O IMENSO PRAZER EM SER ATOR
PUBLICAÇÃO
sábado, 08 de julho de 2000
Leandro Calixto TV Press 
Aos seis anos, Ney Latorraca já sabia que queria ser ator. Filho de um casal de crooners de um cassino em Santos, onde nasceu, Ney pediu para os pais levá-lo para fazer um teste numa radionovela que era produzida pela Rádio Record, em São Paulo. Aprovado na seleção, não parou mais. Hoje, aos 56 anos, acumula mais de 60 produções na carreira entre novelas, peças e longas-metragens. Mesmo com toda esta bagagem, ele demonstra entusiasmo de novato ao interpretar o submisso Cornélio, em O Cravo e A Rosa. Representar é minha maior paixão. Quando não sentir mais este prazer, vou fazer outra coisa de minha vida, analisa o ator.
Ney teve outras razões para aceitar o convite para fazer esta novela das seis da Globo. O ator conta que a possibilidade de voltar a ser dirigido por Walter Avancini e de participar de uma produção de época foram fundamentais. Também tem a questão de ser uma comédia baseada na obra de Shakespeare, justifica o ator, que estava há mais de três anos sem fazer uma novela. A última foi a malsucedida Zazá, de Lauro César Muniz, onde interpretou o vilão Silas. O problema daquela novela foi o fato de ter sido muito esticada além do previsto, opina.
Ao final de Zazá, Ney preferiu descansar a imagem. Ele é o tipo de ator que não gosta de emendar uma produção na outra. Se eu fico cansado com minha cara no vídeo, imagine o público?, questiona. Mas assistir à televisão é um dos passatempos prediletos do ator. Ney conta que vê de tudo: desde os telejornais até filmes eróticos do Cine Privê, exibidos na Band. Sou um telespectador sem qualquer tipo de preconceitos, avisa.
É com este mesmo pensamento livre de preconceitos que o ator defende a proliferação de modelos nas telenovelas brasileiras. Para ele, a presença de pessoas bonitas enriquecem as produções. Mas se não tiver talento, acaba sendo descartado, acredita o ator. Em agosto, Ney diminui o ritmo de gravações para estrelar em São Paulo o monólogo 3 x Teatro, dirigido por Édio Botelho.
Com 36 anos e mais de 20 produções só de televisão, onde você busca motivação para voltar a fazer uma novela?
Atuar em uma novela é um processo muito desgastante. São oito meses de trabalhos ininterruptos. Mas esta é minha paixão. No caso de O Cravo e A Rosa, a possibilidade de voltar a trabalhar com Walter Avancini foi fator determinante. É um diretor com quem já trabalhei em muitas produções como Anarquistas Graças a Deus, Rabo de Saia, Grande Sertão Vereda e Avenida Paulista, entre outros projetos. Também tem a questão de ser uma comédia e uma novela baseada na obra A Megera Domada, de William Shakespeare, além de ser uma produção de época. E o elenco reunido pela direção é muito talentoso. Gosto de estar cercado de gente talentosa. Trabalhar com atores como Maria Padilha, Adriana Esteves, Pedro Paulo Rangel, Eduardo Moscovis, Taumaturgo Ferreira e Carlos Vereza é muito gratificante.
O Cornélio é um personagem extremamente cômico e submisso aos caprichos da mulher. Você tem predileção em fazer personagens engraçados?
Cada personagem é um novo exercício para mim. E o Cornélio é um papel bem diferente dos últimos que fiz na televisão. O nome já diz tudo. Ele não é ativo. Pelo contrário, é muito pacífico e deixa ser dominado pela mulher. Mas gosto de fazer também personagens dramáticos como o padre que interpretei em Grandes Sertões Vereda. Só que reconheço que os últimos trabalhos que fiz na tevê tiveram uma veia cômica mais explorada como em Vamp e Zazá, novelas que tiveram excelentes índices de audiência.
