O inferno da sobrevivência
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 03 de outubro de 2000
Marcos Losnak De Londrina Especial para a Folha2 
Na entrada do Inferno da Divina Comédia, Dante Alighieri (1265 - 1321) deixou registrado um recado claro a todos aqueles que entrassem naquele território: deveriam deixar para trás toda e qualquer esperança.
Muito séculos se passaram e o aviso de Dante continua carregado de alguns quilos de verdade. Nos dias de hoje, quando alguém atravessa o portal do Inferno da sobrevivência, a esperança permanece do lado de fora. Talvez até exista uma espécie de guarda volume, onde cada homem deposita suas esperanças para que, se conseguir sair vivo, possa reconquistar a esperança perdida.
Em seu novo romance que chega essa semana nas livrarias, a escritora paulista Patrícia Melo restaura o inferno utilizando como instrumentos básicos o caos social e urbano brasileiro. A decoração do espaço fumegante fica por conta da violência, uma das filhas do caos com a miséria.
Lançado pela Editora Companhia das Letras, o romance Inferno narra a história do garoto Zé Luiz, habitante da favela do Berimbau situada num dos morros da cidade do Rio de Janeiro. Mais conhecido como Reizinho, o menino se tornará um poderoso chefe do tráfico de drogas da região.
A trajetória do personagem é a mesma de centenas de garotos das favelas do Rio. Reside numa pequena casa do morro com a mãe, que trabalha como empregada doméstica, e a irmã, viciada em todas as novelas da televisão. O pai, abandonou a família, com as crianças ainda pequenas, para se dedicar ao alcoolismo.
Ainda pequeno, Reizinho perambulava pelas ruas da cidade realizando pequenos furtos, fumando crack e admirando a vida heróica dos traficantes dos morros. Logo em seu primeiro emprego de office-boy ganhando salário mínimo, percebe a discrepância social onde ele será eternamente parte do exército dos excluídos.
Aos onze anos entra para o tráfico. Com dedicação e abandonando o uso de drogas, realiza um vertiginosa ascensão na hierarquia do mundo do crime. Em poucos anos torna-se o chefe do morro, fazendo alianças, assassinando os traidores e pagando propina aos policiais. Acima de tudo, torna-se um traficante que promove o bem dos habitantes da favela, ocupando uma função que deveria ser realizada pelos governantes políticos.
A idéia parte de um de seus amigos, Leitor, o braço direito intelectual de Zé Luiz. A prática era simples: O ritual se repetia toda segunda-feira. Antes mesmo de chegar no escritório, já havia fila de moradores esperando fazer a sua reclamação. A idéia fora de Leitor. Precisamos amparar o morador do morro, dissera, quando Zé Luiz tomou o poder. Só há uma maneira da polícia não encher o nosso saco. Fazemos o serviço sujo para eles. Vigiamos, fazemos a lei, damos porrada, justiça, matamos os safados, instalamos a ordem. Em português bem claro, temos que resolver os problemas dos moradores nós mesmos.
Em Inferno, Patrícia Melo utiliza uma linguagem diferente de seus romances anteriores como Acqua Toffana (1994) O Matador (1995) e Elogio da Mentira (1998). Acentuando o uso do ponto final, interjeição, onomatopéia e diálogos internos, constrói uma ágil linguagem correspondente à velocidade do caos e do contexto da narrativa apresentada. Com o objetivo de reproduzir dentro da narrativa o universo do cotidiano do morro, a autora chega a realizar pequenos exageros que, por suas dimensões, não comprometem a obra como um todo.
Inferno possui a estrutura características dos romances que conquista um grande leque de leitores. Além de abarcar uma ampla fauna de personagens, focaliza relações e sentimentos universais da humanidade num contexto contemporâneo determinado, social e geográfico. Não se propõe a realizar um profundo retrato do universo que aborda, mas algo mais simples: literatura. Para isso faz uso de referências do arquivo do censo comum que encontram correspondência nas informações veiculadas pela imprensa.
Patrícia Melo faz com que o personagem principal, bem como a grande maioria dos personagens do livro, cumpra seu destino como se estivesse percorrendo o inferno. Na realidade não há outra opção. Toda e qualquer alternativa dá origem há um novo inferno. Em poucas palavras, ele nunca conseguirá sair de sua condição, seja por livre e espontânea vontade ou por imposição. O destino é um inferno.
Inferno de Patrícia Melo, Editora Companhia das Letras, 368 páginas, R$ 29,00.


