O incomparável Bixiga
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segunda-feira, 20 de novembro de 2000
Da Redação 
São Paulo recebe cerca de 1 milhão de visitantes por semana, a maioria vai a negócios. Mesmo assim, entre uma reunião e outra, vale a pena reservar um tempo e circular pelo mais antigo bairro boêmio do País, dividindo-se entre a arte dos palcos, do bem-viver e do bem-comer.
Um dos maiores centros de turismo de negócios do mundo, a capital paulista tem entre seus pontos fortes incontáveis opções culturais e gastronômicas. Na região central da cidade, bem próximo aos principais hotéis, está um dos maiores símbolos do caldeirão cultural: o incomparável Bixiga, ou Bela Vista, um bairro que, além de dois nomes, possui duas personalidades. De um lado, estão os antigos moradores descendentes de italianos. De outro, os boêmios, que à noite esquentam as dezenas de bares, cantinas e teatros. É difícil calcular o que existe em maior quantidade, se restaurantes italianos ou teatros. Ambos desenvolveram-se ali como em nenhuma outra região da cidade.
Segundo alguns historiadores, a origem da aura boêmia que tomou conta do bairro vem dos italianos, que a partir de 1882 começaram a ocupar os loteamentos humildes vizinhos à aristocrática Avenida Paulista.
Ao contrário de outros estrangeiros que trabalhavam como operários ou lavradores, os italianos eram normalmente artesãos, sem vínculo empregatício. Não gostavam de ter patrão, eram conservadores, patriarcais e apreciadores da boa mesa. Aos poucos, a região foi ocupada pelos casarões compridos e de fachadas estreitas, onde morava não uma família, mas várias.
Antes da chegada dos italianos, comer fora de casa era coisa para viajantes. Enquanto sírios, árabes e japoneses mal começavam a pisar no Brasil, os alegres e barulhentos italianos abriam as primeiras cantinas no Bixiga, no início do século XX. A princípio, não passavam de armazéns onde os homens reuniam-se após o trabalho, para comer, beber vinho, cantar e jogar cartas. A comida vinha de casa, preparada pelas mulheres.
A partir daí, o Bixiga abriu-se aos poucos para os forasteiros. Nos anos 30, a região já possuía uma vida noturna ativa, com música, cantinas, serestas, dança e até um cordão, que depois viria a se transformar num dos orgulhos locais, a hoje famosa escola de samba Vai-Vai.
Na década de 40, com sua aura de liberdade e alegria, o Bixiga transformou-se em ponto de boêmios, músicos e artistas. O músico Adoniran Barbosa foi um produto típico da região. A história do teatro profissional no Brasil também nasceu no Bixiga, com a inauguração, em 1948, do Teatro Brasileiro de Comédia, TBC.
Hoje, ainda estão na região os teatros Sérgio Cardoso, Ruth Escobar, Oficina, Nelson Rodrigues, Bibi Ferreira, Imprensa, Maria Della Costa, Joffre Soares, Ziembinski e Ópera, entre outros. Por isso, um dos apelidos recebidos pelo circuito boêmio é Broadway paulistana.


