O homem em discussão
Um espetáculo para os ouvidos. Assim a diretora Regina Bertola define O Fuso - História de Homens, montagem que a companhia mineira Ponto de Partida estréia hoje no Guairinha, dentro da programação oficial do Festival de Teatro de Curitiba (FTC).
Baseada no conto A Terceira Margem do Rio, um dos textos mais fantásticos de Guimarães Rosa, Regina Bertola fez a adaptação desta obra que discute a problemática da identidade masculina no final do milênio. Segundo a diretora, com a mudança de papéis do homem e da mulher, o homem encontra dificuldades para inscreve-se no novo contexto, enquanto a mulher exige respostas que ele ainda não elaborou.
A trama de O Fuso... parte da perplexidade de um filho que vê o pai abrir mão de todos os papéis que até então lhe eram impostos e optar por um caminho inusitado. O pai larga tudo e vai executar um papel pessoal. O filho fica perdido com isso. Não sabe o que é certo ou errado, com quem ele vai se identificar, explica Bertola.
No espetáculo, apenas um personagem se configura em cena, o filho, que é representado por três atores (Felipe Saleme, João Melo e Lido Loschi). Essa escolha, segundo Regina Bertola, foi a forma encontrada para formalizar a incapacidade do personagem de harmonizar-se. Trabalhar com três atores foi um grande desafio. Primeiro porque nos obrigou a pensar de forma teatral. E também porque o texto é um conto, uma narração feita de maneira trágica, na qual o filho está tentando se resolver, diz.
Na leitura feita pelo grupo, todo o espetáculo foi calcado no ponto de vista do filho, que sempre procura como identificar-se - como homem - com um pai que cumpria o nunca imaginável; como lidar com a contradição de não encontrar as respostas para aquele fato e, ao mesmo tempo, de querer agir como ele, ter sua coragem, ocupar seu lugar.
A montagem do Ponto de Partida buscou preservar integralmente o texto, acentuando sua oralidade. Quisemos trabalhar com a palavra, que é a expressão do pensamento humano. O grande desafio é fazer essa palavra virar ato. A Terceira Margem do Rio faz isso. É como se a palavra ganhasse forma, resume Regina Bertola.
O fato de ouvir o texto, de acordo com a diretora, possibilita uma nova compreensão, que talvez esteja escondida na musicalidade e na estranheza da linguagem. Se a pessoa ler o texto vai ter uma certa compreensão; se ouvir, tem outra, observa. Ela diz que o próprio Guimarães Rosa trabalhou a obra como se fosse uma partitura musical. Uma musicalidade que redimensiona a língua. Por isso os três atores elaboraram uma pesquisa de timbres para acompanhar os desdobramentos vocais propostos pelo autor.
O Fuso... é o segundo espetáculo de uma trilogia composta também pelas peças A Roca e O Tear - Histórias de Amor (esta, com estréia prevista para o segundo semestre). O grupo se propôs a montar a trilogia quando completou 18 anos de existência.
SERVIÇO:
- O Fuso - História de Homens, adaptação da obra de Guimarães Rosa. Com o grupo Ponto de Partida (MG). Hoje, às 21h30, e amanhã, às 20 horas, no Guairinha. Direção e adaptação: Regina Bertola.Tião Rocha/DivulgaçãoO Fuso é o segundo espetáculo de uma trilogia encenada pela Companhia Ponto de PartidaJackeline Seglin





