‘‘Para poder ser palhaço é preciso amar. O mundo está rasgado pela dor das pessoas, ocasionada pelas diferenças sociais e má repartição de renda. A função do palhaço é fazer o possível para tocar e dar pequenos momentos de alegria a essas pessoas.’’ É com este pensamento que o artista catalão Jaume Mateu Bullich assume a identidade do palhaço Tortell Poltrona. Convidado do Festival Internacional de Londrina, ele apresenta hoje e amanhã, às 21 horas, no Cine-Teatro Ouro Verde, o espetáculo ‘‘Post-Clàssic’’.
Jaume Bullich foi fundador do Palhaços Sem Fronteiras, uma organização não-governamental de Barcelona, com projeção internacional e caráter humanitário, que busca aliviar as condições de vida das pessoas que vivem em campos de refugiados e zonas de miséria – especialmente crianças. Aliás, o projeto está sendo desenvolvido em Londrina, com um grupo de educadores e crianças do Jardim União da Vitória.
Acompanhado do pianista Victor Arman, Poltrona leva ao palco esquetes pinçadas do seu repertório de 28 anos de carreira artística. ‘‘São números que eu mais gosto, fáceis de transportar e que têm uma comicidade universal. Basicamente são as esquetes apresentadas pelo Palhaços Sem Fronteiras’’, explica.
A parceria com o pianista, segundo Poltrona, vem enriquecer a apresentação. ‘‘A música é importante porque registra os sentimentos e facilita o poder jogar no palco, sem marcações com a gravação. Afinal, nascemos para ser livres.’’ Além dos números artísticos, Poltrona conta no palco a história do mundo dos clowns, recuperando a imagem dos antigos palhaços.
Na opinião do artista, a arte do palhaço está em expressar as sensações comuns do ser humano. ‘‘Existe uma diferença entre o lado cômico e o humor sobre a realidade. O palhaço faz humor sobre conceitos de vida, de amor’’, acredita.
Tortell Poltrona diz ter trabalhado com grandes artistas e famílias circenses, mas que seus grandes e verdadeiros mestres são as crianças. ‘‘Elas são muito emocionais. Tudo o que sentem são capazes de demonstrar.’’ Ele salienta ainda que o que mais interessa não é o riso, uma característica comum para o palhaço: ‘‘o mais importante é a emotividade, é comunicar essas emoções, fazer o público sentir. Essa capacidade de sentir deve ser compartilhada. O espetáculo é um pouco disso’’. Toda a magia do palhaço, para Tortell, está exatamente nessa troca com o público. ‘‘Para eles, eu sou o palhaço. Para mim, o público é meu palhaço. É ele quem me faz rir’’, declara.
Filho da ditadura espanhola, Jaume Mateu abandonou os estudos em Economia Política para seguir a carreira de palhaço. A escolha, para ele, foi acertada. O artista lembra de sua infância politizada, ao falar como catalão. ‘‘Não podíamos falar nossa própria língua, tudo era proibido. Com a transição da democracia, os processos anarquistas, tivemos muito sofrimento. Cheguei à conclusão que somente a cultura poderia salvar os homens da miséria’’, recorda-se. Foi então que tornou-se palhaço, tarefa nada simples. Na Espanha, segundo conta, a palavra também carrega um sentido pejorativo. ‘‘O meu ofício era um insulto – palhaço! –, mas estava contente por me identificar com os marginalizados.’’
Anos mais tarde, Tortell Poltrona torna-se dono de um circo na Espanha, trabalha como palhaço profissional e hoje se realiza com o trabalho voluntário desenvolvido no Palhaços Sem Fronteiras. E faz questão de lembrar das experiências vividas em Kosovo, onde sua atuação era projetada numa telão para as crianças assistirem, ou na Guatemala, onde o grupo de palhaços criou um espetáculo para ensinar os cuidados básicos com a higiene bucal. Ou ainda ao conhecer crianças que moravam numa região desértica, sem água, sem luz, sem casa... ‘‘E elas achavam que o resto do mundo era exatamente igual àquilo’’, conta.
‘‘Post-Clàssic’’, espetáculo do palhaço Tortell Poltrona, de Barcelona. Direção: Jaume Mateu. Música ao vivo: Victor Arman. Desenho de iluminação: Nani Vals. Desenho de som: Roc Mateu. Assistente de direção: Montserrat Trias.

mockup