O inventor do haikai brasileiro
Marcos Losnak
Especial para a Folha2
O haikai pode ser considerado a menor forma poética do mundo. Apenas 17 sílabas divididas em três linhas (cinco na primeira, sete na segunda e cinco na terceira). Embora pequeno, o haikai, também chamado de haiku, comporta dentro de si um vasto universo. Nascido no Japão antigo, ganhou notoriedade através das mãos do poeta Matsuo Bashô (1644-1694), que conferiu religiosidade ao gênero.
Patrimônio da cultura japonesa, o haikai não ficou restrito ao solo japonês. Com o advento das imigrações, propagou-se por todo o mundo, encontrando solo fecundo em território brasileiro.
Pode-se dizer que no Brasil o haikai seguiu dois caminhos diferentes. Um deles seria o haikai produzido por imigrantes dentro da própria colônia japonesa, seguindo as tradições e escrito em língua japonesa. O outro seria o haikai produzido por poetas brasileiros incorporando elementos da literatura ocidental, escrito em língua portuguesa.
Dentro da prática do haikai escrito em japonês no Brasil destaca-se a figura de Nenpuku Sato (1898-1979), o primeiro mestre que manteve ativa a missão do cultivo do haikai entre os imigrante japoneses. A vida e obra deste poeta está sendo resgatada com a publicação do livro Trilha Forrada de Folhas: Nenpuku Sato Um Mestre de Haikai no Brasil, pela Editora Ciência do Acidente em edição bilíngue. De autoria do poeta e tradutor londrinense Mauricio Arruda Mendonça, a obra apresenta ao leitor brasileiro, pela primeira vez, uma seleção de haikais de Nenpuku Sato convertidos para a língua portuguesa.
Nenpuku Sato nasceu em 1898 na cidade de Sasaoka, Japão. Chegou ao Brasil como imigrante, em 1927, para engrossar o contigente de agricultores japoneses no interior de São Paulo. Mais do que o trabalho na terra, tinha como missão difundir a arte do haikai entre os imigrantes japoneses aqui existentes. Recebeu tal missão das mãos de seu mestre, Takahama Kyoshi (1874-1959) herdeiro direto da tradição literária de Masaoka Shiki, o pai do haikai moderno de maneira poética: Lavrando a terra / plante também / um país de haikais.
No Brasil Nenpuku fixou-se com a família em Mirandópolis (SP), transferindo-se posteriormente para Bauru (SP). Paralelamente à sua atividade de agricultor realizou peregrinações por várias cidades organizando conferências e reuniões de haikai com imigrantes. Em suas viagens passou a ter inúmeros discípulos espalhados pelo interior de São Paulo, Norte do Paraná e Mato Grosso do Sul. Estima-se que chegou a ter cerca de 6 mil seguidores. Foi o fundador, em 1958, da primeira revista especializada em haikai do Brasil, chamada Kokage.
O haikai praticado por Nenpuku (literalmente aquele que pensa com a barriga) seguia a escola tradicionalista onde os elementos naturais, sazonais, são imprescindíveis. Ao chegar ao Brasil percebeu que estes elementos eram completamente diferentes de seu país de origem. Sua grande atitude foi perceber essas mudanças e incorporá-las no processo do haikai. Num trabalho pioneiro inaugurou um processo de re-sensibilização do mundo natural, trocando o universo japonês pelo universo específico do território brasileiro.
Na década de 70 o governo japonês, através do próprio imperador, ofereceu uma comenda a Nenpuku Sato pelo reconhecimento de sua atuação literária. O que seria uma honra tornou-se um mal-estar: Sato recusou a comenda afirmando que sua medalha eram os inúmeros amigos que tinha feito no decorrer de sua trajetória poética.
Trilhas Forradas de Folhas Nenpuku Sato: Um Mestre de Haikai no Brasil De Nenpuku Sato. Seleção, tradução e notas de Mauricio Arruda Mendonça, edição bilíngue, caligrafias de Shinshiti Minowa, Editora Ciência do Acidente, 128 páginas, R$ 15,00 (livrarias Bom Livro e Acadêmica).





