O homem das 300 canções
Ranulfo Pedreiro
De Londrina
Adoniran Barbosa foi taxativo:
Se você é compositor mesmo, faça agora uma música com o mote que eu quiser.
Em um maço de cigarros, o sambista temperamental do Bexiga anotou o assunto: contratos de risco para exploração de petróleo, tema em voga na época. Olegário Mazzer, o interlocutor, pensou um pouco. Em seguida, cantou:
Assinei um contrato de risco/ Sem risco/ E vou perfurar o teu peito...
Era um samba romântico, feito ali, na hora. A conversa seguia empolgada quando um sujeito apareceu e arrastou Adoniran para ser homenageado em um lugar qualquer. Olegário, que pensava em propor uma canção para o sambista gravar, nunca mais o encontrou.
Autor espontâneo, Olegário Mazzer vivia cantalorando seus temas, batucando com as mãos, tamborilando mesas. Quando a hérnia que lhe incomodava o abdômen se transformou em hemorragia levando-o à morte aos 70 anos na madrugada do último dia 1º o antigo temor de amigos e parentes virou realidade. Mazzer conservava sua obra, com mais de 300 músicas, na memória. Com exceção de faixas dispersas em discos de intérpretes variados, não sobraram registros. Seu trabalho quase não foi documentado, beira o esquecimento.
Trechos de várias melodias são lembrados por Clério Pellegrini, amigo do compositor desde a infância. Testemunha do maço de cigarro rabiscado por Adoniran Barbosa que Olegário lhe mostrou Clério não esquece as visitas diárias: A campainha tocava três vezes. Eu já sabia quem era. Aí ele ouvia música, lembrava de composições antigas. Eu deveria ter gravado essas conversas.
Bom de bate-papo, Olegário Mazzer entregava as próprias canções ao desleixo da lembrança, despreocupado com a preservação de seu acervo. Sempre que alguém o aconselhava a registrar sua obra, a resposta era imediata: Deixa para lá, ou: Eu me lembro de tudo. Tinha desapego ao dinheiro, cultivava outros valores. E carregava o luto profundo, interno e solitário, de dois filhos mortos. No rosto, revelava o gozador que improvisava anedotas, fazia imitações e cantava tirolês. Além de sambas, marchas, valsas e canções regionais, Mazzer era autor de músicas infantis, paródias e cânticos religiosos.
Farmacêutico experiente, costumava mostrar letras de música enquanto aviava receitas. Tímido, aplicava injeções com segurança. Quando, porém, se tornava alvo da prescrição, demonstrava medo. Adiou a cirurgia de hérnia duas vezes. Um dia, passando em frente da farmácia onde Olegário trabalhava, o jornalista e compositor Bernardo Pellegrini foi chamado com empolgação: Olha só esta letra. Enquanto isso, uma senhora tentava apresentar uma receita. Só um momentinho, senhora. Então, Bernardo, é boa?, perguntava. O talento, reprimido pelo trabalho, buscava espaço. Mas havia a preocupação com a família. Na dúvida, Mazzer preferiu não enfrentar a insegurança orçamentária que a carreira de compositor ainda hoje oferece.
A liberdade da geração dele era vivida clandestinamente. Um dia eu estava em casa, deitado na rede, tocando violão de papo para o ar, quando ele chegou. Olegário ficou muito feliz de ver essa liberdade de comportamento, recorda Bernardo, filho de Clério.
Outro que frequentou o topo da lista de amizades foi o jornalista Widson Schwartz, com quem Olegário compartilhou muita conversa e rodadas de chopp. Em uma das passagens, Widson e Olegário foram até o bar Bonanza, que ficava ao lado da redação da Folha, onde havia um chopp escuro servido em copos enormes. Tomamos não sei quantos e fomos dormir na casa da mãe dele, lembra Widson. Preocupada com a insistência com que Olegário ia ao banheiro, a mãe aconselhou: Vai examinar essa bexiga. Sarrista, Olegário insinuou que o volume eliminado era proporcional ao ingerido. Ele era uma alegria, não tinha tempo feio, completa.
