PERSONAGEM O HOMEM DAS ETERNAS MARCHINHAS Braguinha, um dos principais símbolos do Carnaval brasileiro, fala à Folha2 sobre o gênero musical que o consagrou Agência FolhaBraguinha: ‘‘Eu acho o Carnaval de hoje muito bom. Mas sinto saudade dos antigos, não vou negar, mas quem mudou não foi o Carnaval, fui eu’’ Agência Folha Braguinha: paixão pela Mangueira é antiga e a recíproca é verdadeira Antônio Mariano Júnior De Londrina Tocam pouco, mas ainda tocam. Principalmente nos clubes daquelas cidadezinhas do interior em que dar voltas no salão é mais que – para alguns – algo risível; é diversão pura, um jeito todo particular de se pular o Carnaval. Ah, as marchinhas!! ‘‘Ô, Balancê, balancê/ Quero dançar com você/ Entra na roda, morena pra ver/ O Balancê, balancê.’’ Essa é do Braguinha. Essa e outras incontáveis composições que continuam, mesmo que humildemente, contando a história do Carnaval brasileiro. E falar do Carnaval brasileiro e não tocar no nome de Braguinha é uma ingratidão de diâmetro incalculável. Podem as marchinhas de João de Barro, ou melhor Braguinha (ele assinava as composições das duas maneiras), passar discretamente nos carnavais de hoje em dia. Mas todo mundo sabe um trechinho que seja de uma de suas composições. Ah não? Vai dizer que não se lembra de um pedacinho de ‘‘As Pastorinhas’’. Ou do ‘‘pararapanpan-pan-pan’’ de ‘‘Touradas em Madrid’’. Ou uma frase que seja de ‘‘Pirata da perna-de-pau’’. Ou pelo menos assoviar ‘‘Chiquita Bacana’’. Agora, modernos e antigos (aí cada um se encaixa na categoria que melhor lhe convier) sabem cantarolar pelo menos o refrão de ‘‘Balanc꒒ . Negócio é o seguinte: Braguinha é um dos maiores compositores brasileiros de todos os tempos. Passeou por diversos gêneros, do samba, samba-canção (‘‘Copacabana’’ feita com Alberto Ribeiro é um dos mais memoráveis), samba-choros (a melodia de ‘‘Carinhoso’’, feita por Pixinguinha, recebeu versos seus em 37), valsa, polca e até rumba. No entanto, a sua personalidade artística acabou sendo ressaltada mesmo com as marchinhas gravadas por alguns nomes de peso da MPB – Carmen Miranda, Emilinha Borba, Sílvio Caldas, Orlando Silva, Mário Reis, Dircinha Batista, Caetano Veloso, Maria Bethânia e Gal Costa. Aliás, essa última foi a responsável por trazê-lo novamente à luz da mídia, em 79, quando regravou a célebre ‘‘Balanc꒒ (o registro original é de Carmen Miranda, em 37). O Brasil, com isso, se reconciliava com o Carnaval de Braguinha. E de marchinha em marchinha o fato é que esse respeitável senhor, batizado como Carlos Alberto Ferreira Braga, é mais que um excelente compositor; é um dos ícones do Carnaval brasileiro. Ele, modestamente, recusa o rótulo. ‘‘Posso ser um bom compositor, mas não me considero um símbolo do Carnaval’’– disse ele à Folha2, em entrevista por telefone, de sua casa no Rio de Janeiro. Aos 93 anos, a serem completados no dia 29 de março, Braguinha ainda não sabe se vai ou não dar uma olhadinha pessoalmente nas escolas de samba do Rio de Janeiro. Porém, se tudo der certo, vai prestigiar as agremiações cariocas e há de jogar um olhar mais distinto e apaixonado para a Mangueira. Se não der, para que existe a televisão, não é mesmo? A paixão dele pela verde e rosa é antiga. A recíproca também é verdadeira. Em 84, Braguinha emprestou sua vida e obra para que a Mangueira fosse a campeã do desfile com o enredo ‘‘Oh, yes, nós temos Braguinha’’. O compositor afirma que o Carnaval de hoje é muito bom, que o mais importante é alegria do povo, que todas as escolas são boas, enfim, essas coisas que todas as pessoas diplomáticas declaram. Porém deixa escapar: ‘‘Eu sinto uma certa saudade dos carnavais antigos, não vou negar.’’ Haja coração para se lembrar de tantas histórias. E por falar em coração, o dito cujo andou pregando umas peças, tempos atrás, no compositor. ‘‘Mas agora ele está curadinho’’ – afirma dona Astréa, sua mulher, que na extensão telefônica ajudou o marido a ‘‘ouvir melhor’’ as perguntas. ‘‘Ih, meu filho, liga não porque meu ouvido e meu telefone não andam muito bons não’’, disse um bem-humorado Braguinha. A seguir, os principais trechos da entrevista. Você ainda fica aceso quando chega o Carnaval? Ah, eu fico alegre, não é mesmo? O Carnaval do Brasil, principalmente o do Rio de Janeiro é uma beleza, uma alegria só. Então eu só tenho que ficar aceso... Você acha que os tempos da marchinhas de Carnaval eram melhores que agora ou não? Olha, filho, tudo muda... Todas as coisas mudam, não é? Se era melhor antigamente vai depender muito do jeito que as pessoas sentem o Carnaval agora. Eu acho bom o Carnaval de hoje, mas eu sinto uma certa saudade dos carnavais antigos não vou negar. Mas quem mudou não foi o Carnaval, fui eu. Como assim, Braguinha? (risos) Ah, eu não sou mais mocinho.... Quando se é mocinho a gente sente melhor as coisas, inclusive o Carnaval... Mas como estava dizendo eu prefiro as marchinhas... E uma boa parte do Brasil também prefere e canta, não é mesmo? Ah, sim o Brasil ainda canta. As marchinhas não vão acabar nunca... Mesmo sabendo que a memória do Brasil nunca foi boa? Mas o Brasil ainda canta as minhas músicas. É claro que não dá para a gente se lembrar de músicas e coisas a vida inteira, o tempo todo. Mas graças a Deus minhas músicas, minhas marchinhas são cantadas até hoje. Quer dizer, que você não teme cair no esquecimento, é isso? Não, não temo, graças a Deus!! Por que o Carnaval brasileiro é tão bom? Sei lá, deve ser porque nosso povo é naturalmente alegre. Eu sei que é difícil, mas se fosse para escolher qual marchinha você particularmente gosta? Ah... vou citar algumas: ‘‘Pirata da perna-de-pau’’, ‘‘Balanc꒒, ‘‘Chiquita Bacana’’ e ‘‘Touradas em Madrid’’. Aliás, Touradas em Madri tem uma história interessante porque foi desclassificada num concurso carnavalesco de 1938 porque alegavam ser ritmo estrangeiro, não é? Não me lembro direito o que houve, só sei que foi um grande sucesso apesar de os inimigos falarem que era ‘‘paso doble’’, ritmo estrangeiro, essas coisas. Você se considera um dos símbolos do Carnaval brasileiro? Ah, não. Eu sou apenas um compositor de Carnaval como muitos outros. Não é modéstia demais? Não é, meu filho, não é. Posso ser um bom compositor de marchinhas e de músicas para Carnaval mas existem outros igualmente bons. De fato tenho muitas músicas que fizeram sucesso e que são lembradas até hoje, mas não me considero um dos símbolos do Carnaval realmente. Para terminar você vai torcer para qual escola? Eu gosto de todas... Mas eu sou Mangueira (risos).