O indiscreto charme de Robert Altman
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quinta-feira, 07 de março de 2002
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br>Especial para a Folha 2 
Espécie de santo padroeiro do movimento indie norte-americano (o cinema independente) que nas duas últimas décadas sacudiu os alicerces jurássicos de Hollywood, o sempre jovial veterano Robert Altman, aos 76 anos, assina em Assassinato em Gosford Park outra de suas finíssimas e incômodas peças destinadas a fustigar a classe dominante e respectivos privilégios sociais, seja ela representada pela aristocracia inglesa, como neste caso, seja a selva hollywoodiana dissecada em O Jogador. Em circunstâncias normais, ele seria o dono do Oscar de direção, mas com a Academia nunca se sabe.
Correm os anos da Grande Depressão. Neste período de decadência entre as duas grandes guerras, é o momento de aumentar impostos. E em 1932 já é anacrônica a existência paralela dos universos sociais que afloram em Assassinato em Gosfort Park. Na residência inglesa que dá título ao filme, Sir William McCordle (Michael Gambon) e sua esposa Sylvia (Kristin Scott Thomas) recebem um grupo de parentes, amigos e alguns convidados mais ou menos exóticos, como o ídolo de matinês Ivor Novello e o produtor de cinema norte-americano Morris Weissman, que pretende colher subsídios para retratar os hábitos da classe dominante em sua próxima realização. Entre as quase três dezenas desses transeuntes sociais se destaca Constance, condessa de Trentham, anciã esnobe que proporciona à notável Maggie Smith alguns dos momentos mais divertidos do filme.
O melhor da intriga: como cada um dos socialites tem à cotê um serviçal próprio, existe um outro segmento que habita os pisos inferiores, literal e metaforicamente. Entre eles também há hierarquia, e quem comanda este substrato são o mordomo Jennings - que necessariamente pode não ser o assassino...-, a governanta Mrs. Wilson, a cozinheira-chefe Croft e a criada Elsie, respectivamente entregues sob medida a Alan Bates, Helen Mirren, Eileen Atkins e Emily Watson.
Sexo, dinheiro e poder. Cada setor deixa transparecer uma relação de casta e de mando. Empregados imitam patrões, e uns e outros escamoteiam segredos, reciclam antigos ressentimentos, estabelecem cumplicidades. E como para a grande maioria dos presentes Sir William é um ser ignóbil, em geral com péssimo comportamento, determinada noite alguém enterra nele uma faca. Ou seria morte por envenenamento? Esta ambiguidade de meios tem tudo a ver com a fórmula clássica da narrrativa do policial inglês, aqui temperada com as habituais e ácidas sutilezas de Altman e de seu roteirista Julian Fellowes - nada improvável que uma referência de cabeceira de ambos seja O Discreto Charme da Burguesia, a obra-prima que Luis Buñuel realizou há 30 anos em cumplice parceria com Jean-Claude CarriSre. Metodologia diversa, resultados muito próximos.
Ironicamente fiel aos pressupostos do gênero que sacramentou as regras do mistério através da clássica pergunta quem é o culpado, o filme somente vai satisfazer a curiosidade do público nos ultimos momentos de seus 137 minutos. Antes disso, porém, o espectador tomará parte de uma investigação acurada em torno não de um assassinato, de resto puramente circunstancial, mas de um amplo painel sociológico envolvendo classes e privilégios. Como em Nashville, Cerimônia de Casamento e Cenas da Vida, Altman retoma sua vertente favorita, a estrutura coral-operística, neste caso com 26 personagens principais e ao mesmo tempo periféricos - há, no entanto, tempo e espaço para pequenos e inesquecíveis solos. Para quem tem curiosidade ou dúvidas sobre como deve ser o ofício de diretor, Gosford Park é aula personalíssima, ministrada com raro brilho.


