São Paulo - O dilema do crossover não tira o sono de Jamie Cullum. Em quatro discos (o próximo está no forno) o pianista e cantor inglês, dono de um melange de pop e jazz, transita sem crise entre fronteiras estilísticas, desenvolvendo uma mistura mais pop que Diana Krall, menos jazz que Esperanza Spaulding: o equivalente a uma Norah Jones para a moçada. Mas Cullum, que vem ao Brasil em maio para o festival Natura Nós, sabe tocar piano. Tem um vocabulário de jazz consideravelmente desenvolvido e não tem medo de engatar o bebop no pop rock. Durante o processo de gravação de seu novo disco, o pianista falou sobre sua identidade híbrida.
Afinal, você é um jazzman que virou pop star ou um aspirante a pop star que virou jazzman?
Jamie Cullum - Tenho de escolher? Sou um músico de jazz que cresceu ouvindo pop, rock e hip-hop. Para mim, não há necessidade de separar os estilos. Obviamente, como compositor, compreendo quando as pessoas me colocam em uma categoria fixa. Mas há tantos elementos do jazz no hip-hop, na música de grupos como o A Tribe Called Quest e na dos Roots. Há tantos elementos do rock na música de Herbie Hancock e Miles Davis, assim como as harmonias jazzísticas estão presentes nas composições de cantores como Jeff Buckley e Nick Drake, de grupos como o Steely Dan, o R.E.M. e outras bandas de rock. Na minha cabeça, tudo se encaixa perfeitamente. E passei os últimos 15 anos da minha vida feliz por não ter de separar as coisas.
Mesmo assim, o seu estilo pianístico tem uma influência consideravelmente assimilada de Horace Silver e outros mestres. Você passou muito tempo estudando-os?
Jamie Cullum - Horace é um ótimo exemplo. O que me levou à música dele e de outros foi a habilidade que tinham de tocar diferente toda vez que interpretavam a mesma peça. Tinha participado de bandas de rock até então, e sempre ensaiava milhares de vezes para tocar as músicas do mesmo jeito. Mas a possibilidade de conversar com os músicos no palco e reproduzir o que eu sentia no momento me ganhou.
Existe preconceito dos músicos de jazz por você misturar a linguagem com música pop?
Jamie Cullum - Isso sempre acontece antes de eles tocarem comigo. Eles sempre acham que vai ser uma coisa e acaba sendo outra. O meu amor pela música é sincero, e minha disciplina para conhecer o jazz cada vez mais, também. Eu tenho muito a aprender, mas passei muito tempo aprendendo esta música, então posso dizer que sou verdadeiro.
Como surgiu esse amor?
Jamie Cullum - Eu morava no Reino Unido com os meus pais. Estudava e descobri o jazz aos poucos. Procurei pessoas que tinham o mesmo interesse e aos 16 anos comecei a trabalhar como músico. Eu tocava em bandas de rock por prazer, mas percebi que poderia ganhar a vida tocando em barzinhos.
Em que ponto de sua carreira você começou a sentir-se confortável com o estilo híbrido?
Jamie Cullum - Provavelmente depois dos meus dois primeiros discos. Um conselho que sempre dou a jovens músicos quando eles me perguntam como fazer para encontrar a própria voz é ''gravem um disco''. Só me encontrei mesmo depois do quarto álbum. Esse amadurecimento artístico é parte do que faz as coisas se manterem frescas e interessantes. Ouvir um artista crescer, desenvolver seu próprio estilo é, para mim, algo fascinante.
Você tem um programa de jazz semanal na BBC Radio 2 e é conhecido por ser rato de sebos. Possui muita música brasileira na coleção?
Jamie Cullum - A última vez que estive no Brasil, comprei um vinil do Bossa Três. Excelente. Também comprei alguns discos do Milton nos anos 70, algumas coisas do Gil e dos Mutantes. Mas gosto de coisas novas também, como a Roberta Sá, que cantará no festival.
Serviço
Festival Natura Nós
Quando - dias 21 e 22 de maio
Onde - Chácara do Jockey, em São Paulo
Atrações - Jack Johnson, Jamie Cullum, Maria Gadu, G.Love, Laura Marling, Roberta Sá e António Zambujo, Bid e convidados, Barbatuques, Corpo do Som, Toquinho e convidados
Mais informações - www.naturamusical.com.br

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