O 'interior' do lado de fora
PUBLICAÇÃO
domingo, 21 de janeiro de 2001
De Londrina Especial para a Folha 2 
Por onde passa, o homem deixa pegadas na terra. Para descobrir sua trajetória, basta seguir os sinais gravados no chão. O caminho de onde veio e para onde segue pode ser compreendido através de uma observação concreta e lógica.
Muito mais que isso, o homem, quando passa, também deixa pegadas em sua própria mente. Seguir a trajetória de seus pensamentos não é tarefa fácil, pois os sinais gravados na mente seguem um invisível processo labiríntico. O que equivale dizer que os caminhos particulares de um processo mental não podem ser compreendidos da mesma maneira que sinais concretos e lógicos gravados na terra.
O personagem/narrador de Que Enchente me Carrega?, romance do escritor gaúcho Menalton Braff, percorre esse duplo caminho. Ao mesmo tempo que deixa pequenos rastros na terra, percorre um trajeto mental/psicológico que ninguém pode ser testemunha. A não ser o leitor.
Lançado pela Editora Palavra Mágica, Que Enchente me Carrega? é o primeiro romance de Menalton Braff. O escritor ganhou notoriedade ao receber, com o volume de contos À Sombra do Cipreste (Editora Palavra Mágica, 1999), o prêmio Jabuti 2000 da categoria. Em seu novo trabalho, aprofunda a linguagem desenvolvida nos contos numa narrativa de maior fôlego. O resultado surpreende.
Por obra do acaso, a história narrada é semelhante à do último romance do escritor português José Saramado, A Caverna (Editora Companhia das Letras, 2000). Braff narra o beco sem saída existencial de um sapateiro que vê sua profissão ser extinta pelas grandes indústrias de calçados. Numa posição de resistência, luta para não se converter em operário da linha de produção de uma moderna fábrica de sapato.
Para piorar a situação é abandonado pela mulher. E, como se não bastasse, a construção de uma nova rodovia, um estandarte do desenvolvimento, ameaça derrubar sua casa e sua oficina. Esses fatores externos transformam sua vida num verdadeiro inferno. A dimensão da realidade é estruturada a partir de seus pensamentos, de sua percepção lógica/ilógica dos acontecimentos. Uma enxurrada barrenta em que vai rodando como folha seca.
O que surpreende em Que Enchente me Carrega? não é a história narrada, mas o mecanismo que o autor utiliza para revelar a enxurrada em que o personagem/narrador rodopia. Uma linguagem de peso e densidade que confere um peculiar sabor de caos e lentidão: Que mais nos resta, senão a busca inútil e mútua em meio à incerteza de que nossos caminhos descenderão pela vertente íngreme até o espraiar-se na várzea dos anos confundidos na memória? Luas incontáveis te beijaram as faces, mesmo quando o mármore de teu corpo se fundia à tua própria cor. Do fundo de teu sossego te sinto incitar-me a todo recolhimento, porque a pétala que se desprende ao passar da brisa é ainda a flor que se multiplica, mas sem esperança de eternizar-se.
Professor de literatura, Menalton Braff sabe onde deve arriscar as palavras à beira do precipício e quando é adequado acomodá-las num recipiente de segurança. O fato de trabalhar fora de uma grande centro (Baff reside em Ribeirão Preto, interior de São Paulo) talvez ofereça algum subsídio. Embora desconhecido por um grande número de leitores, o escritor não é o que pode-se chamar de estreante no mundo das letras. Publicou, sob pseudônimo, dois volumes de contos no final da década de 70. Depois sumiu do mapa. Reapareceu com tudo em 1999, com a publicação do belo À Sombra do Cipreste. (M.L.)
Que Enchente me Carrega? de Menalton Braff, Editora Palavra Mágica (telefone 16-610-0204), 144 páginas, R$ 28,00.


