade implícita nos cabelos pretos e sobrancelhas grossas das mulheres árabes estão na tela, hoje exposta no Louvre, para quem quiser conferir. Na obra ''A Morte de Sardanapalo'', Delacroix pincelou mulheres nuas de ancas largas, com tornozeleiras, dedos cheios de anéis, orelhas com muitos brincos. Os homens rijos, músculos proeminentes, de turbante, armados com cimitarras, estão presentes na tela, exatamente como Delacroix deve ter visto nas caravanas que cruzavam o Saara, no norte da África.
Muitos viajantes, ao conhecer países islâmicos, incorporaram de tal forma os costumes locais que chegaram a adotar o modo de vida de povos nômades, como os beduínos. É o caso do britânico Thomas Edward Lawrence, arqueólogo, líder militar, agente secreto e escritor, que viveu 47 anos viajando por países árabes, de Damasco a Bagdá, do Cairo a Amã. Identificado com a causa árabe, ele vislumbrou a criação de uma grande nação que unisse esse povo e desenvolveu o projeto com o aval do Reino Unido, a partir de 1914. Conseguiu ver os árabes libertos do Império Turco Otomano, mas morreu em 1935, sem visualizar a unidade árabe. Entrou para a história como Lawrence da Arábia.
Na obra ''Os Sete Pilares da Sabedoria'', Lawrence da Arábia escreveu: ''(...) O esforço daqueles anos, para viver em trajes árabes, e para imitar a sua feição mental, roubou-me o meu ''eu'' inglês, levando-me a considerar o Ocidente e as suas convenções com outros olhos. (...) Ao mesmo tempo, eu não podia vestir, sinceramente, a pele árabe. (...) Desvencilhei-me de uma fôrma, sem adotar a outra. (...) Às vezes, estes ''eus'' conversam no vácuo; e então, a loucura se encontra muito perto, como creio que deve ter estado junto do homem que pôde ver as coisas, a um só tempo, através dos véus de dois costumes, de duas educações e de dois ambientes.''

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