São Paulo, 23 (AE) - A Brown & Williamson Tobacco Co., uma das maiores empresas fabricantes de tabaco nos Estados Unidos, foi notícia do "New York Times" em junho de 1994, quando um professor universitário passou ao jornal documentos secretos que esconderam por 40 anos estudos relativos às doenças causadas pelo cigarro. Ele provocaria não só dependência - criando viciados - como degeneração física e câncer. Num relatório interno da British American Tobacco (Batco), empresa-irmã da Brown and Williamson, a palavra câncer é trocada por um código, "zephyr", mas, segundo revelava o relatório, os pesquisadores tinham descoberto efeitos ainda piores de substâncias químicas como o aromatizante benzopireno, 20 vezes mais ativo do que o arsênico.
A publicidade do filme "O Informante" (The Insider), que estréia sexta-feira (25) no País, apesar de reproduzir um maço de cigarros, não traz, porém, a advertência do Ministério da Saúde, de que o cigarro pode causar câncer nos pulmões, doenças do coração, etc. A tarjeta adverte: "Atenção: revelar a verdade pode ser prejudicial". E foi prejudicial mesmo para o químico Jeffrey Wigand, cientista e alto executivo da Brown & Williamson, demitido em 1993, mas preso a ela por um contrato de sigilo que o proibia de revelar relatórios da empresa. Pressionado por um jornalista da CBS, Lowell Bergman, produtor do programa "60 Minutos", Wigand quebra o sigilo e concede uma entrevista bombástica a Mike Wallace, ameaçada de não ser transmitida por causa de interesses comerciais.
A Westinghouse estaria interessada na compra da CBS e não era possível enfrentar um processo do fabricante de cigarros que a levaria à falência. O tema central do filme, portanto, é a luta de Bergman para colocar no ar a entrevista de Wigand, enquanto a vida de seu entrevistado corre perigo. Ameaçado de morte, Wigand refugia-se num hotel, perde a família num processo de divórcio e afoga-se num mar de álcool quando passa a ser alvo de uma campanha difamatória que o pode levar à cadeia. O neozelandês Russell Crowe, de "Los Angeles, Cidade Proibida" (L.A. Confidential), faz uma comovente interpretação de Wigand, concorrendo ao Oscar ao lado dos favoritos Kevin Spacey (Beleza Americana) e Sean Penn (Sweet and Lowdown).
O prêmio, claro, poderia ajudar a carreira do filme de Michael Mann, que fracassou nas bilheterias americanas, não faturando 50% do que custou. Essa culpa não pode ser computada a Mann ou aos profissionais envolvidos na produção. Do elenco excepcional (Russell Crowe, Al Pacino, Diane Venora) ao fotógrafo Dante Spinotti (de Los Angeles, Cidade Proibida), passando pela autora da trilha sonora (Lisa Gerrard, do grupo Dead Can Dance), todos colaboraram para fazer de "O Informante" não apenas um thriller corajoso contra a indústria do tabaco, mas uma sensível obra sobre o poder da palavra. O problema é que ninguém acredita mais nesse poder.
As advertências do Ministério da Saúde ou as denúncias de Jeffrey Wigand não bastam para fazer alguém parar de fumar. Não sem razão, o diretor Michael Mann, formado na tradição do cinema comercial (de O Último dos Moicanos, Fogo Contra Fogo), começa seu filme com Mike Wallace entrevistando um líder fundamentalista islâmico. A mensagem parece clara: aquela sequência inicial, editada apenas para mostrar a ousadia do intrépido Bergman (Al Pacino), destaca a presença do arcaísmo religioso, anacrônico mas verdadeiro, no mundo moderno, laico e hedonista. O muçulmano que Wallace acusa de terrorista pode ser mesmo o que ele desconfia, mas seus atos são comandados pela fé na palavra. Sagrada, incorruptível, para os islâmicos.
Já os envolvidos na entrevista devastadora contra o fabricante de cigarros têm outros interesses além da simples denúncia. Wallace, âncora de "60 Minutos", estava se aposentando. Não queria ser lembrado como o jornalista que cedeu à CBS o direito de editar seu programa. A fama pode durar 15 minutos, como dizia Andy Warhol, mas a infâmia dura para sempre. A honestidade do roteirista e diretor Michael Mann é tal que ele não desculpa sequer o informante. Como os demais, sua ética é também questionável. Wigand tinha uma filha asmática. Sabia bem o que significa uma pessoa morrer sem respirar (como os fumantes com câncer). Por que omitiu as informações que sabia por tanto tempo? Por que quebrou o acordo de sigilo com a Brown & Williamson? Afinal, palava é palavra. Mann soluciona esse conflito ético mostrando a devastação moral de Wigand acompanhada por música religiosa. Nos momentos mais tensos, a "Litania" de Arvo P„art surge na trilha sonora como uma trombeta do Apocalipse. Os movimentos lentos da câmera de Spinotti acentuam a indecisão dos personagens, conciliando tempo de ação com tempo psicológico. Contra a histeria do jornalismo televisivo e sua perigosa mania de editar (e fragmentar) a vida alheia, Mann mostra a luta do executivo arrependido para resgatar sua dignidade, lidando basicamente com uma original solução cromática (a paleta hopperiana do hotel contra a luz do dia do julgamento libertador).
"O Informante", apesar disso, não faz desses recursos uma alegoria. Mann sabe que a realidade é muito mais poderosa.

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