Depois do sucesso de ‘‘Schifaizfavoire, Dicionário de Português’’ (1993, 18ª edição) e ‘‘Mas Será o Benedito?’’ (1996, 8ª edição), o escritor e dramaturgo Mario Prata lança ‘‘Diário de um Magro’’ (Editora Globo, 159 páginas, R$ 17,00). O livro é um relato bem-humorado de observações atentas que o autor fez durante 15 dias num spa do interior de São Paulo, em outubro do ano passado.
Prata não é exatamente a pessoa mais indicada para recomendar uma temporada num spa. Fuma dois maços de cigarros por dia, é um apreciador de uísque (embora não dispense a cerveja), saliva só em ver uma bisteca de porco e costuma dormir de madrugada.
O escritor garante, no entanto, que os dias de dieta forçada e exercícios físicos (idem) o fizeram mudar os hábitos. Aprendeu o truque de fumar apenas a metade dos cigarros (aos poucos pretende fumar apenas um terço), diminuiu a quantidade de doses de uísque, come gordura e fritura somente às segundas-feiras e, sempre que pode, vai para a cama mais cedo. ‘‘Em resumo, um spa faz muito bem à auto-estima’’, afirma.
O escritor nunca havia entrado num spa antes. ‘‘Achava que era coisa de rico, lugar de grã-fino’’, diz. O autor havia acabado de escrever a novela ‘‘O Campeão’’, da TV Plus, exibida pela Bandeirantes, e reclamava de estresse quando o escritor e amigo Fernando Morais o convidou para o spa. Ressabiado, lá foi o autor, computador portátil a tiracolo, pensando em terminar outro livro, ‘‘As Invenções das Invenções’’, adiado para o segundo semestre.
‘‘No terceiro dia, diante de tão boas histórias, resolvi escrever ‘Diário de um Magro’’’, conta. Olhos na balança e ouvidos ligados na conversa dos outros, Prata começou a trabalhar. Gravava os casos mais pitorescos num minigravador e os transcrevia à noite.
Idéias gordas São histórias curtas de uma só linha ou de no máximo duas páginas, com intertítulos e divididas em dez capítulos. O escritor Fernando Morais participa de algumas, mas os protagonistas de Diário de um Magro são mesmo os gordinhos, pacientes (é assim que chamam) do spa. Prata quer adaptar o livro para o cinema. ‘‘A idéia é levar 15 gordinhos para um spa para contar essas histórias’’, adianta.
Ele assume a atitude de um completo desentendido (até porque o é) da moderna tecnologia a serviço do emagrecimento e o (bom) humor do livro vem de seus espantos e descobertas a cada momento sobre essas maravilhas à disposição de poucos. A temporada do autor foi orçada em R$ 5,4 mil. Entre outras situações, vê-se em apuros com uma máquina de bronzeamento artificial.
As histórias mais divertidas são sobre o contrabando de comida e bebida. ‘‘É sério, existe’’, garante Prata. Paulo Caruso, que assina as charges do livro, tentou entrar com uma garrafa de uísque, confiscada logo na entrada. ‘‘Eu e Fernando (Morais) montamos uma operação de guerra usando até telefones celulares, mas a bebida foi confiscada na portaria’’.
A vingança É hilário o relato sobre o filho de um milionário, rapaz de 204 quilos que escapou do spa com a desculpa de que seu pai sofrera um acidente. Voltou em dois dias, mas a direção já havia descoberto a mentira e comprovou que ele estava 5,8 quilos mais gordo.
Travou-se o seguinte diálogo entre o jovem e a médica: ‘‘O que você comeu?’’, interroga a médica. ‘‘Uma coxinha ou outra’’, disfarça o jovem. ‘‘É melhor você contar a verdade’’, insiste a médica. ‘‘Quarenta e oito chopes, fora as cervejinhas, dois litros de Johnnie Walker red - não gosto do black - e um pouco de macarronada com frango a passarinho’’, responde o paciente. ‘‘Um pouco, quanto?’’, insiste a médica. ‘‘Mais ou menos R$ 1.200,00’’, confessa o paciente. Foi expulso.
Mas vingou-se. Na semana seguinte alugou um helicóptero e despejou centenas de caixas de bombom Sonho de Valsa num dia em que o pátio estava cheio de gordinhos. ‘‘Tinha gente comendo deitada no chão, enchendo a boca com cinco ou seis, e gordinhas desesperadas subiam nas árvores para pegar os que se enroscavam’’, descreve o escritor.
O contrabando de comida é um desafio constante num spa. ‘‘Vi gente passando folha de agrião por debaixo da mesa’’, diverte-se Prata. ‘‘Mas as pessoas se acostumam e deixam de sentir fome’’, garante o escritor, que combinou a entrevista num restaurante. Almoçou duas bistecas de porco, linguiça, banana frita e dois ovos, tudo acompanhado por um copo duplo de uísque. ‘‘Mas hoje é segunda-feira’’, foi a explicação.

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