‘‘A matéria-prima do artista é a sua vida. Um escritor, por exemplo, tem de revolver sua própria merda. E tirar coisa dali. Uma pessoa normal larga a merda e segue em frente. Esquece. Uma pessoa normal se esquece de todas as merdas de sua vida. Das que fizeram com ela e das que ela fez com os outros. Deixa que essa merda toda sedimenta e seque, e não feda mais. Mas um artista converte essa merda em matéria-prima. Material de construção.’’
Com essas palavras, o escritor cubano Pedro Juan Gutiérrez define seus passos através da literatura. Revirando o próprio lixo, converte o cheiro, o gesto em palavras. Sem pudores, sem meias palavras. Faz questão de apresentar a vida com toda sua crueza. Chamado por alguns de ‘‘Bukowski de Cuba’’ (em alusão ao estilo do escritor norte-americano Charles Bukowski), tem um cinismo impregnado em seus romances.
Aos 52 anos de idade, Gutiérrez é responsável pela mais inquietante literatura produzida em Cuba hoje. Sempre trabalhando com a tríade sexo, rum e miséria, faz um retrato cínico e erótico de seu povo. Embora seus livros não sejam publicados em seu país, são disputados a tapa em edições espanholas.
Após publicar duas de suas obras no Brasil, ‘‘Trilogia Suja de Havana’’ (1999) e ‘‘O Rei de Havana’’ (2001), a Editora Companhia das Letras está lançando o mais recente romance do escritor, ‘‘Animal Tropical’’. O livro não difere muito de suas outras obras – deixa ainda mais claro seu estilo. Mesmo deixando a impressão de que ler um de seus romances é ler todos, consegue mostrar que debaixo do verniz sexual há algo maior.
O narrador de ‘‘Animal Tropical’’ é um fiel alter ego de Pedro Juan Gutiérrez. Também escritor, chamado Pedro Juan, o narrador passa todo o romance tentando iniciar um livro contando a história de suas relações sexuais/amorosas com duas mulheres completamente diferentes: uma prostituta cubana e uma intelectual sueca. Procurando escrever um romance, escreve outro, o próprio ‘‘Animal Tropical’’.
Além de contrapor as duas mulheres, uma caribenha e outra européia, também contrapõe a vida nos dois países, Cuba e Suécia. Miséria e riqueza. Sensualidade e melancolia. O romance se divide basicamente em duas partes. Na primeira o narrador perambula pelas ruas de cuba bebendo e dormindo com a sedutora prostituta, Gloria. Na segunda, vive dois meses em Estocolmo andando pelas frias ruas da cidade e dormindo com a recatada intelectual Agneta.
Através da relação com as duas mulheres, sempre a partir de uma ótica profundamente individualista, o narrador apresenta sua relação com existências culturais e sexuais distintas. E quando precisa fazer uma escolha, opta por aquela que se sente mais verdadeiro, a mais animal, a tropical. Mesmo com toda sua miséria, com todo seu caos, ela oferece também um ninho acolhedor.
Em ‘‘Animal Tropical’’, Gutiérrez consegue dizer o que prometia em seus outros livros.Ou seja, mostra como utiliza seu estilo não como um fim em si mesmo, mas como instrumento para um segundo conteúdo. Um elemento que diante de tanta crueza, pode passar despercebido. Mas é justamente ali que reside sua inquieta revelação.
Serviço:
‘‘Animal Tropical’’ de Pedro Juan Gutiérrez, Editora Companhia das Letras, tradução de José Rubens Siqueira, 344 páginas, R$ 32,00.




‘‘Minha vida é uma perpétua experimentação entre o nada e o nada. Às vezes, a experimentação se torna vertiginosa e brutal. Não consigo separar artificialmente o que faço e penso daquilo que escrevo. Se tivesse em Estocolmo, minha vida talvez fosse lenta, monótona, cinzenta. O ambiente em torno é decisivo. A única coisa que posso fazer sempre, em Estocolmo, em Havana, onde for, é construir meu próprio espaço. Não posso esperar nunca que alguém me dê liberdade. A liberdade tem que ser construída por nós mesmos. Como? Cada qual tem de descobrir por si só. Minha liberdade eu construo escrevendo, pintando, mantendo a minha visão do mundo, espreitando na selva como um animal, impedindo as intromissões na minha vida privada. O essencial para o homem é a liberdade. Interior e exterior. Atrever-se a ser você mesmo em qualquer circunstância e lugar. A liberdade é como a felicidade: não chega nunca. Nunca se tem completa. É só um caminho. A gente caminha atrás da liberdade e da felicidade. E assim se vive. É só isso que se pode aspirar.’’
Fragmento de ‘‘Animal Tropical’’

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