No litoral de Santa Catarina, o imaginário popular recebeu mapeamento minucioso, digno do Projeto Genoma. A extensa pesquisa revelou o homem erigido num rico universo lúdico. O responsável pela empreitada foi o incógnito pesquisador e professor Franklin Cascaes (1908/1083), figura importante no registro da história não oficial de Santa Catarina, mas sob a ótica do imaginário.
Cascaes visitava comunidades pesqueiras e transformava as informações da mitologia e da colonização açoriana em desenhos e esculturas. Essa catalogação durou mais de 40 anos, na zona rural e no litoral catarinense, resultando em mais de 8.000 peças (textos, esculturas e desenhos). Seus traços revelam um artista refinado, destilando ironia e humor. Alguns desenhos foram feitos no verso de provas de alunos, recurso utilizado por Cascaes para não perder o insight criativo.
A incrível história do desconhecido pesquisador encantou a atriz gaúcha Deborah Finocchiaro, que juntamente com Clarissa Alcântara transformaram informações preciosas dos livros de Cascaes ‘‘O Fantástico na Ilha de Santa Catarina (I e II)’’ numa performance e, posteriormente, no espetáculo ‘‘Hobárccu’’ (nome pinçado da lista de incontáveis personagens da cultura popular catarinense). Outros livros serviram de base para a pesquisa como ‘‘Vida e Cultura Açoriana em Santa Catarina’’ (Raimundo Caruso e Mariléa Caruso) e ‘‘Na Cauda do Boitatᒒ (Heloísa Espada). A peça pode ser considerada um documentário teatral. Deborah preferiu não ancorar a peça num conflito, como ocorre na dramaturgia clássica. Ela preferiu usar fragmentos do pensamento e da catalogação iconográfica de Cascaes. As atrizes Deborah Finocchiaro e Arlete Cunha se alternam na figura de contadoras de histórias da cultura popular. Cenicamente, são usados 134 slides com registros de desenhos e esculturas do pesquisador, cedidos pelo acervo da Universidade Federal de Santa Catarina. Além disso, foram resgatados trechos em off com depoimentos do próprio Franklin Cascaes.
‘‘Hobárccu’’ é um registro da memória coletiva pela voz das duas atrizes. Na peça, falam pescadores, rendeiras, lavradores, contadores de histórias, cantores, artistas e sábios do povo. Como recriador das mitologias, no mito do boitatá, o pesquisador incluía na história o bezerrotatá, a vacatatá e toda a família tatá. O documentário teatral ‘‘Hobárccu’’ conta com a participação de Cláudia Sachs e Cintia Ceccarelli no apoio musical das vinhetas sonoras.
‘‘Hobárccu’’, direção geral, concepção, roteiro, atuação, música, locução e coordenção de produção de Deborah Finocchiaro, com a participação da atriz Arlete Cunha. Hoje e amanhã, às 23 horas. No Teatro Núcleo I, (Rua Quintino Bocaíuva 1243), em Londrina.

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