Andar sobre espinhos representa um risco constante. Nas pontas afiadas, os pés afundam suas carnes, nervos e ossos. Mesmo assim, seguem em frente, respirando dor e acelerando o passo. Buscando uma possibilidade de sobrevivência, o ato de andar semeia mais e mais espinhos em direção ao infinito.
Ler ‘‘Memórias de um Sobrevivente’’, obra que acaba de ser publicada pela Editora Companhia das Letras, é como caminhar sobre espinhos. Pontas afiadas que, no decorrer das páginas, vão perfurando a pele, dilacerando a carne e incomodando os ossos.
O livro foi escrito na cadeia por Luiz Alberto Mendes. Um homem que, aos 49 anos de idade, espera pela liberdade numa cela do Complexo Penitenciário do Carandiru, em São Paulo. Preso aos 19 anos de idade, possui penas que somam quase 100 anos de reclusão. Em três décadas de encarceramento, realizou duas fugas e foi recapturado. Responde por dezenas de assaltos e dois assassinatos.
- - - - ---
‘‘Logo terminou o tempo de visita, nos despedimos, entrei para ser revistado. No pátio, encostei num canto e comecei a chorar. Escondido para ninguém ver. Sentia que minha mãe não confiava mais em mim. Julgava que mentia quando disse que apanhava. E não podia falar que os maiores ali viviam me batendo e que queriam comer minha bunda. Isso seria delatar. Eu já havia introjetado a lei do crime, de modo que era impossível dizer.’’
- - - - ---
Nas quase 500 páginas de ‘‘Memórias de um Sobrevivente’’, Luiz Alberto Mendes narra sua história de vida, sua trajetória criminal e humana. O relato está centrado em sua infância e adolescência, dos sete aos vinte anos de idade, período em que viveu em relativa liberdade. Suas palavras são capazes de provocar mal-estar nos leitores de estômago fraco. Seu relato é pesado, traz as milhares de toneladas de realidade. Uma realidade que está restrita àqueles confinados atrás do desespero.
- - - - ---
‘‘Uma revolta densa ia tomando conta de meu ser. Queria agora ser bandido mesmo. Viver armado para nunca mais me sentir fraco e indefeso. Queria matar policiais, assaltar qualquer um, sem dó ou piedade. Abrir cabeças a coronhadas, dando tiros, cortando em tiras as vítimas. Todos tinham culpa do que eu passara. Todas as pessoas lá fora eram culpadas, e eu ia cobrar caro, ah, se ia! Não tinha dúvidas, eu trucidaria! Mataria a cada um que apenas pensasse em se colocar em meu caminho. Espumava pelos cantos da boca de rancor, de ódio ao expor meus ideais. Sentia-me com o poder de ser cruel ao máximo.’’
- - - - ---
Vivendo na periferia da cidade de São Paulo, Luiz Mendes passou toda a infância apanhando do pai. Surras e mais surras. Trabalhou em várias empresas como office-boy e, em todas elas, realizou pequenos furtos. Com treze anos de idade resolveu fugir de casa para ficar longe da fúria do pai. Tornou-se então menino de rua. Passava o tempo roubando bolsas e carteiras, usando drogas e dormindo em lugares provisórios. Viu vários de seus companheiros serem mortos por grupos de extermínio.
- - - - ---
‘‘Havia uma preocupação que crescia: teria de me definir de uma vez por todas. Não queria largar a chance que eu tinha ainda de viver uma vida normal. Caso saísse da casa de meus pais, a opção estaria feita pelo crime total. E crime, eu sabia, ia redundar em cadeia, sofrimento e desespero. Mas pensava também em tirar a sorte grande. Sonhava milhões e vivia tostões.’’
- - - - ---
Após passar por várias entidades de recuperação de menor, Luiz Mendes foi definitivamente detido. Só seria libertado ao completar 18 anos. Nesse período conheceu o real sofrimento das cadeias e seu relato é amargo e assustador nesse sentido. Era o fim da década de 60 e as cadeiras e centros de recuperação eram pautadas exclusivamente pelo espancamentos e tortura.
- - - - ---
‘‘A sociedade da época, enganada, julgava que estávamos sendo reeducados. Mas estávamos era desenvolvendo, ampliando e trocando nossos conhecimentos relacionados com o crime. Tenho certeza que aqueles que executavam aquele trabalho de nos manter presos, como o juiz de menores, guardas e funcionários públicos, sabiam que não estavam nos reeducando. Isso fica claro pelo fato de que a maioria de nós estava condenada a ali permanecer até completar a maioridade.’’
- - - - ---
Toda vez que era preso, era sumariamente espancado e torturado. Nesses momentos, como outros presos, jurava que nunca mais voltaria ao mundo do crime. Mas, quando era libertado, em poucos dias voltava aos assaltos seduzido por uma vida de aventuras e dinheiro fácil. Essa contradição é bem colocada por Luiz Mendes em toda a extensão de ‘‘Memórias de um Sobrevivente’’. Ele mostra como o lado ‘‘glamouroso’’ do crime seduzia os jovens. A liberdade era um dos principais componente que os empurrava a viver à margem da sociedade.
