O inventário de um maldito
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quinta-feira, 15 de outubro de 1998
ReproduçãoAntônio Mariano Júnior 
É raríssimo, mas acontece. Está chegando às lojas um CD-tributo que não cheira a oportunismo e muito menos vem envolvido num esquema comercial caça-níquel daqueles feitos para reverenciar uns e outros à beira da pindaíba artística. Ou, pior, que promovem fúteis exumações musicais. A única, pura e honesta intenção de Balaio de Sampaio (MZA-Music) é a de homenagear e, de quebra, retirar o rótulo de compositor de uma música só que sempre rondou a carreira de Sérgio Eu Quero É Botar Meu Bloco na Rua Sampaio. Isso mesmo, Sérgio Sampaio, morto em 94.
Sim, é uma merecida reverência. Que poderia muito bem ter sido feita em vida e consequentemente recolocar Sérgio Sampaio à mídia mesmo que fosse para vender ao público a imagem de maldito que sempre o circundou. Enfim, não deu. Balaio do Sampaio vem restituir em partes essa injustiça. E os responsáveis pela empreitada são Sérgio Natureza, ex-parceiro e que assina a produção do disco, e Mazzola que ficou com a direção artística. A distribuição ficou a cargo da gravadora Polygram.
Para fazer parte desse pequeno inventário de Sampaio foram convocados alguns nomes brilhantes da MPB - entre evidentes, emergentes e sumidos. Todos, entretanto, imprimiram suas marcas pessoais em 13 músicas de Sérgio Sampaio, das quais três inéditas - Em Nome de Deus,Rosa Púrpura de Cubatão e Pavio Destino. O repertório é irretocável. Balaio de Sampaio abre e fecha com Eu Quero É Botar Meu Bloco na Rua. A abertura se dá com Sérgio Sampaio cantando (um novo arranjo foi feito em cima da sua voz retirada do fonograma original). Coube a Elba Ramalho dar sua versão desvairada, na base do forró, no encerramento do álbum, cuja gravação foi feita para seu disco Paisagem (96).
São dois os melhores momentos do disco. O primeiro: Chico César cantando (e tocando bem) e belíssima e cortante Em Nome de Deus cujos versos, fortíssimos, ganham o ouvinte logo de cara (Sem ser João Batista você/Meu corpo na crista das ondas do mar/E aí me abriu feito ostra/E colheu minha pérola pra Iemanjá/Agora que estou à mercê de sua luz/Em nome das águas lá de bom Jesus/Em nome de Deus, me carregue/Me pregue em sua cruz).
De maldito para maldito com carinho e competência. Assim pode ser resumida a outra faixa maravilhosa de Balaio do Sampaio. É Jards Macalé que interpreta Velho Bandido. De se ouvir e ouvir e ouvir. Claro, outras participações também merecem respeito, seja João Bosco fazendo aquelas coisas de sempre com a voz em Rosa Púrpura de Cubatão ou mesmo o insosso Erasmo Carlos cantando a também quase insossa Feminino Coração de Deus.
Uma curiosidade: no disco foi incluída Meu Pobre Blues, cujo fonograma foi extraído do disco de estréia de Zizi Possi, em 79. Reparem no sotaque baiano que a cantora paulistana tinha (ela morou muitos anos na Bahia) e no recado que Sérgio Ricardo mandou ao conterrâneo Roberto Carlos (Eu não preciso de sucesso/Eu só queria ouvi-lo cantar/Meu pobre blues). De nada adiantou: o tal rei continuou encastelado e não gravou nadica de Sampaio, um de seus admiradores.
Esnobismo à parte, o importante é que Balaio de Sampaio é um disco indispensável na prateleira de qualquer pessoa que se interesse em ter uma razoável cultura musical. Uma prova de que no Brasil, para receber o carimbo de maldito, precisa ter muita competência. E Balaio do Sampaio mais que um disco de um maldito quase esquecido é uma verdadeira prova de que CDs-tributos também podem ser levados a sério.


