O HOMEM QUE DEVASSOU O MITO
PUBLICAÇÃO
sábado, 23 de junho de 2001
Zeca Corrêa Leite De Curitiba 
Toninho Vaz se autodefine como jornalista clássico, daqueles que conheceram redação no tempo da linotipo, batucou muito em máquina de escrever até ver a explosão tecnológica mudar todo o cenário. A sessão de autógrafos do seu primeiro livro, Paulo Leminski O Bandido que Sabia Latim, marcada para dia 3 de julho na Livrarias Ghignone/ Rua das Flores, em Curitiba, mostra que ele também avançou nas letras: deixou temporariamente as notícias para alinhavar a vida do poeta.
Essa guinada na carreira ele deve a Alice Ruiz, mulher de Leminski, que fez o convite para que escrevesse a história do marido. Aceito o desafio, deu-se início o trabalho de coleta de material. Foi um ano de pesquisas, e mais um para escrever, arredondar, deixar o texto pronto. Quando a Editora Record mandou um e-mail comunicando que o livro estava pronto foi um susto. Daqueles de quando se tem um filho.
Nasceu era o título da mensagem. Amenizou 40% da minha ansiedade, confessa o escritor. Ela só iria se esvair por completo depois que tivesse o livro em mãos, folheasse, cheirasse, virasse de todos os lados. Fiquei uns três dias manuseando, confessa. Leu as 375 páginas para ver os erros e descobriu umas quatro coisinhas bobas, de digitação. Toninho gostou tanto da experiência desse filho gráfico que pensa em arranjar um irmãozinho. O jornalista foi acometido pelo vírus da literatura biográfica e saúda essa descoberta. A seguir a entrevista que ele concedeu à Folha2
Por que Paulo Leminski para essa estréia?
Eu não escolhi, fui escolhido. Agora, se fosse escolher, seria Leminski. A Alice Ruiz, mulher e poeta com quem ele viveu durante 19 anos, me procurou e fez uma sugestão, dizendo que era tempo de se falar quem foi Paulo Leminski. Isso porque sobretudo em Curitiba, mas também em São Paulo e no resto do Brasil se encontram porções onde ele é um mito. Quando digo porções é a intelectualidade, pessoas ligadas à literatura, que transformaram o Paulo num mito. Aqui em Curitiba é forte essa mitologia leminskiana. Sabíamos que Paulo tinha a vida muito pouco retratada. Mesmo nós que éramos íntimos, não sabíamos como as coisas tinham exatamente acontecido com ele. Foram dois anos de trabalho, abençoado por Alice e as duas filhas que sempre me apoiaram, sempre me deram as informações que pedi. Massacrei-as com perguntas durante um ano de pesquisas, depois veio mais um ano de redação e acabamento.
Tirando o mito, que pessoa ficou de Leminski?
Uma das coisas com que mais me preocupei foi que minha amizade e admiração pelo Paulo não obscurecesse o lado humano dele, que eu não fizesse uma apologia. Hoje a sinceridade me parece uma característica forte do meu trabalho. Há coisas que não gostaria de abordar e abordei. Ele, que tinha forte influência na minha vida profissional, certamente esperaria que eu trabalhasse dessa forma, com sinceridade. Ao mesmo tempo nunca me preocupei com revelações sobre Leminski porque sei que a coisa mais obscura dele ainda é notável. Ou seja, ele não tem nódoas. Não existe nada a se lamentar em sua vida. Como ser humano, teve mazelas na vida como qualquer pessoa, mas nada que seja constrangedor.
Com a morte de Leminski fortaleceu-se o mito, até com um certo modismo em Curitiba. Fala-se mais do que se lê Leminski, assim como se elogia mais Villa-Lobos do que se ouve. Que retrato o livro traz do homem, com suas fragilidades e vaidades?
