O INFINITO MUNDO DOS SONHOS
PUBLICAÇÃO
domingo, 19 de abril de 1998
Marcos Losnak AP6> Especial para a Folha 2 
IlustraçãoDiz a lenda que, entre os livros de cabeceira do escritor argentino Jorge Luis Borges (1899 - 1986), estavam alguns títulos de H. P. Lovecraft. Alguns pesquisadores afirmam que a obra de Borges sofreu sensível influência da literatura fantástica e de horror de Lovecraft.
Muitas vezes apontado como o grande sucessor literário de Edgar Allan Poe (1809 - 1849), o norte-americano Lovecraft conferiu à literatura de horror um novo e respeitado status. Gênero geralmente classificado como menor, os contos de horror ganharam um novo alento nas mãos banhadas de fantasia de Lovecraft. Palavras suas: O verdadeiro conto de horror tem algo mais que sacrifícios secretos, ossos ensanguentados ou formas amortalhadas fazendo tinir correntes em concordância com as regras. Há que estar presente uma certa atmosfera de terror sufocante e inexplicável ante forças externas ignotas; e tem que haver uma ilusão, expressa com solenidade e seriedade adequada ao tema, à mais terrível concepção da inteligência humana - uma suspensão ou derrogação particular das imutáveis leis da Natureza, que são a nossa única defesa contra as agressões do caos e dos demônios do espaço insondado.
Em seu ensaio O Horror Sobrenatural na Literatura, considerado uma das primeiras abordagens teóricas e apaixonadas do gênero, Lovecraft mapeia a literatura onde o horror coloca seus dedos, braços ou o corpo todo. De Dante Alighieri à Allan Poe. Começa o texto com as seguintes palavras: A emoção mais forte e mais antiga do homem é o medo, e a espécie mais forte e mais antiga de medo é o medo do desconhecido. Poucos psicólogos contestarão esses fatos, e a sua verdade admitida deve afirmar para sempre a autenticidade e dignidade das narrações fantásticas de horror como forma literária.
Embora tenha se tornado mais conhecido por seus contos de horror, a obra de Lovecraft também é marcada por uma densa produção de literatura fantástica. O livro À Procura de Kadath, que acaba de ser lançado pela Editora Iluminuras, oferece uma generosa dimensão deste universo fantástico.
À Procura de Kadath reúne seis contos todos ambientados na fantasia dos mundos oníricos. Os contos narram personagens obcecados pelo mundo dos sonhos. Personagens abandonam o estado de vigília para viver grandes aventuras no infinito território dos sonhos.
No conto Celephais, o personagem Kuranes procura durante os sonhos encontrar a misteriosa cidade fantástica de Celephais. Cidade esta que esteve prestes a visitar durante os sonhos da juventude. Em idade adulta, Kuranes procura desesperadamente dar continuidade ao sonho em que estaria próximo de ver tal cidade.
Em A Chave de Prata, Randolph Carter, personagem que protagoniza vários contos de Lovecraft, procura encontrar um sentido em sua existência desperta quando apenas a existência onírica possui algum sentido. Sobre as pessoas que fundamentam suas vidas sobre a realidade, acredita que seus sólidos alicerces são tão mutáveis e contraditórios quanto os deuses de seus antepassados, e que a satisfação de um momento é o veneno do próximo. A beleza calma e duradoura só pode vir no sonho e este conforto o mundo descartou quando, em sua adoração do real, desfez-se dos segredos da infância e da inocência.
No conto Através dos Portais da Chave de Prata o mesmo personagem, Carter, encontra uma antiga e simbólica chave de prata que pertenceu aos seus ancestrais. A chave possui o poder de abrir os portais que separam o mundo real do mundo dos sonhos. Durante um sonho ele faz uso da chave e simplesmente deixa de existir no mundo real, transfere-se de corpo e alma para o mundo onírico.
Em À Procura de Kadath, conto que dá título ao livro, novamente Carter empreende a maior aventura que um sonhador já realizou: conhecer a cidade dos deuses do mundo onírico, Kadath. Atravessando vários territórios, seres de outros mundos, situações de perigo e horror, ele segue sua peregrinação por um mundo desconhecido. A força com que Lovecraft descreve cidades e territórios fantásticos, é um de seus méritos.
Nascido em 1890 na pacata cidade de Providence (EUA), Howard Phillips Lovecraft morreu relativamente cedo, aos 47 anos de idade em 1937. Em vida, viu apenas seus escritos publicados em revistas especializadas em literatura e horror e fantástica (pulp magazines). Somente depois de sua morte que um verdadeiro fenômeno de adoração aos seus contos ganharam o mundo.
Sua vida particular resumia-se às quatro paredes de seu quarto. Com a morte do pai na infância, viveu quase toda sua vida na casa da mãe. Viveu um casamento, com uma mulher muito mais velha que ele, durante apenas cinco anos, voltando, em seguida, para a casa da mãe. Depois do falecimento da mãe, passou a morar com duas tias solteironas. Seu maior passatempo era escrever cartas - foram catalogadas em torno de cem mil delas. Era sua forma de dispensar o contato direto com as pessoas em carne e osso. Introvertido, retirado em seu próprio mundo, criou outros fantásticos e impressionantes mundos.


