Com sua abordagem sutil e hipnótica, uma estética estilizada e intrigantes efeitos de espelho, ''O Chamado'' é um filme atípico, uma obra pós-moderna que transcende o raquitismo de um gênero moribundo para se alimentar de obsessões e fobias de uma sociedade a nossa, alguém duvida? inescrupulosamente assediada por uma mediatização excessiva. O filme, sufocante enquanto argumento mas um alívio como proposta de renovação, está a partir de hoje no circuito brasileiro (veja a programação de cinema na página 2).
Após a morte da sobrinha em condições mal explicadas, uma combativa repórter, Rachel Weller (Naomi Watts) sai a campo e começa a investigar uma estranha história. A de que não só a garota mas outras pessoas também morreram uma semana depois de assistirem a uma misteriosa fita de vídeo. Durante a exibição do tal vídeo maldito, as vítimas recebem uma chamada telefônica com a advertência que soa como ameaça: ''restam a você somente sete dias de vida''. Com o amigo Noah (Martin Henderson), seu próprio filho (David Dorfman) e ela mesma ameaçados, Rachel vai em busca da origem do vídeo sinistro na tentativa de desmistificá-lo.
''The Ring'' é a refilmagem de uma produção japonesa dirigida por Hideo Nakata, em 1998, e ganhadora do prêmio de melhor filme fantástico do Festival de Sitges, na Espanha. No Japão, o imenso êxito de bilheteria originou uma sequela, uma ''prequela'', uma série televisiva e uma HQ. Não era para menos: na base do sucesso, a novela ''Ringu'', de Suzuki Koji, considerado o equivalente japonês de Stephen King. Hollywood (leia-se DreamWorks), sempre de olho nos sucessos de terras estrangeiras como fonte restauradora de mananciais criativos exauridos (leia-se mediocrização galopante), correu na frente, comprou os direitos e chamou Gore Verbinski para dirigir o ''remake''.
O diretor, irreconhecível depois do miserável ''A Mexicana'', não decepcionou e assina um filme psicológico audacioso, construído à margem do cinema de horror tradicional. Por sua dimensão visual e cerebral incomuns, é lícito localizá-lo em algum ponto entre o cinema de arte e de ensaio cercanias de David Linch e BuÀuel e o Horror com maiúscula, espécie desrespeitada e ameaçada na esquisita cinediversidade contemporânea.
Construído sobre uma coleção de planos carregados de símbolos que vão sendo elucidados à medida em que a investigação de Rachel prossegue, ''O Chamado'' é no geral uma alusão ao poder da imagem sobre o espectador, sobre as relações entre o elemento humano e a tela. Neste sentido, é fundamental a cena mais importante da fita de vídeo, aquela da mulher diante do espelho. Olhando a câmera através do espelho, é para o espectador que ela olha, numa espécie de procedimento auto-reflexivo em relação à própria origem da fita de vídeo. Pode-se observar não apenas a denúncia do voyeurismo imoral de uma sociedade subjugada, mas também os efeitos perversos de uma mídia manipuladora da imagem. Em ''The Ring'', a maldição se nutre do medo daqueles que assistem a fita, exatamente como os telejornais se abastecem do medo dos telespectadores ao difundir as mazelas do mundo crimes, acidentes, catástrofes, guerras.
Enfim um filme de horror verdadeiramente assustador, que não inflinge à platéia o habitual palhaço mascarado correndo atrás de adolescentes com uma longa faca na mão a sequência inicial, com as duas garotas sozinhas na casa, é uma inteligente falsa pista. Aqui, o elemento do calafrio é um ''inofensivo'' aparelho de tevê que todos temos em casa. Apenas a lamentar a presença inútil de alguém que ''vê gente morta'', procedimento banalizado à exaustão depois de ''O Sexto Sentido'' e que no filme funciona como um péssimo clichê. Por outro lado, a opção por atores quase inteiramente desconhecidos favorece a trama quando de fato é boa. E aqui ela é boa de fato. (C.E.L.J.)

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