Eu abordei dois aspectos, particularmente, que você acaba de citar: a fragilidade e a vaidade. As contradições. Acho que cumpri com essa tarefa. Numa resenha do Jornal do Brasil, Geraldinho Carneiro usa de uma expressão onde ele diz: Biógrafo se confessa admirador do biografado, mas faz um retrato humano e crivado de contradições. O fato do mito se permanecer, mais se fala do que se lê, é próprio de pessoas brilhantes que morreram cedo. Raul Seixas, John Lennon a morte deles, prematura, transformou-os num mito natural. Sempre me perguntam se o livro abala ou reforça o mito. Digo que nem era minha intenção desfazer, mas se assim o fosse seria difícil porque a qualidade do trabalho do Paulo se dá em cima de fatos reais. Ele realmente era excepcional em sua performance. Isso é admirável e, forçado por uma morte prematura, uma vida absolutamente singular, um sujeito engajado no difícil, chama a atenção. Não é corriqueiro você encontrar pessoas que tiveram uma produção literária cultural e intelectual como a dele.
Então o livro traz uma imagem já cultuada?
Não. Ele revela muitas faces do Paulo Leminski. Por exemplo, uma coisa que iria aborrecê-lo muito se vivo fosse, é que descobri um filho dele que ninguém conhecia. Paulo sabia disso, mas nunca falou. O fato de eu revelar isso certamente iria contrariá-lo. A mãe é a primeira mulher dele, tinha o nome de Nevair da Costa Leminski. Ele não iria gostar dessa revelação, como de outras tantas que estão na obra.
A biografia é uma grande reportagem?
Ela se diferencia num certo momento, em que deixa de ser somente jornalismo. Tem que ter um sabor literário. Senão, como fazer para o leitor acompanhar as 375 páginas da minha reportagem? Você precisa ter recursos estilísticos para conseguir levar o leitor até o fim da sua jornada. Aí é menos jornalismo e mais literatura.
A partir deste desafio pode-se pensar na criação de um romance?
O romance ficcional sempre foi um elemento muito estranho para mim, tenho dificuldade de criar uma personagem, um enredo. Não é dificuldade técnica, é vocacional. Mas agora percebi que basta mudar um cliquezinho no seu raciocínio, para se ver que a ficção é um monte de mentiras bem elaboradas, com a intenção declarada de se fazer um romance. Acho que vou partir para a ficção, a partir do relato jornalístico. Mas sou fascinado por revelar verdades e realidades; faz parte do meu sangue jornalístico, de repórter. Gosto de revelar o que é real.
A biografia deu o gostinho para escrever outras?
Tenho alguns convites, que não estou considerando, porque estou namorando os temas de meus personagens. Gostaria de fazer a biografia de Tim Maia, ou de Roberto Carlos, Torquato Neto. Vou tentar fazê-las, só estou esperando que meu livro me abra algumas portas. E como ele está sendo lançado agora, vou decidir isso nos próximos meses. Ou semanas, na melhor das hipóteses.
Dos três, qual seria o primeiro?
Se fosse para escolher, preferia fazer a biografia do Tim Maia. Sei que é difícil, a família está brigando muito. Eles querem participação no lucro do livro. Não existe isso. Por exemplo, este livro sobre Leminski é meu. É produto do meu trabalho. Queria também escrever sobre Torquato Neto, por ser um poeta marginal, igual ao Paulo. Morreu novo, não tem uma obra tão significativa quanto a do Leminski, porque era uma alma muito mais conturbada. Não era uma pessoa que tivesse preocupação de construir uma obra. Sua maior obra foi a vida que levou: marginal, bandida.
O interesse por Roberto Carlos tem alguma coisa de fã...
Totalmente. Minha geração foi embalada por Roberto Carlos. Quero que Vá Tudo Pro Inferno é um grito de guerra inédito. Somente anos depois Caetano Veloso viria com outra renovação, Alegria, Alegria. Há quase 30 anos moro no Rio de Janeiro; com o Chico Buarque cruzo quase todos os dias e com o Tom Jobim eu tomava chopp. Lá, qualquer um é figurinha fácil, menos Roberto Carlos. Ele não anda na rua, é um mito. Acho a história do Roberto misteriosa. A gente sabe muito bem que há aspectos da vida dele nunca revelados exatamente.
O que lhe chama a atenção nessas pessoas que gostaria de biografar?
O desafio maior que eu tenho para retratá-los bem e fielmente é encontrar o equilíbrio aonde esteja a verdade deles, a verdade que quero tratar. Conheci várias pessoas que detestavam Paulo Leminski e outras que amavam. Tenho que descobrir por que alguns detestavam. E também o contrário. Então, no final, tenho que encontrar o equilíbrio entre essas coisas.


