O insólito nas mãos de Cortázar
PUBLICAÇÃO
domingo, 28 de fevereiro de 1999
Marcos Losnak Especial para a Folha2 
Existem dias em que o tédio abraça o cotidiano e espalha escuras nuvens pela existência. Nestes dias algumas ações são bem-vindas, e até necessárias. Julio Cortázar sugere algumas ocupações maravilhosas para tais dias, antídotos para desanuviar a situação. Um delas seria sair andando pela cidade contando as árvores das ruas e, a cada árvore florida, parar um momento num só pé e esperar que alguém olhe, então soltar um grito seco e breve, e girar como um pião, de braços bem abertos, depois seguir em frente como se nada tivesse acontecido. Outra ocupação maravilhosa é cortar a pata de uma aranha, metê-la num envelope, escrever Senhor Ministro das Relações Exteriores, acrescentar o endereço, descer a escada aos pulos, botar a carta no correio da esquina.
ReproduçãoUm ocupação maravilhosa mais perigosa é entrar num café e pedir açúcar, açúcar outra vez, três ou quatro vezes açúcar, e ir formando um monte no meio da mesa, enquanto cresce a fúria nos balcões e debaixo dos aventais brancos, e exatamente no meio do monte de açúcar cuspir suavemente e espiar a descida da pequena geleira de saliva, escutar o barulho de pedras quebradas que acompanha e que nasce nas gargantas contraídas de cinco fregueses e do patrão, homem honesto em certas horas.
Estas sugestões de ocupações maravilhosas estão em Histórias de Cronópios e de Famas, livro do escritor argentino Julio Cortázar (1914 - 1984) que a Editora Civilização Brasileira acaba de relançar. Fora de catálogo há algum tempo, a obra é composta de pequenos textos onde o humor caminha lado a lado com o non sense, com o insólito e o fantástico. Com uma ironia caprichosa, Cortázar demonstra onde as faculdades humanas podem chegar quando o sentido é isolado no cofre do mundo contemporâneo.
Publicado originalmente em 1962, Histórias de Cronópios e de Famas é constituído de quatro partes distintas. Manual de Instruções traz recomendações de como chorar, a melhor forma de sentir medo, como subir uma escada, etc. Em Instruções para dar corda no relógio, Cortázar escreve: Lá no fundo está a morte, mas não tenhas medo. Segure o relógio com a mão, pegue com dois dedos o pino da corda, puxe-o suavemente. Agora se abre outro prazo, as árvores soltam suas folhas, os barcos correm regata, o tempo como um leve leque vai se enchendo de si mesmo e dele brotam o ar, as brisas da terra, a sombra de uma mulher, o perfume do pão. Que mais quer, que mais quer? Amarre-o depressa a seu pulso, deixe-o bater em liberdade, imite-o anelante. O medo enferruja as âncoras, cada coisa que pôde ser alcançada e foi esquecida começa a corroer as veias do relógio, gangrenando o frio sangue de seus pequenos rubis. E lá no fundo está a morte se não corremos, e chegamos antes e compreendemos que já não tem importância.
Na segunda parte do livro, Estranhas Ocupações, Cortázar narra as aventuras de uma estranha família empenhada em realizar as mais estranhas tarefas. Em Matéria Plástica, terceira parte, pequenas histórias contrapõem a utilidade e a inutilidade das coisas na vida cotidiana, oferecendo ao acaso todas as condições necessárias para abater as certezas. Histórias que indicam como a extrema racionalidade contém o germe da alucinação. Num mundo totalmente pautado pela razão, a desrazão torna-se um poderoso remédio contra as enfermidades do tédio.
Em Histórias de Cronópios e de Famas, quarta e última parte que confere título ao livro, Cortázar cria seres fantásticos que povoam um mundo imaginário bem próximo ao dos humanos. Os cronópios, os famas e as esperanças seguem suas ocupações tropeçando uns nos outros. Sobre a índole dos cronópios, por exemplo, o autor escreve: Agora acontece que as tartarugas são grandes admiradoras da velocidade, como é natural. As esperanças sabem disso e não ligam. Os famas sabem e caçoam. Os cronópios sabem e cada vez que encontram uma tartaruga, puxam a caixa de giz colorido e na lousa redonda da tartaruga desenham uma andorinha.
