Os vários anéis e colares de ouro ostentados pelo cantor José Rico ao longo da carreira em nada lembram o passado pobre no início da trajetória, no distrito Caixa São Pedro, de Apucarana. Quem viu o "garganta de ouro" (morto na última terça-feira) brilhando em programas de televisão, não imagina que tudo começou ali, às duras penas e muito show debaixo de lona de circo ainda na década de 60. Nada de glamour, riqueza ou sucesso. Desconhecido, abria shows de duplas de maior visibilidade na época. O dinheiro da bilheteria era repartido entre os artistas principais e, às vezes, alguma coisa lhe restara. Até mesmo por isso, a vida era dividida entre algumas apresentações e o trabalho como pintor e pedreiro. Há quem diga que ajudava o pai, que trabalhava como barbeiro. Nessa época, não sabia o que o futuro reservava, mas já tinha a obstinação pelo triunfo artístico.
Nascido em São José do Belmonte (PE), em 20 de junho de 1946, foi ainda pequeno para a cidade de Terra Rica (Noroeste do Paraná), onde foi criado. Em torno de seus 20 anos, a família mudou-se para o distrito, local em que começou a mostrar os primeiros acordes recheados da voz afinada e potente. Entre bailes e quermesses, ganhou notoriedade aos poucos e, assim, tentava a vida artística.
"Zé Rico sempre foi uma pessoa simples, apesar de uma figura incomum. Desde aquela época já usava o cabelo diferente, roupas não muito convencionais e óculos chamativo. Fazia questão de falar um português correto. Ele nasceu para ser artista e foi atrás do sonho. Quando novo, decidiu que chegaria a algum lugar na música, ainda que as pessoas não acreditassem. E eram muitas", lembra o advogado José Teodoro Alves, de Apucarana, que tocou por diversão com o cantor em muitos bailes na região.
O descrédito, segundo ele, por vezes era pesado, beirando a discriminação. "Muitos falavam que tocar em baile era coisa de vagabundo, não era um trabalho de verdade. As ofensas aconteciam mesmo apesar do talento acima da média que ele demonstrava; era um violeiro que se destacava, além da voz afinadíssima."
O carisma somado ao talento foi mudando sua a imagem. Mesmo assim, as oportunidades eram poucas. "Ele passou por muitas dificuldades, principalmente financeiras, no início da carreira, que ainda durou muitos anos. Quando já famoso e com dinheiro, voltava à cidade com a mesma simplicidade do passado. Mandava avisar todos os amigos que estava lá para nos reunirmos e tocarmos muita moda de viola na casa do Juim", conta, referindo-se a um dos melhores amigos.

Futebol

Se a viola era sua companheira inseparável, em alguns momentos ela ficava de lado para que o cantor jogasse futebol, outra paixão. Tanto que, quando a situação financeira melhorou, adquiriu uma chácara na cidade de Apucarana e reformou um campo de futebol onde reunia os amigos para partidas. "Joguei muita bola com ele lá", diz o ex-prefeito da cidade, Carlos Scarpelini, que também acompanhou a trajetória do cantor desde o início.
O campo ficou tão bom que passou a ser utilizado, inclusive, para campeonatos de times amadores da região. Era conhecido como o "Campo do Zé Rico". Após alguns anos, vendeu a propriedade, mas a prefeitura do município conseguiu adquirir o campo, onde hoje é o Centro Esportivo Hairton Santos, um dos destaques da cidade.

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