O inegável sofisma de ''Três é demais''
LONGA-METRAGEM
O inegável sofisma de
Três é demais
Paulo Polzonoff JrTrês é Demais (Rushmore, 1999) é uma comédia que o induz ao erro. Isto porque seu enredo é quase primário, girando em torno de um triângulo amoroso entre Max Fischer (numa brilhante atuação de Jason Schwartzman), um garoto de 15 anos que estuda na prestigiosa escola de Rushmore, graças a uma bolsa de estudos que ganhou ao escrever uma peça de teatro, Herman Blume (Bill Murray), um industrial milionário e ex-estudante da mesma escola e Rosemary Cross (Olivia Williams), uma especialista em política latino-americana, graduada em Harvard, mas que dá aulas para crianças. Há milhões de triângulos amorosos no cinema, em qualquer gênero que se veja. Mas este é especial porque estão em seus vértices três crianças. E a mais madura delas é o adolescente Max Fischer.
Max Fischer não é um garoto burro; tampouco é um gênio. Simplesmente gasta todo seu potencial em coisas consideradas inúteis, como dirigir as peças de teatro do colégio e presidir o Clube de Apicultores, e por isso acaba sendo tachado de incompetente pelos seus inocentes professores. Quanta ingenuidade, homens do saber! Max Fischer é, isto sim, um homem já, e o roteirista e diretor Wes Anderson moldou-o de maneira a transformá-lo numa versão anos 90 do artista incompreendido. Não resta dúvidas ao espectador que Max, num futuro pós-tela, há de ser um grande dramaturgo. Isto porque ele traz enraizado, desde cedo, a essência do homem. Parafraseando Freud (e já pedindo desculpas pelo pedantismo) o personagem Max encarna o dito de que a criança é o pai do homem.
Como contraponto à precocidade de Max, Wes Anderson usa Herman. Ex-aluno de Rushmore e milionário, ele vira padrinho do amor platônico entre Max e a professora Rosemary, mas acaba por ela se apaixonando. Ao mesmo tempo em que Max externa seu amor de modo maduro, usando de subterfúgios de gente grande para conquistá-la, Herman é o garotinho que se esconde atrás da árvore a fim de espiar a pretendente.
No meio destes dois meninos-homens Rosemary, atormentada com a morte do marido, com os galanteios de Herman e com a paixão edipiana de Max, age com a natural inocência das meninas da quarta série.
Três é demais é uma comédia em que as crianças falam e agem como adultos, e na qual os adultos quase sempre agem como crianças. Para alguns, não passará de matinê, breve em cartaz na Sessão da Tarde. Depois não digam que não avisei que se tratava de um filme cujo conteúdo induz ao erro os mais desatentos.
Mario Assisto também a Mario, filme nacional estrelado por Jairo Matos e dirigido por Hermano Penna. O que dizer? Em duas palavras: cruz credo!





