O idioma das conversas ocultas
PUBLICAÇÃO
sábado, 06 de setembro de 1997
Zeca Corrêa Leite Curitiba 
Uma pitada da língua nagô, do francês, do português. Como se fosse um caldeirão cultural idiomático, as palavras borbulham esnobando sotaques de cada nacionalidade. A variedade de sentidos que uma única expressão toma conforme o verbo depende da situação e da entonação que dá o colorido, o calor e a frieza do vocabulário do mundo gay.
Quem não for entendido (um termo que também está caindo em desuso) e ouvir uma conversa entre homossexuais, não vai decifrar uma única frase do que estão falando. Pode pescar, quando muito, palavras mais populares como mona, bofe e arrasou.
Mas se os olhares de viés do grupo vierem acompanhados de uma pergunta, aquenda o babado?, ele ficará na mesma. Jamais imaginará que estão conjecturando entre si: Será que ele é gay?.
Como um dialeto, a comunidade gay cria seu palavreado, espécie de cortina de fumaça onde apenas os iniciados têm acesso e encontram seus semelhantes. Tão natural como qualquer tribo, seja ela do surfista ao executivo. Mas no caso dos homossexuais há um elemento a mais - o da negação da sociedade. As expressões têm o dom de proteger, salvaguardar, criar particularidade.
Quando um garoto que está a fim de conversar pelo telefone com o namorado (ou uma garota com outra) e os pais estão por perto, a saída é essa: lançar mão da sua linguagem. É um caminho, mas está longe de ser o ideal. Bom mesmo é se todas as diferenças fossem respeitadas e as pessoas pudessem se relacionar sem esconderijos ou medos.
Marcela Prado, diretora executiva do Grupo Dignidade, é contra qualquer nuance que projete a imagem de guetos, mas reconhece que as gírias são uma prova cabal de que muito ainda precisa ser feito. Estamos plantando sementes, a colheita virá no futuro, diz esperançosa.
Toni Reis, presidente da entidade, reforça a tese. Esconder-se atrás das palavras é uma forma de evitar a discriminação. Ou então, exercer a liberdade, mesmo que restrita. Ele também acredita que a sociedade começa a mudar. Entendido é um termo que começa a dar lugar para gay; a aceitação passa a existir, mesmo que timidamente.
Extratos sociaisReproduzindo as diferenciações de qualquer tribo, o meio homossexual divide-se entre os da alta, da média e da baixa classe. O linguajar varia conforme a educação de cada um desses extratos. Os mais finos referem-se ao pênis como mala, os mais simples chamam de neca. Daí vem as variações, como o neca matim (pequeno) e neca odara (grande).
Ekê está entre as palavras mais versáteis. Pode servir para um conselho maroto: Dá um ekê na mona, ou seja, leva a bicha na lábia, engane, minta, seja falso. Mas se é dita: amapô de ekê, está afirmando que tal mulher é lésbica. E por aí vai, numa profusão de intenções.
Babado também toma caminhos vários. Se alguém diz que deu um babado na festa, é porque houve briga. O termo pode ser dramático: Ela está com o babado (entre outros problemas, com o vírus da Aids). A última moda para se falar de um homem bonito é bofe escândalo.
Picumã é peruca ou cabelo; ageum, refeição; aqué, dinheiro; amapô, mulher. Cuidado com a Elza, significa roubo, mas agora já começam a trocar Elza por Abigail. Aquenda mona que o alibã está vindo, é o aviso de alerta entre os travestis. Alibã quer dizer policial.
Ocó significa heterossexual, e ocó no truque é quando o hetero está só na fachada. Belas e elegantes mulheres que escondem a homossexualidade são BMW. As que se vestem como homem e só faltam calçar um sapato Vulcabrás ganharam o nome de Scania.
Os jargões do comércio inspiraram definições regionais para cada tipo de pessoa. Surgiram assim a Bicha Disapel (a mais simpática), Bicha Casas Bahia (dedicação total), Bicha Arapuã (tô ligada em você), Bicha Frischmanns (o amigão - quando recebe o pagamento no final do mês, gasta generosamente com todos) e Bicha Caixa Econômica Federal (vem pra Caixa você também - a que faz apologia do homossexualismo e convida outros a tomarem parte do seu território).


