Na entrada do Inferno da ‘‘Divina Comédia’’, Dante Alighieri (1265 - 1321) deixou registrado um recado claro a todos aqueles que entrassem naquele território: deveriam deixar para trás toda e qualquer esperança.
Muito séculos se passaram e o aviso de Dante continua carregado de alguns quilos de verdade. Nos dias de hoje, quando alguém atravessa o portal do Inferno da sobrevivência, a esperança permanece do lado de fora. Talvez até exista uma espécie de ‘‘guarda volume’’, onde cada homem deposita suas esperanças para que, se conseguir sair vivo, possa reconquistar a esperança perdida.
Em seu novo romance que chega essa semana nas livrarias, a escritora paulista Patrícia Melo restaura o inferno utilizando como instrumentos básicos o caos social e urbano brasileiro. A decoração do espaço fumegante fica por conta da violência, uma das filhas do caos com a miséria.
Lançado pela Editora Companhia das Letras, o romance ‘‘Inferno’’ narra a história do garoto Zé Luiz, habitante da favela do Berimbau situada num dos morros da cidade do Rio de Janeiro. Mais conhecido como Reizinho, o menino se tornará um poderoso chefe do tráfico de drogas da região.
A trajetória do personagem é a mesma de centenas de garotos das favelas do Rio. Reside numa pequena casa do morro com a mãe, que trabalha como empregada doméstica, e a irmã, viciada em todas as novelas da televisão. O pai, abandonou a família, com as crianças ainda pequenas, para se dedicar ao alcoolismo.
Ainda pequeno, Reizinho perambulava pelas ruas da cidade realizando pequenos furtos, fumando crack e admirando a vida heróica dos traficantes dos morros. Logo em seu primeiro emprego de office-boy ganhando salário mínimo, percebe a discrepância social onde ele será eternamente parte do exército dos excluídos.
Aos onze anos entra para o tráfico. Com dedicação e abandonando o uso de drogas, realiza um vertiginosa ascensão na hierarquia do mundo do crime. Em poucos anos torna-se o chefe do morro, fazendo alianças, assassinando os traidores e pagando propina aos policiais. Acima de tudo, torna-se um traficante que promove o bem dos habitantes da favela, ocupando uma função que deveria ser realizada pelos governantes políticos.
A idéia parte de um de seus amigos, Leitor, o braço direito intelectual de Zé Luiz. A prática era simples: ‘‘O ritual se repetia toda segunda-feira. Antes mesmo de chegar no escritório, já havia fila de moradores esperando fazer a sua reclamação. A idéia fora de Leitor. Precisamos amparar o morador do morro, dissera, quando Zé Luiz tomou o poder. Só há uma maneira da polícia não encher o nosso saco. Fazemos o serviço sujo para eles. Vigiamos, fazemos a lei, damos porrada, justiça, matamos os safados, instalamos a ordem. Em português bem claro, temos que resolver os problemas dos moradores nós mesmos.’’
Em ‘‘Inferno’’, Patrícia Melo utiliza uma linguagem diferente de seus romances anteriores como ‘‘Acqua Toffana’’ (1994) ‘‘O Matador’’ (1995) e ‘‘Elogio da Mentira’’ (1998). Acentuando o uso do ponto final, interjeição, onomatopéia e diálogos internos, constrói uma ágil linguagem correspondente à velocidade do caos e do contexto da narrativa apresentada. Com o objetivo de reproduzir dentro da narrativa o universo do cotidiano do morro, a autora chega a realizar pequenos exageros que, por suas dimensões, não comprometem a obra como um todo.
‘‘Inferno’’ possui a estrutura características dos romances que conquista um grande leque de leitores. Além de abarcar uma ampla fauna de personagens, focaliza relações e sentimentos universais da humanidade num contexto contemporâneo determinado, social e geográfico. Não se propõe a realizar um profundo retrato do universo que aborda, mas algo mais simples: literatura. Para isso faz uso de referências do arquivo do censo comum que encontram correspondência nas informações veiculadas pela imprensa.
Patrícia Melo faz com que o personagem principal, bem como a grande maioria dos personagens do livro, cumpra seu destino como se estivesse percorrendo o inferno. Na realidade não há outra opção. Toda e qualquer alternativa dá origem há um novo inferno. Em poucas palavras, ele nunca conseguirá sair de sua condição, seja por livre e espontânea vontade ou por imposição. O destino é um inferno.
‘‘Inferno’’ de Patrícia Melo, Editora Companhia das Letras, 368 páginas, R$ 29,00.

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