Mas ultimamente as novelas da Globo estão tendo uma queda de audiência no Ibope. A que você atribui isto?
Pelo próprio crescimento das demais emissoras nos últimos anos. Antigamente só tinha a Globo. Também a entrada da tevê a cabo no mercado.
Mas não falta uma renovação? Há muitos anos são sempre os mesmos autores e diretores que estão à frente das produções na Globo...
Os autores são ótimos. Só para citar alguns nomes, temos Aguinaldo Silva, Manoel Carlos e o Sílvio de Abreu. A questão é que até há pouco tempo as pessoas só assistiam a Globo. Só tinha uma opção. Agora não. A própria Globo tem o canal Multishow, GNT, Futura, Sportv, tudo na tevê a cabo. O público tem outras opções. No meu conceito, as novelas continuam firmes e fortes. Não sou uma pessoa que tem um olhar crítico sobre este tipo de problema. Não é minha função. Inclusive, acho que tem de colocar pessoas novas e bonitas na tevê. Eu, por exemplo, sou totalmente a favor dos modelos que estão aparecendo ultimamente nas nossas novelas.
Mas você não acha que muitos modelos acabam entrando apenas pela boa aparência e sem qualquer tipo de preparação?
É claro que quem não tem talento acaba sendo descartado. O sucesso não é imediato. Sucesso é ficar 36 anos em cartaz. Simplesmente estourar é muito fácil. Mas tem de ter gente bonita no vídeo. A gente vê dois casos recentes: Thiago Lacerda e Maria Fernanda Cândido. Eles são ótimos e vieram para ficar. Tem de acabar com esta coisa de ficar fazendo campanha contra modelos. Não embarco nesta, pois quero ficar cercado de gente bonita.
Na década de 90 você só fez Zazá e Vamp. É uma maneira de se proteger da superexposição?
Não gosto de emendar um trabalho atrás do outro. É uma coisa minha. Por isso, não critico quem faz uma novela seguida da outra. Só que se eu fico cansado da minha própria imagem, imagine o público? As pessoas em casa devem falar: De novo aquele cara. Quando acabo uma novela, viajo para o exterior, vou ao teatro e faço cursos. Quando volto para vídeo, estou totalmente renovado. Neste intervalo, também trabalho no teatro e cinema. Também gosto de fazer um trabalho só quando estou cercado de pessoas de minha confiança.
Você ainda tem muito prazer na sua profissão?
Tenho. Mas para dar certo, é preciso, acima de tudo, muita determinação para alcançar todos os objetivos traçados. Aos 20 anos, por exemplo, procurei o Flávio Rangel e Maria Della Costa para atuar na peça Depois da Queda, no lugar de Paulo Autran. Foi um atrevimento de minha parte. E isto continua sendo até hoje. Acho que o segredo é continuar ainda hoje, com 36 anos de carreira, tendo o mesmo prazer de quando era aluno da Escola de Teatro Dramática na USP. Quero envelhecer com dignidade e deixar sempre viva a criança que tem dentro de mim. Mágoas tem de deixar para o hospital e enterro. Por isso, só trabalho com pessoas felizes. Esta é uma exigência minha, principalmente no teatro, onde tenho o poder de escolher com quem desejo trabalhar.
O que você acha desta popularização que virou a televisão brasileira nos últimos anos?
A gente lutou tanto para viver numa democracia, então, não entendo porque tem pessoas que gostam de censurar e criticar muitos programas. Assisto de tudo na televisão. Desde os telejornais, programas de auditórios, Show do Milhão, pegadinhas, Feiticeira e futebol. Também assisto aos filmes que passam no Cine Privê, na Band. Adoro aquelas chamadas das mulheres fazendo ai, ui, que gostoso.... Acompanho uma programação bem heterogênea. Por isso, acho muito importante esta popularização. Quem não gosta de um programa que pegue o controle remoto e mude de canal. Isto é saber viver em democracia e sem qualquer tipo de preconceito.


