São Paulo, 23 (AE) - Marco Antônio Guimarães escreveu recentemente uma peça musical inspirada numa toalha de cerejas - uma toalha bordada com cachos de cerejas. Numa extremidade, o cacho tem cinco frutinhas; noutra, um número diferente; no centro, são 13 as frutas e o padrão repete-se oito vezes, como em oito compassos musicais, cada módulo - cada cacho - sugerindo uma célula melódica.
Por mais difícil e cerebral que possa parecer, é assim que a belíssima música do grupo Uakti é composta. A Marco Antônio Guimarães, criador do grupo, interessa dar forma musical à formas não musicais. Usou o sistema para dar aulas na escola de música da Universidade Federal de Minas Gerais, da qual foi professor. Usou pregadores de roupas para incitar a imaginação dos alunos. Usou ralos, destes que você tem em casa, no chão do banheiro.
"As formas sempre me interessaram", diz. "Uma vez, contei os raios de uma tampa de ralo; eram 13, coisa muito estranha, pois dividir um círculo em 13 partes é difícil" - mais fácil dividir em um número par, 16 vezes. Não é uma conta que cada um de nós faça diariamente. E nem todo mundo sabe quanto a música e a matemática estão intimamente ligadas (mesmo que a estrutura matemática, que sustenta a música, não seja evidente para o ouvinte de, por exemplo, Chico Buarque, ou de Michael Jackson, ou de Bach, ou do grupo Dominó).
Indicado para o Prêmio Multicultural Estadão, o compositor e inventor de instrumentos mineiro Marco Antônio Guimarães começou estudado piano, em Belo Horizonte, mas transferiu-se para a Bahia, em 1964, pois na universidade de lá funcionava a mais importante escola de música do País, criada por Koellreuter, onde lecionava Walter Smetak, inventor de instrumentos, e onde a música de vanguarda mais se desenvolvia - com o grande mestre de Marco Antônio, Ernst Widman, e Lindberg Cardoso, Milton Gomes. Matéria-prima - Ao chegar a Salvador, Marco Antônio havia trocado o piano pelo violoncelo. Ao conhecer Smetak, imaginou que também poderia construir instrumentos. "Sempre tive habilidade com ferramentas, na infância fazia brinquedos", revela. Os primeiros eram baseados no violoncelo, seu instrumento. Depois, veio a invenção utilizando instrumentos prosaicos - tubos de PVC são a principal matéria-prima. Marco Antônio começou a criar instrumentos há quase 30 anos. Fundou o Uakti há 20 anos, já de volta a Belo Horizonte.
"Era um grupo de músicos jovens, com disposição e tempo para experimentar", conta. Daquele grupo já participavam os instrumentistas que hoje formam o Uakti - Paulo Santos, Arthur Andrés e Décio Ramos. Há seis anos, o criador do Uakti não participa mais dos espetáculos do grupo. Cria os instrumentos, compõe, arranja e grava, mas prefere não subir ao palco. "É coisa que toma muito tempo e prefiro ficar compondo", diz. "Não tenho muita paciência para repetir sempre os mesmos números, as mesmas músicas". Temperamento de quem nem ao menos os instrumentos convencionais satisfazem.
Uakti é um monstro lendário dos índios tucanos, da região do Rio Negro, na Amazônia. Um monstro cheio de buracos pelos quais o vento passa, produzindo sons que atraíam as mulheres. Os homens mataram o monstro e o enterraram. Nasceram no local três palmeiras, cuja madeira passou a ser usada para construir instrumentos musicais. Mantinha-se vivo o espírito do Uakti, mas as mulheres não mais podiam ouvi-lo.
Há algo de malicioso na lenda, não de místico. A música de Smetak, os instrumentos que ele construía, as cores que usava para pintá-los tinham significado esotérico, ligado à eubiose. Marco Antônio, mesmo dando a algumas peças nomes ligados ao pensamento esotérico - um balé que escreveu para o grupo corpo foi batizado de I-Ching -, está mais preocupado com a representação musical de coisas não musicais. Simetrias - a queda das varetas do I-Ching, não a interpretação da queda das varetas do I-Ching.
