O inferno de Luciano
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 28 de março de 1997
Ranulfo Pedreiro 
Warren NabucoHenrique Murachco: Toda grande universidade
precisa de um curso de GregoEnquanto gargalha e satiriza seus companheiros de infortúnio, o grego Menipo é conduzido por Hermes até Caronte, o deus encarregado de levar numa canoa as almas que devem habitar o reino dos mortos - Hades. Cada defunto deve carregar consigo uma pequena quantia em dinheiro para pagar a viagem.
Menipo, desprevenido, desembarca no inferno dando um calote no canoeiro imortal. Surpreso, Caronte exige o recebimento pela travessia. Mas Menipo responde que não possui dinheiro, morreu sem um tostão, o que fazer? Não morrer por estar duro? Na insistente cobrança de Caronte, Menipo conclui: Então leva-me de volta à vida.
O personagem Menipo é, em O Diálogo dos Mortos, uma espécie de alter ego do autor, o filósofo Luciano. Nascido em Samósata, no norte da Síria, por volta dos anos 115 a 120, Luciano estudou advocacia, retórica e filosofia, e desenvolveu um estilo ácido mesclando o diálogo - fórmula que já estava relativamente desgastada - com uma ironia implacável. Desta forma o escritor criticou profundamente a cultura grega, desde o seu apogeu até o declínio. Seu estilo influenciou Voltaire, Thomas More, Swift, Bacon e Machado de Assis.
É só ler a obra machadiana para perceber uma grande influência de Luciano. O Barão de Munchausen, por exemplo, tem passagens que parecem extraídas de textos do filósofo, comenta Henrique Murachco - professor de grego da Universidade de São Paulo (USP), estudioso da cultura grega e tradutor há mais de 30 anos - responsável pela primeira versão de Luciano direto do grego clássico para o português: O Diálogo dos Mortos, livro lançado no final do ano passado pela Editora da USP.
A ironia de Luciano contida nos Diálogos é contundente. Uma vez no reino dos mortos, Menipo passa a atormentar a todos com suas lembranças. Como no Hades todos são caveiras e estão desprovidos de posses, Menipo se diverte atingindo pontos fracos. Para os que eram ricos, fala sobre riquezas. Para quem era belo, comenta sobre a falta de estética dos esqueletos. Aos que têm medo de entrar no mundo dos mortos, ele questiona a coragem extinta. Assim, os grandes heróis gregos desfilam nos diálogos sendo ridicularizados por Menipo, que gargalha e canta enquanto todos se lamuriam.
Mas Menipo não está presente em todos os diálogos. Em alguns textos são os grandes personagens da Grécia que destilam veneno e revelam seus defeitos e temores. Os que se dispõem a gestos nobres são meras exceções.
O livro reflete o período vivido por Luciano. Na introdução de Diálogo dos Mortos o tradutor esclarece a efervescência cultural de uma época que voltava a cultuar a literatura grega - que no período era moda entre as classes altas - em detrimento da latina. A arte da retórica estava em voga, provocando debates e dicussões entre estudiosos que manipulavam argumentos com habilidade, em detrimento de seus opositores.
A intenção das escolas de retórica da época era embasar seus alunos com uma técnica de argumentação que lhes permitissem debater e responder de forma convincente qualquer atitude ou decisão que tomassem na vida.
Os retóricos, escritores e pensadores mergulharam no estilo ático - que buscava elegância e sobriedade do dialeto da região da Ática que deu embasamento à língua grega. Este estilo, associado às escolas de retórica, deu origem a um cenário cultural conhecido como II Sofística.
Neste ambiente, Luciano escreveu histórias fantásticas que foram muito populares, rendendo-lhe fortuna e reconhecimento. Mas o escritor se cansou desta temática relativamente fútil, passando a utilizar os diálogos para estabelecer uma obra que considerava mais consistente.
Cultura gregaMurachco revela que se esforçou para fazer a tradução sem macular o texto original. Para isso optou por recursos que facilitam a leitura, como notas explicativas inseridas no final de cada diálogo. O recurso torna o livro digerível até para quem não entende patavina de mitologia grega.
Mas a tradução e a publicação bilingue, além de trazerem à tona o texto ácido de Luciano - escritor pouco familiar aos leitores brasileiros -, revelam um segundo objetivo: a divulgação do ensino da língua grega. A cultura grega é a base de toda a cultura ocidental, por isso é importante o aprendizado da língua, para que os textos sejam lidos no original, como faziam os estudiosos tempos atrás, explica Murachco.
Com tranquilidade, o professor comenta que grego não é difícil: A escrita assusta no começo, mas já na primeira aula o aluno sai alfabetizado. E em um ano ele já pode ler os clássicos no original. O importante é ensinar a língua, o conteúdo, e não se prender a detalhes e regras gramaticais, como fazem os professores de português nas escolas brasileiras. E setencia: Toda grande universidade precisa de um curso de grego.
Durante os 30 anos que lecionou, Henrique Murachco sistematizou uma nova maneira de ensinar o grego. O professor está reunindo este conteúdo em uma obra que traz uma nova interpretação do ensino de línguas, driblando a gramática e deixando-a de fora do processo inicial de aprendizado. Enquanto ele mergulha em suas revisões e traduções, O Diálogo dos Mortos é recebido com festa pelos acadêmicos e pela crítica.


