O império das aparências
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 02 de outubro de 2009
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha 2 
Um sujeito entra na justiça para obter a autorização de abrir a sepultura do pai falecido há anos. O motivo alegado, uma irremediável saudade. Após várias tentativas processuais constantemente recusadas, o sujeito decide agir com as próprias mãos. Durante a noite invade o cemitério e desenterra os restos mortais do pai. Para sua surpresa, não encontra o esqueleto do pai no caixão. Encontra o esqueleto de um enorme porco.
Uma velhinha decide ajudar um morador que rua que perambula pelo seu bairro. Acolhe o homem em sua casa, oferecendo cama, banho e comida. Após alguns meses habitando a residência, o sujeito decide estrangular a boa velhinha. Indagado pela polícia o motivo do crime cruel, ele responde que foi um simples gesto de caridade. Uma caridosa retribuição.
Histórias como essas recheiam ''O Imitador de Vozes'', livro do escritor austríaco Thomas Bernhard (1931 - 1989) lançado pela Companhia das Letras. A obra reúne 113 breves contos onde situações inusitadas, irônicas e pitorescas ocupam lugar de destaque.
Um dos grandes nomes da literatura de língua alemã contemporânea, Thomas Bernhard apresenta histórias independentes narradas aparentemente por um mesmo narrador invisível. Aos olhos do leitor o livro pode parecer um volume de pequenos contos, mas na visão do autor trata-se de um romance em formato não tradicional.
A temática das histórias de ''O Imitador de Vozes'' segue a órbita do vasto mundo que as aparências ocultam. Segue tanto as aparências individuais como as coletivas, sejam culturais, sociais ou políticas. Em cada relato, a sensação de incompletude ganha os mais variados contornos, como se algo de errado dividisse o mesmo espaço do oxigênio vital.
Das situações intelectuais, passando pelas questões existenciais e tocando até emblemas turísticos, Thomas Bernhard confere comicidade a qualquer acontecimento ou episódio. Em seu procedimento narrativo, revela como homem contemporâneo está inserido numa banheira, repleta de sabonete e shampoo, mas completamente desprovida de água.
Nas histórias de ''O Imitador de Vozes'' há uma verdadeira chuva de suicídios dos mais variados tipos e formas. Os personagens utilizam a morte física para colocar um fim em situações filosóficas do cotidiano mais simples. A ironia de Thomas Bernhard está em apresentar recortes de um amplo leque de pessoas a partir de uma simples e imediata observação repentina. Algo como converter a aparência em atração turística da essência.
Serviço
- O Imitador de Vozes
Autor - Thomas Bernhard
Editora - Companhia das Letras
Tradução - Sergio Tellaroli
Quanto - R$ 39 (160 pág.)
''Embora eu sempre tenha odiado jardins zoológicos e na verdade achava suspeitas as pessoas que os visitam, não escapei de ir certa vez ao zoológico de Schönbrunn e, a pedido de meu acompanhante, um professor de teologia, deter-me diante da jaula dos macacos para observar aqueles aos quais ele, meu acompanhante, alimentava com comida que, para esse fim, tinha levado no bolso. O tempo passou e o professor de teologia que me pedira que fosse com ele a Schönbrunn, um ex-colega de faculdade, já havia dado aos macacos toda a comida que trouxera consigo quando, de repente, os próprios macacos, por sua vez, puseram a coletar a comida que se espalhara pelo chão e, através das grades da jaula, ofereceram-na a nós. O professor de teologia e eu ficamos tão chocados com o súbito comportamento dos macacos que, no mesmo instante, demos meia-volta e partimos de Schönbrunn pela primeira saída que encontramos''.
(Fragmento de ''O Imitador de Vozes'' de Thomas Bernhard)