A música é tocada em instrumentos estranhos, com nomes estranhos, como aqualung, em que água corre por um tubo móvel de PVC; jaburu, cordas tensionadas por alavancas; trilobita, tubos de PVC e peles; torre, um módulo giratório com 11 cordas tangidas por arco; chori smetano, de cordas, cabaça e madeira. Marco Antônio já criou mais de 50 deles, embora nem todos estejam em uso constante. Abandonou muitos. Deixou de fazer outro - Egberto Gismonti encomendou uma combinação da trilobina com o trombone, que Marco Antônio não executou, mas pode executar, um dia.
O Uakti é um grupo muito respeitado, internacionalmente, como representante da música contemporânea - ou da world music, Marco Antônio não se incomoda com o rótulo. A história da carreira internacional é curiosa. O compositor mineiro Tavinho Moura conhecia o trablho do Uakti, de fama ainda restrita a Belo Horizonte, e levou Milton Nascimento para ouvir o grupo, em 1980. Milton gostou e pediu que o Uakti participasse do disco que ia gravar, "Sentinela", na música "Peixinhos do Mar" - uma adaptção do folclore mineiro feita por Tavinho Moura.
Milton estava, na época, assinando contrato com a gravadora Ariola (que não tem mais representação no Brasil). Tinha prestígio suficiente para impor uma cláusula incomum: assinaria o contrato, sim, desde que pudesse produzir discos de artistas que ele conhecia e julgava de valor. Produziu, assim, os três primeiros discos do Uakti.
Pelo disco de Milton, o grupo vocal norte-americano The Manhattan Transfer conheceu o Uakti e o chamou para gravar no disco "Brazil" (que recebeu um Grammy) e também para participar da excursão de lançamento do disco. O grupo tinha direito a meia hora de solo. Pouco tempo depois, um produtor brasileiro pôs o grupo em contato com Paul Simon, que estava preparando um disco com músicas de terras, para ele, exóticas - e o Uakti participou do também premiado "The Rhythm of the Saints", de Paul Simon. E Paul Simon chamou o compositor da vanguarda norte-americana Philip Glass para ouvir o grupo mineiro. Glass hoje compõe para o Uakti, que, por sua vez, grava pelo prestigioso selo do músico americano (já saíram quatro discos; um quinto está para ser lançado). Instrumentos temperados - A importância de Milton na história do Uakti vai mais além. Quando ele convidou o grupo para gravar, Marco Antônio Guimarães percebeu a necessidade de temperar - ou seja, afinar - os instrumentos de percussão que criava. Essa passou a ser a principal característica do grupo, o uso da percussão temperada, que não está na tradição da cultura brasileira (como está na tradição de algumas culturas orientais).
Assim, os instrumentos de Marco Antônio Guimarães sofisticaram-se. Produziam sons (e sons são música) e passaram a produzir música, conjunto de sons organizados. Se suas primeiras experiências como compositor eram atonais (por influência do grupo baiano da base de sua formação), no momento em que temperou os instrumentos inventados de certa forma fincou uma raiz na tradição melódica brasileira, mais claramente mineira. Muito embora ele não veja tanto Minas em sua obra: "As características mineiras, nas quais estou mergulhado historicamente, são, para mim, as mais difíceis de perceber", diz). Ele vê mais claramente sons de música javanesa, oriental, africana, indígena, indiana.
O avatar - formas musicais que representam módulos geométricos - de Marco Antônio Guimarães pode ser tudo, por sinal. Uma coisa não é, com certeza, apesar da maneira pela qual se origina: não é música racionalista, apenas cerebral, apenas cálculo, simplesmente forma. Por conta de uma química que teoria alguma explica - e o próprio Marco Antônio se esquiva de tentar explicação -, o resultado é musicalmente belo, emocionante, alma em moldura sonora, que pode ser ouvida nos seis discos do grupo, nos cinco balés que fez para o Grupo Corpo, nos três filmes para os quais compôs a trilha sonora - "Kenoma", de Eliane Caffé; "Outras Histórias", de Pedro Bial, que está para estrear; "Lavoura Arcaica", de Fernando Cardoso, que está em fase de finalização.
Melhor ainda que se assista a um dos arrebatadores espetáculos do Uakti, tradução musical daquilo que palavras são impotentes para traduzir - a beleza, a sensibilidade, o gênio.

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