''É melhor sentir ódio do que não sentir nada.''
Esta frase pode sem encontrada nos mais diversos romances policiais. Ela determina o ódio como combustível imprescindível para os acontecimentos. Tanto para criar violência quanto para destruir a violência.
Em ''O Redentor'', o escritor norueguês Jo Nesbo inverte essa premissa para: ''Melhor não sentir nada do que sentir ódio''. Mas não no sentido pacifista. No sentido de frieza. Gerar violência ''do nada'' parecer possuir muito mais impacto do que a motivação pelo ódio. Resumindo, tudo que pode ser explicado tende a ser mais aceitável.
Lançado pela editora Record, ''O Redentor'' é o quarto romance de Jo Nesbo publicado no Brasil. Considerado um dos grandes novos nomes do gênero policial europeu, o escritor já vendeu milhões e milhões de exemplares de suas histórias.
''O Redentor'' traz de volta o policial Harry Hole - personagem principal de vários livros do autor - em uma nova investigação. Na véspera de Natal, num show beneficente do Exército da Salvação, um dos membros da instituição é assassinado no meio da multidão. Um único tiro no meio da testa.
Apesar de a execução ter acontecido na presença de centenas de testemunhas, nenhuma delas consegue descrever o rosto do assassino. O retrato falado simplesmente não pode ser realizado. Para investigar o caso, entra na parada Harry, o investigador que desperta pouca simpatia entre os colegas de trabalho.
Alcoólatra, Harry vive um momento delicado de sua existência. Está lutando para parar de beber e, para piorar a situação, foi despachado pela namorada que anda dormindo com outro homem mais confiável. Ou seja, o cara está com os dois pés na lama. E para piorar ainda mais, é odiado pelos companheiros de trabalho. Está um passo de ser demitido.
Mesmo na lama, Harry descobre que o criminoso é um matador profissional. Um profissional detentor de uma frieza exemplar, de uma determinação imbatível. Possui o dom do mimetismo, a capacidade de ''mudar de rosto'' diante do olhar das pessoas. É capaz de gravar na visão das pessoas rostos diferentes, faces distintas. Não é um instrumento do ódio, é movido apenas pelo nada.
A virtude cultivada pelo assassino está na eficiência em matar. E o detetive, no meio de uma bebedeira, descobre que o sujeito matou o cara errado. E fatalmente precisa corrigir o erro e mandar para o cemitério a pessoa certa. A charada já se tornou recorrente do gênero policial contemporâneo: para encontrar o assassino é necessário descobrir antecipadamente a vítima.
Nos romances de Jo Nesbo não há grandes explosões, nem tiroteios infindáveis, muito menos perseguições em carros desenfreados. Em ''O Redentor'', por exemplo, Harry não utiliza armas. Na única situação em que tem um revolver nas mãos, ele está sem balas.
O cenário da história é Oslo, capital da Noruega. Mas não apenas a cidade dos cartões postais, mas aquela das ruas povoadas por moradores de rua e usuários de heroína. Isso parecer ser uma característica da literatura de Jo Nesbo: uma paisagem humana que, diante da riqueza, faz a opção pelo nada.
Mendigos perambulando pelas ruas da rica economia de Oslo e junkies vagando a esmo sem serem importunados pela polícia. Esse é o cenário. E, claro, todo sistema social se reproduz na corporação policial. Há pessoas boas e más. Há policiais bons e maus. O mundo precisa de justiça, segundo detetive Harry. Mas não a justiça do sistema jurídico, policial e político, eles são capazes disso. Existe uma justiça mais eficiente, devidamente com os olhos fechados perante as leis. Aquilo que não pode ser dito.
Nascido em Oslo em 1960, Jo Nesbo é economista de formação especializado em análise financeira. Em 1996 fundou a banda de rock Di Derre, onde atua até hoje como compositor e vocalista com seis discos gravados. Já escreveu 12 romances policiais traduzidos para mais de 40 idiomas. Três deles, além de ''O Redentor'', publicados no Brasil pela editora Record: ''Garganta Vermelha'', ''A Casa da Dor'' e ''A Estrela do Diabo''.
Serviço:
''O Redentor''
Autor: Jo Nesbo
Editora: Record
Tradução: Grete Skevik
Páginas: 420
Quanto: R$ 39,90
Fragmento:
- Você investiga assassinatos éticos?
- Sim e não. É preciso viver.
Ele mostrou um leve sorriso.
- Então não há grande diferença entre mim e você, não é?
- Evidentemente.
- Mas não é bem assim, certo? Você já descobriu que a culpa tem nuances que você não conhecia quando decidiu se tornar policial e salvar a humanidade do mal. E em geral, há pouco mal, mas muita fraqueza humana. Muitas histórias tristes. Mas, como você diz, é preciso viver. Então começamos a mentir um pouco. Para quem nos cerca e para nós mesmos.
Harry não encontrou o isqueiro. Se não acendesse logo aquele cigarro, ia explodir.
(Fragmento de ''O Redentor'' de Jo Nesbo)

mockup