A Editora Civilização Brasileira também está lançando os ensaios críticos de Cortázar divididos em três volumes. O primeiro deles, Obra Crítica - 1 já está nas livrarias. Organizado por Saúl Yurkievich, o volume apresenta o ensaio inédito Teoria do Túnel de 1947 em que o escritor realiza um estudo sobre a travessia do romance, do romantismo ao existencialismo. Defendendo a idéia de romance necessário, uniu elementos do surrealismo e existencialismo numa fusão do poético com o narrativo.
ReproduçãoPara Saúl Yurkievich, a prática romanesca apresentada por Cortázar em Teoria do Túnel seria aquela que passaria a guiar toda sua obra subsequente, como O Exame Final, Os Prêmios e O Jogo da Amarelinha. O ensaio, nas palavras de Yurkievich, permite afirmar que toda a obra romanesca de Cortázar procede de uma mesma matriz, e que esse módulo gerador é judiciosa e minuciosamente concebido por um texto preliminar que o explica e justifica.
Na sequência, a editora colocará nas livrarias Obra Crítica - 2, volume organizado por Jaime Alazraki, que compreenderá ensaios de Cortázar escritos na fase anterior a O Jogo da Amarelinha. Obra Crítica - 3, organizado por Saúl Sosnowski, trará ensaios escritos na fase pós O Jogo da Amarelinha.
Embora seja considerado um escritor argentino, Julio Florencio Cortázar nasceu na Bélgica em 1914. Filho de um diplomata basco e de uma argentina, cresceu em Buenos Aires. Em 1951, por motivos políticos abandonou a Argentina se instalou em Paris trabalhando na Unesco. Considerado, ao lado de Jorge Luis Borges, como o grande expoente da literatura argentina deste século, publicou grande parte de seus livros na Europa, onde seus escritos eram ovacionados pela desconcertante originalidade. O cineasta italiano Michelangelo Antonioni inspirou-se em um de seus contos, As Barbas do Diabo, para filmar um dos clássicos dos anos 60, Blow Up. Sua obra-prima, O Jogo de Amarelinha (Rayuela), de 1963, representou o marco inicial para o boom do gênero fantástico da literatura latino-americana.
Cortázar sofria de uma rara doença, uma espécie de gigantismo, que não colocava fim ao crescimento. Cresceu durante toda a vida, do nascimento até a morte. Aos 60 anos ultrapassava os 2 metros de altura e sentia os pés apertados em sapatos número 46. No fim da vida radicalizou suas posições políticas. Adepto do socialismo, doou os direitos autorais de seus últimos livros aos revolucionários sandinistas da Nicarágua e só aceitava conceder entrevista onde pudesse falar em favor dos revolucionários. Morreu em 1984, vítima de leucemia.
Atento observador da lógica absurda do cotidiano, Cortázar deixou registrada uma pequena consideração sobre esse monte de folhas impressas chamado jornal com suas efêmeras faculdades: Um homem pega um bonde após comprar o jornal e pô-lo debaixo do braço. Meia hora depois, desce com o mesmo jornal debaixo do mesmo braço. Mas já não é o mesmo jornal, agora é um monte de folhas impressas que o senhor abandona num banco da praça. Mal fica sozinho na praça, o monte de folhas impressas se transforma outra vez em jornal, até que um rapaz o descobre, o lê, e o deixa transformado num monte de folhas impressas. Mal fica sozinho no banco, o monte de folhas impressas se transforma outra vez em jornal, até que uma velha o encontra, o lê e o deixa transformado num monte de folhas impressas. A seguir, leva-o para casa e no caminho aproveita-o para embrulhar um molho de acelga, que é para o que servem os jornais após essas excitantes metamorfoses.


