A briga, já se sabe há algum tempo, envolve contendores respeitáveis, pesos-pesados do entretenimento audiovisual infanto-juvenil. De um lado o emergente - nenhuma conotação pejorativa - grupo DreamWorks, com a chancela Steven Spielberg a desequilibrar a balança. De outro, a grife Walt Disney Pictures, de permanente e comprovada tradição no mercado há cerca de oito décadas. Há mais ou menos um ano cancelado (por incompetência) o ambicioso projeto de animação da Fox, a DreamWorks entrou de punhos cerrados buscando cada vez maior rentabilidade neste segmento que deve gerar anualmente, entre bilheteria e marketing direto e indireto, algumas centenas de milhões de dólares. O mais recente round nesta disputa que nenhuma das partes assume publicamente está em pleno andamento simultaneo em muitos países. A DreamWorks saiu na frente no fim de maio com o ótimo ‘‘Shrek’’, que já fez quase 230 milhões de dólares em cinco semanas. Como resposta ‘‘desinteressada’’, o pessoal da Disney está lançando ‘‘Atlantis,o Reino Perdido’’ (veja a programação de cinema na página 5), uma animação de técnica mista quase tão bom quanto o oponente, inteiramente computadorizado.
Combinando desenhos e animação via computador, fórmula de resto já praticada com êxito pelo clã Disney na confecção dos longas da última década (‘‘O Rei Leão’’, ‘‘A Bela e a Fera’’, ‘‘Tarzan’’, ‘‘O Corcunda de Notre Dame’’), ‘‘Atlantis, o Reino Perdido’’ é um filme que aproveita com inteligência um roteiro que tem tudo a ver com o melhor das histórias em quadrinhos - sem ser baseado em nenhuma delas, mas com a assessoria de um especialista.
A Atlântida sobrevive ainda hoje na mitologia popular como uma espécie de
semi-paraíso, aquele reino de maravilhas utópicas quase à imagem e semelhança do Jardim do Éden. Mas um Éden capaz de gerar uma população por sua vez geradora de uma verdadeira usina de conhecimento, antes de sucumbir sob o peso da cobiça e da ambição. Vocês sabem, aqueles elementos fascinantes e irresistíveis para as fantasiosas mentes disneyanas. ‘‘Atlantis, o Reino Perdido’’ é um irrecusável convite para um movimentado passeio dentro dos limites irrestritos das mitologias.
Ambientado nos primórdios do século 20, o filme narra a grande aventura do aprendiz de Indiana Jones, o jovem cientista Milo. Acompanhado por especialistas nas mais variadas áreas do conhecimento humano, ele sai em busca do sonho de encontrar a civilização que floresceu há milhares de anos e que acabou submersa por uma onda gigantesca. A bordo de um submarino de última geração, é claro que ele irá encontrar o império submarino, com direito a segredos, à misteriosa força motriz e aos perigos.
Ser antiquado costuma ter suas vantagens. ‘‘Atlantis, o Reino Perdido’’ funciona muito mais se apreciado como os melhores momentos da animação Disney de 20 anos atrás. A linha da narrativa e os personagens são decididamente retrô, lembrando ainda as aventuras em carne e osso ainda mais antigas, anos 50 e 60, como ‘‘20 Mil Léguas Submarinas’’, ‘‘A Cidadela dos Robinson’’. E mesmo o formato Cinemascope (wide-screen), raramente utilizado em animação, acentua esta sensação de volta ao passado. Os co-diretores Gary Trousdale e Kirk Wise, que compartilham a paixão pelo trabalho do autor de quadrinhos Mike Mignola, não apenas perguntaram se ele ajudaria a fazer o desenho de produção do filme, mas também decidiram dar ao filme uma formatação pictórica como se fosse uma história em quadrinhos de tamanho gigante. O resultado, mais que curioso, é de muito boa qualidade.
A favor do resultado harmonioso também trabalha a concepção visual da mítica civilização de Atântida, que Platão tão bem descreveu como ‘‘desaparecida nas profundezas do oceano’’. Os artistas da casa Disney consideraram uma profusão de detalhes visuais e construiram sets imaginários recheados de elementos históricos e filosóficos. E felizmente contrariando uma tendencia dominante na estrutura ‘‘animada’’ Disney, nada aqui é pontuado por numeros musicais cantados ou coreografias, até funcionais em outros contextos.
Enfim, um Disney de boa safra, sem nenhum motivo para temer a audaciosa investida de ‘‘Shrek’’. A garotada, animadíssima, agradece os dois presentes para as férias.

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