Alguém de memória mais acurada deve se lembrar da guerra na Somália, país da África Oriental, há quase dez anos. Da missão humanitária da Organização das Nações Unidas no início dos anos 90 para salvar o país de uma pobreza dilacerante. Do inferno que logo se seguiu, colocando frente a frente a força militar da ONU, empenhada nos propósitos humanitários, e milhares de somalis muito bem armados. Da escalada de violência como resultado do envio de tropas americanas de elite – os Rangers e a Delta Force – com a missão de restabelecer (sic) a ordem em um país esfacelado. E ainda deve se recordar dos sacos de arroz com a bandeira norte-americana atirados à população.
Estamos em Mogadíscio, capital da Somália. É domingo, 3 de outubro de 1993. 140 soldados Rangers e Delta Force recebem incumbência especial: tomar de assalto o mercado Bakara, no centro da cidade, e capturar dois homens de confiança do general Mohamed Farrah Aidid, o poderoso senhor da guerra. A missão, programada como uma rápida, indolor intervenção cirúrgica, programada para durar no máximo uma hora, vai se transformar afinal num pesadelo de 18 longas horas e na maior derrota americana desde a derrocada no Vietnã. É este episódio que ‘‘Falcão Negro em Perigo’’ (veja a programação de cinema na página 2) coloca sob a lente de aumento, felizmente sem nenhum pudor ou constrangimento.
‘‘Black Hawk Down’’ rasga com violência quase nauseante a sutura de uma ferida já quase cicatrizada. O filme de Ridley Scott não conta nada: mostra o que é a guerra deste novo-velho século. A luta de ricos contra pobres, de brancos contra negros, do asséptico e tecnológico mundo (pós) moderno que se confronta com a barbárie medieval em muitos países. Na confusão de sons, imagens e odores (que o espectador obviamente não sente mas aqui tem a obrigação de imaginar, ou intuir, ou o que for) que se misturam na arena de batalha, há sangue civil e miliciano, sangue e líquido orgânico, há ira e ranger de dentes, dor e maldição. Tudo exposto mas absolutamente isento: nenhuma sentença moral, nenhuma parcialidade. Puro olhar da câmera, caleidoscópio sangrento de imagens que tudo reflete, sem regras eou hierarquias.
Scott mostra mas não julga. Porque a narrativa implicaria com certeza em tomada de posição, em subjetividade estranha ao olhar lúcido e implacável do instrumento mecânico. Visivelmente fascinado pela espetaculosidade da batalha, ‘‘Falcão Negro em Perigo’’ não exprime nenhum juízo, e esta atitude é definidora: eis aqui a guerra do século vigésimo-primeiro, assim como está na tela. É um filme material, feito de corpos, de líquidos orgânicos, poucas e confusas palavras que viajam desordenadamente através do éter. Casas, paredes, tetos, helicópteres e veículos blindados em movimento, armas sofisticadas e rudimentares, visores infravermelhos. A guerra se materializa, se concretiza, desprovida de ideologias, afasta-se de seu componente humano para tornar-se oposição de objetos humanos e objetos inanimados. Um desastre monumental, para o terceiro milênio que ainda mal engatinha.

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