ReproduçãoPosso falar um minuto?
A frase acima é muito usada em mesas de bar, principalmente quando os graus etílicos já impedem uma conversa civilizada. Boteco não tem mediador, portanto ganha-se no grito. Os comentaristas brasileiros, em goleadora maioria, são fiéis a tal princípio. Exemplo é o clima de informalidade zombeteira depois da morte do jornalista e escritor Paulo Francis. Desde que ele morreu, tanta besteira já foi gritada a respeito e eu, mesmo bravo, suportei calado. O dedo indicador nem se levantou pedindo aparte. E toca ouvir as línguas enroladas, a amnésia imperando como expressão do subdesenvolvimento mental, comentários deprimentes que nem mesmo 10 mil Prozacs conseguiriam aplacar, ah esta ressaca monumental e coletiva. ‘‘De dez em dez anos, os brasileiros esquecem a última década’’, dizia Ivan Lessa, amigo de Francis. Amargo e certo. O Brasil não precisa ingerir álcool para ficar bêbado e esquecer. Faz parte do metabolismo. Conhecedor dessa particularidade nacional, preferi o silêncio.
Resolvi falar só agora, meses depois, inspirado pela frase que inicia este ensaio, ela que é um cauteloso pedido de 60 segundos de atenção, dirigido não a nós, mas a Jaguar, nos tempos do jornal Pasquim, a metralhadora inteligente contra a ditadura militar. O cartunista Jaguar, timoneiro do velho Pasca, recebia os textos de Francis, já então enviados de Nova York. Posso Falar um Minuto? Era o tempo em que Francis atacava a Guerra do Vietnã, Nixon e a burocracia soviética com a mesma ferocidade. Só quem não leu seus artigos sobre os massacres americanos no Extremo Oriente pode acusá-lo, sem corar, de reacionarismo.
Francis falou por muito mais de 60 segundos. Sua vida era falar. O artigo em questão, como tantos do autor, era uma pequena coletânea de frases curtas e faiscantes, assim como raspas de aço, tal qual certa vez alguém definiu a fala de Lênin. O estilo é algo influenciado pelo tempo histórico, mas se preserva no cerne do indivíduo; é abordado pela maré dos acontecimentos, mas se incorpora ao espaço mais recôndito da mente, preso a uma estranha atemporalidade. A voz de Francis atravessou aquele presente soturno dos anos da ditadura, invadindo o passado do governo Kubitscheck com críticas teatrais desbravadoras, chegando até nossos dias de Império Tucano, em que ele nos irritava com suas opiniões neoconservadoras. Paulo Francis era a máquina do tempo adornada com óculos fundo de garrafa. Quatrolho! As armações do óculos, suponho, eram de metal. Lênin era metálico; que diremos de Trotsky? Este revolucionário russo, dez anos mais novo, chegou a incomodar Lênin com sua língua de fogo, da qual ninguém escapava. ‘‘Ele fala demais’’. Foi o maior orador bolchevique, organizador do vitorioso Exército Vermelho, teórico da revolução permanente, crítico literário e um dos maiores historiadores do século. Morreu com golpes de picareta na cabeça, desferidos a mando do inimigo e ex-companheiro de revolução, Stálin. Trotsky era a maior influência estilística de Francis. Este deixou o comunismo, mas não a lábia, o raciocínio dialético, o sarcasmo bolchevique. A ferro e fogo.
Enquanto escrevo, uma pequena fotografia de Leon Trotsky me observa. Olhar severo de judeu que, sabe, vai entrar para a História. Dá medo. Jaguar contava que, nos anos 60, as namoradas de Francis tinham que escutar óperas de Wagner a todo volume, e encarar um enorme poster de Trotsky bem perto da cama. Sob a vista de Trotsky, abro a gaveta e percebo que armazenei grande quantidade de anotações sobre Francis. Entre recortes, grifos a caneta, comentários à margem, exclamações indignadas, revelam-se os fatos da biografia de alguém que eu não julgava passível de morrer assim tão facilmente. Francis parecia intransponível pela fatalidade. Aquela máquina do tempo revestida de óculos simulava resistência hercúlea. Só que o homem não era de ferro.

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