São Paulo - Os X-Men sobreviverão sem Wolverine, o personagem central dos quatro primeiros filmes dos mutantes. O diretor Matthew Vaughn já revelou como pensa em dar continuação a ''X-Men - Primeira Classe''. E a estreia desta sexta-feira, no Brasil e no exterior, do quinto filme tem bom roteiro, ação na medida certa e visual elegante, para agradar também os não iniciados na série.
''Primeira Classe'' é o prelúdio da primeira trilogia e também deve ser o primeiro de uma nova sequência - tudo depende de seu sucesso de bilheteria. O novo filme explora e explica a relação conflituosa entre o professor Charles Francis Xavier (James McAvoy, de ''Desejo e Reparação'') e Erik Magnus Lensherr (Michael Fassbender, de ''Bastardos Inglórios''), o Magneto. E enfoca também o contraste de trajetórias e personalidades: de um lado, Xavier, o bem-nascido acadêmico de Oxford. De outro, Lensherr, um garoto judeu separado da família e principalmente da mãe durante a ocupação da Polônia pelos nazistas, em 1944.
Neste retorno no tempo, acentuado na década de 60, ambos se encontram, se identificam e se unem contra a então personificação do mal entre os mutantes: Sebastian Shaw (Kevin Bacon, de ''Rio Selvagem''). A história deste personagem da Marvel é praticamente mantida: nos gibis, Shaw é chefe da comunidade secreta de ricos e poderosos que desejam dominar o mundo, um homem de negócios que esconde o fato de ser mutante - ele absorve e se revitaliza com energia - e irá comandar o grupo de inimigos dos X-Men, liderados por Xavier. Na releitura para o filme, a comunidade perde força e acrescenta o fato de Shaw ser um ex-nazista com o passado intimamente ligado ao destino da mãe de Magneto.
Magneto e Xavier se aliam contra Shaw, cada um com suas razões, e para enfrentá-lo saem na busca de outros mutantes. A sequência rápida de cenas nestas buscas é bastante interessante: ambos descobrem novos mutantes em lugares inusitados, desde boates até em uma penitenciária. Nessa busca, encontram Wolverine (Hugh Jackman), mas ele meio embriagado, meio zangado, os manda passear.
O próximo passo é fazer cada mutante controlar sua força. Xavier parece ser o único com plena consciência da sua aptidão de ler mentes e o único que parece se sentir confortável sendo um mutante (pelo menos na ala dos mutantes do bem). Neste ponto, ''Primeira Classe'' discute a questão central da série, a intolerância, de uma forma mais delicada que os demais, embora ainda de uma maneira explícita.
Inadequação
A sensação de inadequação devido à diferença é apresentada em diversos personagens, mas ganha força em Mística (Jennifer Lawrence, de ''Inverno da Alma'') - ela pode se transformar em quem quiser, mas não se sente à vontade em aliar sua sexualidade à sua aparência -; e Fera (Nicholas Hoult, de um ''Grande Garoto''), que quer ser normal a qualquer custo - e isso o tornará visualmente um mostro. O mesmo ocorre com Angel Salvatore (Zoë Kravitz, de ''A Estranha em Mim'').
O duelo entre o bem e o mal surge em meio à crise dos mísseis de Cuba, com direito a cenas reais de discursos de John Kennedy. Esse é um dos trunfos de ''Primeira Classe'': contextualizar o cenário com fatos reais. Tanto que o diretor disse em entrevista a um site americano que pensa em iniciar a continuidade do filme com cenas da morte de John Kennedy. A trajetória da bala que o acertou seria guiada por Magneto.
No confronto com Shaw, os poderes de Magneto já não são mais exclusivamente movidos por seu rancor e o desenrolar do ''duelo'' deixa claro porque ele se otrna Magneto, numa explicação até maquiavélica. Aliás, embora o filme tente explicar o início da trajetória dos X-Men, é a história de Magneto a mais bem desenvolvida ao longo do filme e seu personagem é mais elaborado no filme. Outros arquivilões mutantes, como Shaw e Emma Frost (a bela January Jone, da série ''Mad Men'') não tem a mesma sorte. Do lado dos mocinhos, o mesmo ocorre. Não se explica, por exemplo, por que Mística, a irmã adotiva da família de Xavier, não demonstra qualquer cumplicidade com ele ao longo dos outros filmes da série.

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