O império das sequelas
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 12 de junho de 2003
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha 2 
Basta uma rápida olhada pelos títulos já em exibição e em lançamento para confirmar a invasão dos filmes com o apêndice ''2'', mesmo que este número atenda pelo providencial eufemismo ''Reloaded''. E as férias iminentes vão literalmente recarregar o segmento estarão de volta ''Exterminador do Futuro'' e ''Lara Croft'', terceira e segunda edições, respectivamente. A indústria hollywoodiana mais pesada não vacila e detona ruidosamente as bilheterias, com resultados cada vez mais dentro das previsões, isto é, a margem de erro no box office é hoje praticamente inexistente. O diferencial fica por conta dos efeitos, porque entre um e outro filme, o primeiro e a sequência, quem trabalha, de fato, é o departamento de magias e ilusões. O resto, como provam as duas estréias nacionais de hoje (confira a programação de cinema na página 2), é pura conversa fiada.
Ao espectador sem nenhum dom extraordinário a não ser a intuição do óbvio implícito não restou nenhuma dúvida. Quando nas cenas finais de ''Premonição'', lançado em 2000, a sobrevivente de um acidente aéreo começa a ter estranhas sensações divinatórias sobre sua vida e a das pessoas ao redor, estava mais do que sacramentada uma continuação. Pois ela chega hoje às telas do país com o recorrente título de ''Premonição 2''. Não tira e nem acrescenta absolutamente nada do filme inicial, e é mais uma endereçada ao público juvenil sedento de aventuras rasteiras, suspense barato, sangue de barata e ''refri''.
Neste argumento, Clear (Ali Larter), a tal sobrevivente do desastre aéreo, é levada a um hospital psiquiátrico onde se diz protegida contra a morte que a persegue. Em trilha paralela está Kimberly (A.C. Cook), uma garota em viagem com amigos. Na estrada, um caminhão provoca uma colisão em cadeia com muitos mortos e feridos, inclusive Kimberly, que antes tinha pressentido toda a tragédia. Ela e Clear (a que vê tudo ''claro'', sentiram o sutil trocadilho?) se encontram, e a partir daí o filme envereda pelo ''thriller'' psicológico recheado de mortes violentas e ''anunciadas'' e flerta descaradamente com o bizarro. Recheado mesmo, com muitas baixas entre o elenco, decapitado ao longo da metragem apenas 90 minutos, uma concessão do diretor David R. Ellis. Um curioso mas nada estimulante exercício ''premonitório'' é tentar saber quem chega vivo ao final.
Não é mesmo possível levar a sério tanta bobagem. Artificioso e previsível, é exemplar de um subgênero com a finalidade de seduzir supersticiosos que acreditam no destino predeterminado, nas tais premonições e como existem e se multiplicam! Os produtores, de olho nas contas bancárias, agradecem e desde já prometem a terceira parte: ''Premoneyção''...
Já ''Velozes e Furiosos'', o segundo da série, que na origem americana foi batizado como ''2 Fast 2 Furious'', é muito mais um caso para o Dr. Freud do que para a crítica de cinema. De novo aboletados em seus fálicos foguetes sobre rodas, é um arrogante desfile de bíceps e tríceps tatuados. A idéia até que tinha lá seus fundamentos: o culto à maquina e o resultado social que isto produziu. Mas tanto no filme inicial como aqui, o que se obtém é uma barulhenta saudação aos tradicionais atributos do macho simbolizados pelos bólidos: força, velocidade, atitude e maneiras de tratar as formas de mulheres, veículos e a própria vida embora não necessariamente nesta ordem.
O filme é sobre esculturais mulheres seminuas, digamos, interagindo com os ''músculos'' dos carros, as posições francamente favoráveis às lentes das câmeras. Ah, e é também sobre amizade entre homens, ou pelo menos tenta contar algo a respeito, apesar de todas as habituais e frívolas circunstâncias da maioria dos filmes de ação. A direção de John Singleton era uma vez o estreante de muita fibra em ''Boyz in the Hood'' (''Os Donos da Rua, 1991'') embora energética, se limita a reeditar aqueles velhos episódios televisivos de ''Miami Vice''. Sobrecarregando, claro, apenas no som, na fúria e nas mais diversas transgressões no que diz respeito às elementares leis do trânsito. De direção promissora, Singleton passou sem nenhum louvor à direção perigosa. Solicita-se com urgência um curso dinâmico de direção assistida.


