O INIMIGO COMUM Para realizadores do Cone Sul, filme americano é vilão que põe em risco identidade cultural DivulgaçãoEncontro de roteiristas promovido pelo Instituto Sundance, durante o Mercocine: fortalecimento da identidade cultural ameaçada pelo cinema americano Carlos Eduardo Lourenço Jorge De Londrina Especial para a Folha2 O recém-encerrado II Festival de Cine del Mercosur – Mercocine 2000, realizado semana passada em Punta del Este, no Uruguai, foi ao mesmo tempo um necessário encontro de realizadores da região sul do continente – à exceção do ausente Paraguai – e um momento de grave, penosa reflexão sobre questões tão cruciais para o setor, como as muitas dificuldades de produção e a dura, pesada e nada ética concorrência do similar americano, que sem cerimônia ocupa larga fatia dos mercados exibidores do Uruguai, Argentina, Brasil e de todos os outros países latinos fora do eixo do Mercosul. Além da exibição dos 16 longas-metragens convidados, todos produções de 1999 – a mostra não teve perfil competitivo –, a comissão organizadora promoveu alguns encontros valiosos. Nos dois mais importantes, a tônica acabou sendo a mesma: a camisa de força em que foi metido o cinema latino-americano. Organizado pela Cinemateca Uruguaia, a conversa em torno do tema ‘‘Como Chegar ao Público’’ acabou numa espécie de muro das lamentações. Reunidos em cima da mesma tecla, diretores, produtores, roteiristas, exibidores e jornalistas não precisaram de qualquer tempo extra ou manobras de raciocínio para partir do princípio e chegar ao fim da mesma linha. O principal entrave ao surgimento, desenvolvimento e consolidação de indústria cinematográfica nos países do Cone Sul é o cinema norte-americano. Nada a ver com a velha bandeira ideológica da colonização cultural, anos 60 e adjacências. O cerco é agora bem mais amplo, organizado, asfixiante, globalizado. No Uruguai, a situação só não é mais caótica por falta de espaço. Segundo dados do sindicato dos exibidores, avalizados pela confiável Cinemateca Uruguaia, em 99 foram lançados no país 142 filmes. Uma única produção argentina, uma espanhola e 140 norte-americanas. Os participantes brasileiros não levaram dados estatísticos, mas proporcionalmente e com certeza os números são da mesma forma trágicos. Um pouquinho melhor é a situação da Argentina, que vem conseguindo que os poucos filmes realizados no país sejam vistos por um público considerado muito bom, mantendo considerável margem de ocupação das salas. O premiado diretor argentino Tristán Bauer foi quem colocou o dedo mais fundo na ferida. Para ele, a saída irremediável é o protecionismo, a chamada cota de tela ou reserva de mercado. Mas para isto é preciso muita vontade política, já que vontade cultural existe de sobra e até mesmo dinheiro pode aparecer. O problema são os muitos interesses multinacionais envolvidos – e que seriam obrigatoriamente contrariados. A outra reunião, no dia seguinte, era um encontro de roteiristas promovido pelo Instituto Sundance, que acabou revelando óbvias e indissociáveis relações com a conversa da véspera. Entidade criada por Robert Redford nos anos 80 e espécie de inspirador e patrono do filme independente – o conceito hoje está bem mais elástico e já admite namoro firme com a ‘‘mainstream’’ de Hollywood – o Sundance Institute nunca escondeu a simpatia pelo cinema latino-americano, visto como manancial de novas e boas idéias. O ‘‘Encontro de Roteiristas’’ em Punta del Este, a princípio uma reunião para debater problemas comuns enfrentados na construção de uma carpintaria de roteiro, acabou subvertendo a proposta conceitual. Os participantes trocaram a receita do ‘‘como fazer’’, de ordem técnica, de escritura cinematográfica, para o ‘‘como, por que fazer e para quem fazer’’, de ordem conceitual e filosófica. Com o vilão hollywoodiano rondando a conversa, a conclusão acabou vindo numa terceira etapa. Entregue à imprensa convidada ao final do II Festival del Mercosur, um documento batizado como ‘‘Conclusiones del Mercocine 2000’’ tenta a busca de soluções para o fortalecimento da identidade cultural ameaçada apontando em três direções: educação pelo cinema, distribuição de forma mais direta e difusão através da conquista de mais espaços dentro e fora do Mercosul. Para a terceira edição da mostra, em fevereiro de 2001, o Instituto Nacional de Cinema e Artes Audiovisuales da Argentina criou um premio especial para o melhor projeto de co-produção entre os quatro países do Mercosul. Ainda não é muito, mas é sempre um começo. O jornalista Carlos Eduardo Lourenço Jorge esteve em Punta del Este a convite do Ministério do Turismo do Uruguai e da organização do Mercocine 2000.