Uma pitada da língua nagô, do francês, do português. Como se fosse um caldeirão cultural idiomático, as palavras borbulham esnobando sotaques de cada nacionalidade. A variedade de sentidos que uma única expressão toma conforme o verbo depende da situação e da entonação que dá o colorido, o calor e a frieza do vocabulário do mundo gay.
Quem não for ‘‘entendido’’ (um termo que também está caindo em desuso) e ouvir uma conversa entre homossexuais, não vai decifrar uma única frase do que estão falando. Pode pescar, quando muito, palavras mais populares como ‘‘mona’’, ‘‘bofe’’ e ‘‘arrasou’’.
Mas se os olhares de viés do grupo vierem acompanhados de uma pergunta, ‘‘aquenda o babado?’’, ele ficará na mesma. Jamais imaginará que estão conjecturando entre si: ‘‘Será que ele é gay?’’.
Como um dialeto, a comunidade gay cria seu palavreado, espécie de cortina de fumaça onde apenas os iniciados têm acesso e encontram seus semelhantes. Tão natural como qualquer tribo, seja ela do surfista ao executivo. Mas no caso dos homossexuais há um elemento a mais - o da negação da sociedade. As expressões têm o dom de proteger, salvaguardar, criar particularidade.
Quando um garoto que está a fim de conversar pelo telefone com o namorado (ou uma garota com outra) e os pais estão por perto, a saída é essa: lançar mão da sua linguagem. É um caminho, mas está longe de ser o ideal. Bom mesmo é se todas as diferenças fossem respeitadas e as pessoas pudessem se relacionar sem esconderijos ou medos.
Marcela Prado, diretora executiva do Grupo Dignidade, é contra qualquer nuance que projete a imagem de guetos, mas reconhece que as gírias são uma prova cabal de que muito ainda precisa ser feito. ‘‘Estamos plantando sementes, a colheita virá no futuro’’, diz esperançosa.
Toni Reis, presidente da entidade, reforça a tese. Esconder-se atrás das palavras é uma forma de evitar a discriminação. Ou então, exercer a liberdade, mesmo que restrita. Ele também acredita que a sociedade começa a mudar. ‘‘Entendido’’ é um termo que começa a dar lugar para ‘‘gay’’; a aceitação passa a existir, mesmo que timidamente.
Extratos sociaisReproduzindo as diferenciações de qualquer tribo, o meio homossexual divide-se entre os da alta, da média e da baixa classe. O linguajar varia conforme a educação de cada um desses extratos. Os mais finos referem-se ao pênis como ‘‘mala’’, os mais simples chamam de ‘‘neca’’. Daí vem as variações, como o ‘‘neca matim’’ (pequeno) e ‘‘neca odara’’ (grande).
‘‘Ek꒒ está entre as palavras mais versáteis. Pode servir para um conselho maroto: ‘‘Dá um ekê na mona’’, ou seja, ‘‘leva a bicha na lábia’’, engane, minta, seja falso. Mas se é dita: ‘‘amapô de ek꒒, está afirmando que tal mulher é lésbica. E por aí vai, numa profusão de intenções.
‘‘Babado’’ também toma caminhos vários. Se alguém diz que deu ‘‘um babado na festa’’, é porque houve briga. O termo pode ser dramático: ‘‘Ela está com o babado’’ (entre outros problemas, com o vírus da Aids). A última moda para se falar de um homem bonito é ‘‘bofe escândalo’’.
‘‘Picum㒒 é peruca ou cabelo; ‘‘ageum’’, refeição; ‘‘aqu钒, dinheiro; ‘‘amapô’’, mulher. ‘‘Cuidado com a Elza’’, significa roubo, mas agora já começam a trocar Elza por Abigail. ‘‘Aquenda mona que o alibã está vindo’’, é o aviso de alerta entre os travestis. ‘‘Alib㒒 quer dizer policial.
‘‘Ocó’’ significa heterossexual, e ‘‘ocó no truque’’ é quando o hetero está só na fachada. Belas e elegantes mulheres que escondem a homossexualidade são BMW. As que se vestem como homem e só faltam calçar um sapato Vulcabrás ganharam o nome de Scania.
Os jargões do comércio inspiraram definições regionais para cada tipo de pessoa. Surgiram assim a ‘‘Bicha Disapel’’ (a mais simpática), ‘‘Bicha Casas Bahia’’ (dedicação total), ‘‘Bicha Arapu㒒 (tô ligada em você), ‘‘Bicha Frischmann’s (‘‘o amigão’’ - quando recebe o pagamento no final do mês, gasta generosamente com todos) e ‘‘Bicha Caixa Econômica Federal (‘‘vem pra Caixa você também’’ - a que faz apologia do homossexualismo e convida outros a tomarem parte do seu território).

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