ReproduçãoEle deixou 200 sermões e 500 cartas, escritos há mais de 300 anos, mas que não perderam a atualidade ou o encantoAntonio Vieira foi padre, diplomata, missionário, escritor, político e conselheiro de reis e rainhas. Porém, foi como orador sacro que ele mais se destacou. Vieira, cujo 300º aniversário de morte será lembrado hoje, fez sermões dirigidos a nobres, gente do povo, escravos, índios, soldados, peixes, freiras (quando explicou por que a mulher é a perdição do homem) e até para o próprio Deus (‘‘Não hei de pregar hoje ao Povo, nem hei de falar com os homens, mais alto hão de subir minhas palavras, ou as minhas vozes: a Vosso peito Divino se há de dirigir todo o Sermão’’) .
A importância de Vieira é tal que Fernando Pessoa, o mais famoso poeta português deste século, dedicou versos ao artista afirmando: ‘‘O céu estrela o azul e tem grandeza./ Este, que teve a fama e a glória tem,/ Imperador da língua portuguesa,/ Foi-nos um céu também’’.
Vieira nasceu em Lisboa no dia 6 de fevereiro de 1608. Com seis anos, mudou-se para Salvador, então capital do Brasil, para onde seu pai, Cristóvão Vieira Ravasco, fora transferido como escrivão. Na Bahia foi alfabetizado pela mãe, Maria de Azevedo. Aos 15 anos, ele começou a estudar num colégio jesuíta de Salvador. Segundo historiadores, nos primeiros meses, Vieira não era bom aluno, tendo dificuldades em entender as matérias. Mas, um dia, ele estava rezando a Nossa Senhora das Maravilhas na igreja da escola quando ouviu um forte barulho dentro de sua cabeça. Desde então ele se tornou um gênio em vários assuntos. Esse acontecimento é conhecido como ‘‘estalo do padre Vieira’’ e virou sinônimo para ‘‘inteligência repentina’’.
Inspiração divina Nessa época, Vieira resolveu ser padre. ‘‘Aos 11 dias do mês de março de 1623, ouvindo uma história de inferno de uma pregação de tarde do padre Manuel do Couto, me deu Deus a primeira inspiração eficaz de entrar religioso’’, explicou o orador tempos depois. Em 1623, com 18 anos, padre Vieira escreveu o primeiro texto que se conhece dele, a Anua da Província do Brasil, uma carta-relatório anual enviada pelos jesuítas do Brasil a seus superiores da Companhia de Jesus na Europa.
Na primeira metade do século 17, os holandeses ocuparam o Brasil duas vezes. A Bahia (de 1624 a 1625) e Pernambuco (de 1630 a 1654), época na qual ampliaram seus domínios que iam de Alagoas ao Maranhão e lançaram vários ataques contra a Bahia.
Em 1640, os holandeses cercaram Salvador e Vieira elevou o ânimo da população com seus sermões, contra o que ele considerava uma injustiça de Deus: as vitórias que os holandeses estavam conseguindo. Tempos depois, Vieira passou a achar que seria melhor para Portugal fazer as pazes com a Holanda do que tentar expulsá-la do Brasil. ‘‘Porque são homens os holandeses com quem não só vizinhamos no Brasil, senão na Índia, no Japão, em Angola, e em todas as partes da terra e do mar, onde seu poder é o maior do mundo’’, explicou numa carta ao embaixador de Portugal em Paris, Marques de Niza.
Em 1641, Vieira foi para Lisboa, onde seu sucesso como orador deu-lhe grande prestígio junto ao rei D. João IV, de quem se tornou conselheiro. Entre as muitas idéias que propôs ao rei, estava a permissão para que judeus portugueses que tinham fugido para a Holanda pudessem voltar a Portugal a fim de ajudar financeiramente o país. A proposta, rejeitada por D. Joao IV, desagradou muito à Inquisição.
Críticas à escravidão A questão dos índios também preocupava Vieira. Em 1653, ele foi para São Luís, no Maranhão, de onde ia para o Pará e o Amazonas catequizar índios. Ele foi um opositor ferrenho da escravidão indígena. ‘‘Não nos podemos sustentar doutra sorte senão com a carne e sangue dos miseráveis! Então eles são os que comem gente? Nós, nós somos os que íamos comer a eles’’!, protestou num sermão. Suas críticas irritaram tanto os colonos portugueses que, em 1661, ele e todos os jesuítas foram expulsos do Maranhão.
Quando voltou a Lisboa, nesse ano, a situação política tinha mudado. D. João IV tinha morrido havia cinco anos e, em 1662, o príncipe regente D. Afonso VI, que não gostava de Vieira, assumiu o poder, aumentando a disposição de seus inimigos para persegui-lo. No ano seguinte, ele foi acusado de heresia por ter apoiado as profecias do sapateiro Bandarra, que afirmara que um rei ressuscitaria para trazer de volta as glórias do império português (Bandarra achava que esse monarca seria D. Sebastião, desaparecido numa batalha contra os árabes em 1578; já Vieira acreditava que o ressuscitado seria D. João IV).
Em 1º de outubro de 1665, Vieira foi preso em Coimbra. Tudo indicava que ele seria condenado a vários anos de prisão ou à morte. Mas, em setembro de 1665, sua sorte mudou.
Condenação e anistia D. Afonso VI é deposto pelo irmão D. Pedro, com a ajuda da cunhada, a rainha Maria Francisca Isabel, com quem se casaria anos depois. A reviravolta fez com que os aliados de Vieira voltassem ao poder e pudessem ajudá-lo. A sentença do padre é anunciada às vésperas do Natal desse ano: ele estava proibido de exercer qualquer cargo, de pregar e de celebrar missa, além de escrever ou falar sobre os assuntos censurados pela Inquisição. Em 12 de junho de 1668, porém, Vieira foi anistiado.
Desgostoso por não ter sido convidado para participar do governo de D. Pedro, em 1669, Vieira foi para Roma. La ele pregou para cardeais e ficou muito próximo da rainha Cristina Alexandra, que tinha abdicado do trono da Suécia e se convertido ao catolicismo. O geral (chefe supremo) dos jesuítas, João Paulo Oliva, ficou tão impressionado com o talento de Vieira que lhe deu uma missão: publicar sua obra . ‘‘Não há quem não aspire ao escolhido pão de seus elevadíssimos conceitos; e todos aqui me argúem (...) a que alimente as almas e a que eleve os espíritos com aquele maná, em que se acham todos os sabores mais dignos do gosto dos Anjos que dos homens’’, solicitou o geral numa carta.
Vieira começou a reunir os sermões para revisá-los e publicá-los. Em 1675, queixando-se do rigoroso inverno romano, Vieira voltou para Portugal, mas não se sentiu confortável em Lisboa e foi para a Bahia em 1681. Em Salvador, cego, quase completamente surdo e muito doente, Antonio Vieira morreu em 18 de julho de 1697, com 89 anos, tendo deixado 200 sermões e 500 cartas. Escritos há mais de 300 anos, os textos de Vieira (tratando de política, economia ou religião) não perderam nem a atualidade nem o encanto. Em 1995, o ator Pedro Paulo Rangel representou um monólogo baseado em sermões feitos por Vieira para serem pregados em Quartas-Feiras de Cinzas, com enorme sucesso em teatros do Brasil e do Portugal.

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