- - - - ---
‘‘Hoje eu sei que é muito mais fácil suportar um surra geral do que sofrer tortura. Dói mais fisicamente, mas é muito menos danoso no nível psicológico. Quando judiavam muito de um de nós, vigiavam-no para não lhe dar chances de denunciar. Quando as marcas eram muitas, colocavam-no no castigo, na cela-forte da triagem, para escondê-lo da família. Depois, quando sumiam as marcas, procuravam dar doces, balas, cigarros para comprar a vítima. E, por incrível que pareça, éramos tão carentes que aceitávamos o suborno.’’
- - - - ---
Com o tempo, Luiz Mendes passou a integrar várias quadrilha. Utilizando um carro roubado, passava dias e noites assaltando lojas e postos de gasolinas. Num desse roubos, matou um vigia que reagiu ao assalto. Acabou sendo preso durante tiroteio com a polícia. Torturado, quase morreu de tanta porrada. Confinado na Casa de Detenção, precisou matar um outro preso. Foi a única saída que encontrou para não se tornar ‘‘mulherzinha’’ da vítima.
- - - - ---
‘‘Se precisássemos de alguma coisa que nos beneficiasse realmente, era difícil de conseguir. Mas se procurássemos uma faca para matar alguém, apareciam várias. Quase todos gostavam de ver o circo pegando fogo. Quando ocorria um crime, a cadeia se agitava, o comentário era geral, havia movimentação, ação. E era disso que quase todos gostavam: de sair a qualquer preço da rotina massacrante que nos era imposta.’’
- - - - ---
‘‘Memórias de um Sobrevivente’’ pode ser considerado um complemento de ‘‘Estação Carandiru’’ (Companhia das Letras, 1998), obra do médico Drauzio Varella. Se em ‘‘Estação Carandiru’’ Varella oferece uma visão externa do sistema penitenciário através de uma ótica de um visitante, Memórias de um Sobrevivente oferece um visão interna. A do sistema penitenciário e o mundo do crime através da ótica de um detento, de um bandido – alguém que sofreu na própria pele o crime e sua punição.
- - - - ---
‘‘Considerava a estrutura da sociedade parecida com a da prisão. Uns poucos dominavam, concentrando poderes e gozando dos privilégios. Na prisão, a maioria cumpria suas penas dificultosa e sofridamente. Com a vantagem sobre a sociedade de que na prisão havia pelo menos o mínimo necessária para cada um: a comida (por pior que fosse), o teto e o uniforme. Os ricos, para mim, por serem donos de tudo, eram também responsáveis pelo meu sofrimento, pois eram eles que comandavam a polícia, o dinheiro e a justiça. Haveriam de pagar cada gota do meu sofrimento. Ah, se pagariam! Sem dúvidas!’’
- - - - ---
Na cadeia Luiz Mendes conheceu algo que transformou sua vida: a literatura. Alguns livros caíram em suas mãos e ele se dedicou com afinco à leitura. Praticamente nunca tinha lido um livro na vida e em pouco tempo a leitura tornou-se um vício. Começou com romances, passou pela poesia e ao final caiu na filosofia. Lentamente foi ampliando seu vocabulário e entrando em textos mais complexos. Passava seu tempo atrás das grades devorando páginas e páginas. Esse processo provocou uma pequena revolução em sua maneira de encarar a vida.
- - - - ---
‘‘Todos os meus parâmetros eram de prisão. Em tudo eu pensava apenas como um preso. Estava condicionado a me defender sempre, em qualquer tempo. Sentia que o mundo e as pessoas só me prejudicaram e fizeram sofrer. Não era bem assim, mas era assim que eu via, destacava apenas o que me ferira, valorizava apenas o meu sofrimento, que se fodesse os dos outros. Imaginava não conhecer bondade nem amor. Amor para mim era sexo. Estava preparado apenas para defender e resistir. Se me dessem uma chance, revidar como extrema violência, para matar, se facilitassem. Procedia e pensava como um sobrevivente de alguma guerra.’’
- - - - ---
Há quatro anos Luiz Mendes dá aulas para outro detentos na Casa de Detenção de São Paulo, onde cumpre pena. Durante uma oficina literária ministrada pelo escritor e jornalista Fernando Bonassi, teve coragem de mostrar seus escritos, entre eles estava ‘‘Memória de um Sobrevivente’’. Não imaginava que o livro fosse publicado um dia. Agora pode ser encontrado nas livrarias um relato dolorido que levou o autor a uma transformação – converteu seu passado em literatura e acertou as contas com ele.
- - - - ---
‘‘Cada coisa tinha um valor diferente para mim, cada detalhe era muito importante. Sair da prisão era meio louco. Como se houvéssemos sido sufocados com um travesseiro, e quando a agonia da morte chegasse, retirassem o travesseiro. Tudo ficava vermelho e superiluminado, quase em um nível insuportável. Uma sensação de bom e belo, todo o tempo, bem dentro da gente. É o mundo que nos aparece de repente, nos enlouquecendo de alegria, de tanta alegria.’’
• Memória de um Sobrevivente - De Luiz Alberto Mendes, Editora Companhia das Letras, apresentação de Fernando Bonassi, 480 páginas, R$ 31,00.

mockup