São Paulo, 19 (AE) - "Corra Lola, Corra" (amanhã (20), no Maksoud Plaza, às 23 h), do alemão Tom Tykwer, foi considerado um dos filmes mais inventivos do Festival de Cinema de Veneza do ano passado. Não era muita vantagem, porque a originalidade não foi propriamente a nota dominante em um festival de bons filmes, mas de traçado básico chegado ao convencional. "Lola" acabou chamando a atenção por sair um pouco da curva de normalidade. Afinal de contas, trata-se de um exercício de linguagem no mínimo interessante.
A protagonista é vivida pela atriz Franka Potente, que faz jus ao nome. Para ela, o filme de Tykwer é um desafio físico
mais que interpretativo. Corre desvairada, como sugere o título. Na história, a pobre Lola tem exatamente 20 minutos para arranjar 1 milhão de marcos e salvar a pele do namorado. Em má hora ele arranjou emprego como transportador de dinheiro de origem duvidosa. Como perdeu a carga, está ameaçado de perder também a vida. Lola dispõe de 20 minutos para salvá-lo. O interessante do filme é que esses minutos se repetem três vezes, em suposto tempo real, com três variações possíveis. Uma espécie de "Jardim dos Caminhos Que Se Bifurcam" - sem o intelecto genial de Jorge Luis Borges.
Mas a idéia de base é mais ou menos a mesma. No conto de Borges, cada caminho se abre em duas possibilidades, que levarão a desfechos diferentes. O tema foi também explorado no cinema por "Smoking no Smoking", de Alain Resnais, este baseado em uma peça inglesa, "Intimate Exchanges", de Alan Ayckbourn. Neste, a história vai mudando a cada alternativa seguida pelos persongens. No começo do filme, uma personagem sai ao jardim, vê um maço de cigarros em cima da mesa, hesita, e acaba acendendo um. Numa versão alternativa, ela não fuma.
As tramas seguem caminhos completamente diferentes, de acordo com a escolha feita. O número de possibilidades aberto por cada escolha seria muito grande. Não infinito, mas virtualmente incalculável. "Smoking no Smoking" trabalha com oito possibilidades de escolha. Mesmo desse jeito, limitado em termos numéricos, produz a impressão de vertigem no espectador.
"Lola" é muito mais modesto. Trabalhando com idéia de base semelhante, Tykwer reduz essa árvore de probabilidades a um exercício físico muito mais despojado. Tanto no caso de Borges, quanto no de Ayckbourn, retomado por Resnais, procura-se mostrar como o acaso vai tecendo um destino humano que, visto depois, aparece como necessário e inevitável. Daí a sensação de vertigem: se uma vida é construída de acasos, onde fica a certeza quanto ao futuro? "Lola" vai por aí, mas toma cuidado para não incomodar muito o espectador com essa questão filosófica. Faz um exercício aeróbico sobre o acaso.

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