São Paulo, 29 (AE) - O relançamento de "O Iluminado", de Stephen King (Editora Objetiva, 262 págs, R$ 24,80), serve para relembrar o que um grande diretor pode fazer com um bom livro. Mas também faz justiça a King, autor pouquíssimo valorizado pela crítica, mas que cumpre com aquilo a que se propõe: levar ao leitor aquele estranho prazer que se vincula ao medo. Uma arte exercida com perfeição por Poe e Lovecraft, que tem em King um modesto porém eficiente epígono.
Basta ler (ou reler) o livro para sentir quanto a técnica de relato torna a leitura interessante. A trama é bem conhecida, mesmo porque foi amplamente popularizada pela adaptação de Stanley Kubrick. Mas tudo isso pode ter ficado no passado. Afinal, o filme saiu no começo dos anos 80. Jack Torrance é um escritor em bloqueio criativo. Ex-alcoólatra, foi demitido do último emprego por ter surrado um aluno. Sem um tostão, aceita o único trabalho que lhe oferecem (e ainda assim por interferência de um amigo poderoso, beberrão como ele): passar cinco meses num hotel que fica isolado da civilização durante o inverno. Leva com ele a mulher, Wendy, e Danny, o filho de 5 anos.
O garotinho Danny é o iluminado do título. É dado a premonições, vê coisas estranhas e tem um amigo invisível, Tony, que lhe "assopra" mensagens assustadoras. Entre elas, uma estranha palavrinha, "redrum", que não sai da cabeça de Danny. Como o menino ainda é analfabeto, e não sabe que certas palavras podem ser lidas ao contrário, como se colocadas contra um espelho, não pode avaliar corretamente a dimensão do aviso de Tony. King não é de jogar pistas falsas. Tudo converge para um mundo fechado e assustador. Não há nenhum engano quanto a isso. A personalidade instável de Jack é construída parágrafo por parágrafo. Tudo vai contra ele, do alcoolismo mal curado como uma ressaca infernal, que passa de um dia para o outro, à propensão à violência. Salva-o o amor pelo filho e pela mulher. Mas ficamos sabendo que o hotel nas montanhas do Colorado, o Overlook, já foi palco de uma tragédia, acontecida com gente aparentemente mais equilibrada. Durante o inverno, um homem matou mulher e duas filhas, a machadadas, e suicidou-se em seguida. Portanto, quando o último hóspede se vai, e o gerente despede-se de Jack Torrance, sabemos que o que virá será apenas medo, loucura e morte. Mas não adianta a preparação, porque o arrepio na espinha do leitor será inevitável.
Kubrick fez uma versão primorosa do original que tinha em mãos. Não foi muito fiel a ele. Guardou a estrutura básica do enredo e desfez-se do estilo meio dispersivo da narrativa de King. Foi mais direto. E compreendeu que precisava transformar em imagens a claustrofobia proposta pelo escritor. Uma estranha claustrofobia, aliás. A família Torrance, é verdade, fica encerrada no Overlook. Mas no hotel tudo é grandioso, os corredores são imensos, o jardim em forma de labirinto parece não ter princípio nem fim. Essa claustrofobia dos grandes espaços - agorafobia, para usar o termo - é traduzida na tela por um manejo de mestre na câmera.
Foi em "O Iluminado" que pela primeira vez se utilizou a steady cam, câmera solta que é conduzida por um operador. Ela não trepida porque dispõe de amortecedores, e pode acompanhar um personagem por um longo plano-sequência com firmeza, como se estivesse sobre um tripé . Deve-se a ela a cena inesquecível, e arrepiante, do garotinho Danny andando de velocípede pelos corredores assombrados do Overlook. E, claro, a imagem de Jack Torrance é indissociável da figura de um Jack Nicholson genial - pouquíssimo iluminado e completamente alucinado.

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