Filho de imigrantes italianos, Olegário Mazzer nasceu em Sertãozinho, interior de São Paulo, em 1929. Sua família trabalhava em uma fazenda que pertenceu a Santos Dumont. Em setembro de 1940, a família desembarcou em Londrina, onde tinha parentes, após três dias de viagem em um caminhão carregado com a mudança. Nessa época, Olegário saía escondido com uma sanfona para tocar em um microfone com alto-falante localizado onde hoje se encontra o cruzamento da Avenida Rio de Janeiro com o Calçadão. Desde menino meu irmão teve o dom de compor, mas depois foi se separando da música para atender a família. Eu perdi um grande companheiro, foi muito difícil, confessa Ivanilde Aparecida Mazzer, emocionada.
Já em 1948, Olegário se apresentava junto ao irmão Otaviano na Rádio Londrina, com o grupo Tudo Azul. No ano seguinte mudou-se para São Paulo, onde entrou para a Dupla Tropical. Lá, frequentou rádios e conheceu muitos compositores. Posteriormente, Mazzer abriu uma farmácia em Mandaguari, onde foi homenageado com um placa instalada no posto de saúde da cidade. De Mandaguari foi para Santos, onde viveu o auge da carreira musical ao vencer Cartola na disputa para o título de Cidadão Samba. Em Santos, tornou antológico o samba Fim de Boate. Apesar do reconhecimento, deixou de cantar decisão difícil para um fã de Orlando Silva, para quem chegou a oferecer uma canção e voltou para Londrina como compositor e farmacêutico.
Ele foi forte, mas internamente era triste. Foi um camarada muito humano e procurou sempre ajudar os outros, assegura Otaviano Mazzer, fundador das primeiras escolas de futebol de Londrina e cantor do coral Santa Cecília. Nas farmácias em que trabalhou, Olegário sempre atraía grande freguesia. Mas doava remédios a quem não tinha dinheiro, ou vendia fiado, e depois sofria descontos salariais para sanar a dívida. Fatos como este foram constantes na vida do compositor.
Entre os fragmentos da obra de Olegário, está o maxixe Vamos Apanhar Gabiroba, gravada pela dupla Ouro e Prata na RGE e que ficou um mês nas paradas brasileiras. O bolero Eu Moro Onde Mora a Saudade foi gravado por Miguel Angelo, e Flor Mulher ganhou interpretação de Waldick Soriano. Ultimamente, Olegário Mazzer foi lembrado pela cantora londrinense Eliane Camargo, que gravou, entre outras, Chuva de Verão. O compositor também fez uma marcha-hino para o Londrina Esporte Clube.
Entre as gravações, foi protagonista de um curioso plágio. Uma de suas músicas, Ciúmes de Mar, chegou misteriosamente ao exterior, onde foi regravada por Herb Albert e o grupo Tijuana Brass com o título Felicia, sem o verdadeiro crédito. Posteriormente, lembra Otaviano, a música foi incluída na trilha sonora de um filme. Pegamos alguns discos e levamos para o advogado, para dar início ao processo, mas depois o Olegário desistiu, preferiu deixar para lá.
Bernardo Pellegrini no CD Quero Seu Endereço, incluiu Saudade do Meu Paraná gravada anteriormente por Saraiva e seu Regional, que trazia Caçulinha como solista de acordeom. Olegário era um cancionista, que na teoria de Luiz Tatit é o artista que percebe o discurso sonoro popular e une música à fala do povo, organizando discursos, sonoridades e criando um novo gênero, a canção brasileira, espécie de documentário permanente sobre a vida cotidiana. Londrina já pode reivindicar para si uma escola de autores. A mesma tradição que fez de Arrigo Barnabé uma referência dos limites da moderna canção, fez de Olegário um autor extremamente popular, avalia Pellegrini.
Apreciador de pimenta, churrasco, frutas e vinho, Olegário Mazzer driblava a tristeza lembrando histórias engraçadas. Uma de suas preferidas, que ele garantia ter presenciado, deu-se na infância. Lá na região da fazenda onde morava, em meio a colônias de imigrantes, houve um casamento farto. A festa já havia acabado quando apareceram uns convidados. O anfitrião, italiano, conduziu os convivas atrasados até o local do banquete, preocupado com o fim da comida. Lá, um senhor mordia uma cabeça de porco assado. O anfitrião se irritou:
Você devorou esse porco sozinho?
O glutão respondeu:
Sozinho não, comi com polenta e vinho.O compositor Olegário Mazzer morreu na última segunda-feira, em Londrina, sem deixar registro da maioria de suas canções
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