São Paulo, 01 - A vida no lado escuro do mundo é perturbadora como um eclipse. Antonioni já fez um clássico sobre a experiência existencial crepuscular, mas até mesmo um clássico pode esbarrar na alegoria. Já o modesto "Judy Berlin", em cartaz no CineSesc só ate amanhã, do diretor Eric Mendelsohn, recusa a paródia em nome da realidade. Praticamente o filme inteiro, em preto-e-branco, se passa durante um eclipse solar num subúrbio nova-iorquino.
A uma certa altura de "Judy Berlin", dois subproletários urbanos, reconhecendo na rua escura o antigo colega de escola que virou cineasta, sugerem que ele realize um filme sobre personagens eclipsados pela história - ou seja, eles mesmos. Sua resposta: o eclipse, meninos, é real, não uma metáfora.
Ao mesmo tempo esboço de retrato social e auto-retrato, o comentário sugere uma conclusão desfavorável para quem já nasce condenado à mais completa obscuridade. O mundo é um jogo de cartas marcadas sem lugar para pactos sociais. O cineasta frustrado, obrigado a voltar ao subúrbio após uma fracassada tentativa em Hollywood, encontra outra antiga colega de escola num ponto de ônibus.
Judy Berlin quer ser atriz e tentar a sorte na terra de Sharon Stone. Sem a mínima chance. Não é particularmente dotada ou mesmo bonita. O cineasta olha para a pobre Judy e já consegue ver a patética e derrotada figura voltando para Babylon, o subúrbio de nome apocalíptico. Zona obscura - A essa altura não é preciso dizer que "Judy Berlin" é uma produção independente e de limitados recursos. Seu fascínio está justamente no modo como o cineasta Eric Mendelsohn conduz o avanço do eclipse solar para a zona mais obscura da criação, contrapondo natureza e cultura. Passarinhos não deixam de cantar nas árvores porque anoiteceu ao meio-dia, mas o eclipse causa de tal forma uma transformação no homem que se rompe o tênue fio entre loucura e sanidade. Perde-se a noção do tempo e com ela também um pouco da lógica.
Ao escolher como personagem central uma alienada atriz de comerciais fantasiosos, em que Judy posa de rainha do lar, Mendelsohn resume a questão, mas há ainda duas outras "eclipsadas" personagens que se movem no território do indiferenciado, na arena onde o logos (o sol, a luz) enfrenta o irracional (a escuridão). Uma é a aposentada professora que perde gradativamente a memória. Outra é a dominadora mulher do diretor da escola, a engraçada Madeline Kahn dos filmes de Mel Brooks.
É dela o melhor monólogo do filme, que traduz a perplexidade humana diante de um fenômeno "natural" como o eclipse. Se o dia vira noite sem o "consentimento" da lógica que inventou os números e o calendário, então estamos irremediavelmente perdidos. Mendelsohn faz Madeleine vagar pelas ruas desertas de Babylon imitando uma alienígena, entrando na casa de uma vizinha com a qual brigou e sucumbindo à síndrome resnaisiana de Marienbad, ao recusar a memória do confronto.
O diretor acentua o tom ilusionista do eclipse com uma trilha de caixinha de música, brincando com a fantasia cinematográfica por meio de um feliz metacomentário. Sobrenatural - No fundo, parece bem clara sua intenção de mostrar que esse artificialismo cinematográfico, forjador inclusive de um eclipse, pode assumir uma dimensão sobrenatural quando o logos perde a luta para as trevas. Essa não era uma questão para o homem ancestral, naturalmente, até mesmo porque não existia nada de natural para ele. Tudo era sobrenatural no mundo primitivo.
Por feliz coincidência, o filme de Mendelsohn é precedido por um curta gaúcho, "Três Minutos", de Ana Luiza Azevedo, que trata também de uma figura socialmente eclipsada - no caso, a mulher de um mágico de circo mambembe. A luz crepuscular assume, no filme brasileiro, o mesmo papel do eclipse no longa americano, definindo o destino dessa mulher ansiosa não por uma vida nômade a aventureira, mas sedentária e segura.
A imagem de um trailer no descampado, a figura de Mandrake pintada na lataria e a voz do mágico na secretária eletrônica, dizendo que nem mesmo ele pode estar em todos os lugares ao mesmo tempo, sugerem uma aproximação com o imaginário felliniano. De novo, uma coincidência. Também "Judy Berlin" conserva algo dessa herança. Em "Os Boas-Vidas", Fellini fala de párias de uma cidade litorânea, sem perspectiva. Só um consegue escapar dessa vida medíocre (Fellini, que realmente fugiu de Rimini). Mendelsohn, numa homenagem (consciente ou não) ao cineasta italiano, também deixa escapar um dos seus. Fuga do real - No curta brasileiro, as possibilidades de fuga são menores. Correspondem à realidade do degredo, da exclusão social, do apartheid financeiro que transformou o País num imenso campo minado. "Três Minutos" representa mais do que um drama particular. É um painel sociológico feito com muita imaginação, sensibilidade e um cuidado raro de produção (a cargo de Fiapo Barth). Em ambos os casos, o brasileiro e o americano, a vida fora do circuito representa, no entanto, uma esperança: a de que o futuro depende não só de mobilização social, mas da uma necessidade subjetiva de mudança.