O impactante "Fé" estréia amanhã
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quarta-feira, 03 de novembro de 1999
Por Luiz Zanin Orocchio 
São Paulo, 04 (AE) - Se filmes pudessem ser definidos por uma frase lapidar, a do novo documentário de Ricardo Dias seria: a religião não é o ópio do povo. Ele mesmo a escolheu para apresentar seu "Fé", que estréia amanhã (05), um entre outros filmes brasileiros que tratam da religiosidade - os outros são "Santo Forte", de Eduardo Coutinho, "São Jerônimo", de Julio Bressane, e "Milagre em Juazeiro", de Wolney Oliveira. Estes três últimos foram selecionados para o Festival de Brasília, que começa no dia 30. O de Dias, não. Uma flagrante injustiça, pois a presença de "Fé" poderia ajudar a compor um interessante - e informal - painel temático para esta edição do festival. Mas assim não entendeu a comissão de seleção.
Pior para Brasília, pois se trata de um filme para lá de interessante. Ao contrário dos outros três longas sobre a religiosidade, "Fé" é bem mais abrangente. Bressane faz sua leitura pessoal da vida de um santo. Coutinho pesquisa a relação com o transcendente em uma única localidade, uma favela na zona sul do Rio. Wolney trata de um caso particular, o suposto milagre da beata Maria de Araújo, ocorrido sob os auspícios do padre Cícero Romão Batista. Ricardo Dias procura esboçar um quadro mais completo, no sentido geográfico, mas também conceitual: ele registrou a romaria de São Francisco das Chagas, em Canindé, no Ceará, o Círio de Nazaré, no Pará, a festa de Iemanjá, no litoral sul paulista.
Assistiu à festa do Senhor do Bonfim, na Bahia, e foi a Juazeiro do Norte para acompanhar o culto a padre Cícero. Esteve também em Aparecida, compareceu à reunião da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil e documentou uma emocionante sessão espírita em Uberaba, Minas Gerais. Foi abrangente, não exaustivo. Quando decidiu rodar o documentário sabia que o assunto era vasto demais e teria de restringi-lo, para não perder a fé ou a esperança. Assim, deliberadamente, deixou de registrar o fenômeno de comunicação do padre Marcelo Rossi e com isso perdeu o "gancho" da missa dos 600 mil em São Paulo. "Foi deliberado, porque senão ficaria sendo o filme do padre Marcelo Rossi", diz o diretor.
Bem, é uma opinião, e opinião de quem assina a obra. Deixando o mais óbvio de lado - o fenômeno das show-missas -, Dias incluiu quase todo o restante e não apenas as chamadas religiões não oficiais: o catolicismo, apostólico, romano, está corretamente representado. Sobre todas as manifestações, "oficiais" ou não, o olhar do cineasta não se altera. O tom é de respeito, empatia com as pessoas, compreensão. A cada fotograma, reafirma-se a frase-guia do diretor, pois em nenhum momento a crença religiosa é vista como sinônimo de alienação, escapismo ou mera ingenuidade. "A fé faz bem para as pessoas", acredita Dias.
Esse, digamos assim, parti-pris, é um diferencial do filme. Assinala uma nova posição do cinema brasileiro em relação ao assunto. Como se sabe, durante os anos 60, a religião, na esteira da concepção marxista que a tinha como ópio do povo, era vista como alienação a ser superada. Em "Deus e o Diabo na Terra do Sol", para ficar em um exemplo, o envolvimento do vaqueiro Manuel com o beato é apenas uma etapa em sua busca de consciência. Logo ela será superada, com a violência cega, na direção de uma, digamos assim, brutalidade social direcionada, que seria a revolução.
A fé seria assim um empecilho ou, quando muito, um degrau da consciência de si, que teria de ser galgado rumo ao estado superior. Não há nenhum resquício desse tipo de dialética
nem no texto nem no subtexto do documentário de Ricardo Dias, o que, para o bem e para o mal, o torna nosso perfeito contemporâneo. De fato, não parece mais tão lúcido concluir que a devoção a forças superiores constitui um entrave sério às mudanças. Pelo único e bom motivo que ninguém mais, em são consciência, acredita no tipo de mudança que se supunha possível 30 anos atrás. Esperança - Como a época é de abulia política, é normal ser mais tolerante com tudo aquilo que ajude a viver. E, desses "derivativos poderosos", para usar a expressão de Freud, a religião parece o mais eficaz. Tem milênios de tradição. Pode-se supor que existe desde que o homem é homem. Isto é, desde que descobriu que sua vida é finita e termina inevitavelmente na cova. A religião é o que surge para suprir de conteúdo o conceito excessivamente abstrato de "nada". Isso, em sua ponta metafísica, aquela que se infiltra entre o temor da aniquilação e a esperança da sobrevivência pelo menos da alma. Nos materialmente carentes, é também conforto diante da pobreza, da doença, da fatalidade. Até consola para o desemprego ou a fome - circunstâncias cujas origens seriam melhor rastreadas em outras esferas que não a dos desígnios divinos. "Fé", um filme de visual impactante e momentos emotivos, abstém-se de qualquer sociologia. Quer-se pré-analítico. E, se alguma análise vier a ocorrer, será por conta do espectador. Ela não está sequer insinuada entre os belos fotogramas do documentário. Essa característica pode ser vista como mérito ou como carência, dependendo do ponto de vista adotado.


